28 de junho de 2012

Tim Crane: Arte e Arte*


Que importa, afinal, se o vinho é um objecto artístico? O vinho não é tradicionalmente valorizado como arte, mas e depois? Ainda assim, é valorizado. Por que não introduzir uma categoria mais ampla, arte*, que inclui tudo aquilo que agora concebemos como arte e também o vinho, mobiliário, certos pratos gastronómicos, etc.? "Arte*" poderia significar: artefactos humanos esteticamente avaliáveis. Poderíamos então substituir arte* a arte nas nossas discussões e a definição de "arte" seria remetida para o caixote do lixo das pseudo-questões.
Isto parece-me uma manobra superficial. O conceito de arte é demasiado importante na nossa cultura para que se rejeite a questão "O que é a arte?" como uma pseudo-questão. Mesmo não havendo uma resposta consensual para a questão, as tentativas de lhe responder produziram as suas próprias ideias sagazes. Mas na perspectiva do que é mais valioso para nós como consumidores de objectos estéticos, as semelhanças entre artefactos humanos esteticamente avaliáveis - obras de arte* - importam mais do que as diferenças entre elas e as obras de arte.  Noutras perspectivas, a distinção entre arte e arte* pode ser muito importante, mas se algo o vinho nos ensina é que no que diz respeito ao valor dos nossos artefactos, não raro o estético ou sensorial contam mais do que o artístico propriamente dito.

Tim Crane: Wine as an Aesthetic Object

27 de junho de 2012

Pesquisa tendenciosa?

Muitos historiadores e sociólogos do conhecimento afirmam com segurança que toda pesquisa é tendenciosa. Pergunto-me como esse fato foi descoberto. Não é tautológico ou mesmo autoevidente. Certamente foi preciso investigação -- isto é, pesquisa -- para descobri-lo. Mas na medida em que a pesquisa é tendenciosa, as conclusões a que ela chega não merecem confiança. Assim, essa conclusão, a de que toda pesquisa é tendenciosa, se correta, não tem de merecer confiança. E, naturalmente, se estiver incorreta, então também não merece confiança. Portanto, não merece confiança. Poderia ser verdadeira, mas não podemos ter boas razões para pensar que seja.
 Jarret Leplin, A novel defense of scientific realism; Oxford University Press, 1997.

23 de junho de 2012

Seis Sinais de Cientismo



1. Usar as palavras "ciência", "científico", "cientificamente", "cientista", etc., honorificamente como termos genéricos de louvor epistêmico.

2. Adotar as maneiras, as pompas, a terminologia técnica, etc. das ciências a despeito de sua real utilidade.

3. Uma preocupação com a demarcação, i.e., em traçar uma linha precisa entre a ciência genuína, a coisa real, e impostores "pseudo-cientistas".

4. Uma preocupação correspondente com a identificação do "método científico", presumido a explicar como as ciências têm sido tão bem sucedidas.

5. Procurar nas ciências respostas para questões além do seu âmbito.

6. Negar ou denegrir a legitimidade ou a excelência das outras espécies de investigação distintas da científica, ou o valor de atividades humanas distintas da investigação, tais como a poesia ou a arte.

Susan Haack, Six Signs of Scientism

18 de junho de 2012

Prazer desinteressado?


"X é adorável (lovely) só se o adoramos e (de algum modo) desejamos ter X. X é ominoso só se prenuncia um perigo eminente para nós. É trágico só se frustra os nossos desejos mais nobres. É cómico (funny) só se satisfaz o desejo justo de que o desejo de outrem seja frustrado. É lírico só se exprime os nossos desejos puros e nobres. É brutal só se satisfaz o nosso desejo frustrando os desejos de outros. É reles (cheap) só se constitui a satisfação de um desejo de modo desonesto ou indigno. É ostentoso ou pomposo (gaudy) só se satisfaz um desejo de auto-afirmação e auto-engrandecimento. As coisas sublimes e reverendas são apenas as que são mais poderosas do que nós, coisas que nos podem ferir e as quais não podemos forçar a anuir com os nossos desejos. As coisas ternas (tender) são as que estão à nossa mercê, coisas cujos desejos (se os tivessem) poderíamos facilmente frustrar. As coisas “fofinhas” (cute) são as que apelam aos nossos instintos e sentimentos paternais ou protectores e nos dão um modo fácil de satisfazer os seus desejos. Estas propriedades estéticas e outras do mesmo género são observadas só quando o desejo interpreta perceptivamente a natureza.
Todas estas propriedades estéticas reflectem o impacto que o seu objecto tem nos nossos desejos reais. Considere-se as coisas “fofinhas” (Cuteness): o meu gato parece-me “fofinho”, mas se eu encolhesse em tamanho (digamos, como no filme Querida, Encolhi os Miúdos), pareceria ameaçador, terrível, sinistro, até malévolo (evil). Godzilla e King Kong parecem horrendos, visto que podiam ter um impacto devastador nos nossos desejos, mas são também algo caricatos (ludicrous) porque nos é subtilmente assegurado de que, sendo estúpidos, podemos controlá-los (o último aspecto é evitado numa tragédia). A sua atracção estética deve-se também ao nosso desejo (vergonhoso) de ver outros destruídos enquanto permanecemos sãos e salvos (a satisfação da Schadenfreude).”

Eddy Zemach, Real Beauty, Penn State Univ. Press, 1997.

15 de junho de 2012

Scruton em Lisboa


O filósofo inglês Roger Scruton estará já na próxima segunda-feira, dia 18 de Junho, em Lisboa. Irá proferir, no Instituto de Filosofia da Linguagem da Universidade Nova de Lisboa, uma conferência intitulada "Conservatism and the Nation State". A conferência será às 17:00 e insere-se no Colóquio Conservatism and Scepticism, organizado por aquele instituto de investigação.

Representação, Realismo e Leis Científicas


Eis o excelente curso ministrado pelo Prof. Michel Ghins, da Université Catholique de Louvain,  na Escola Paranaense de História e Filosofia da Ciência, na Universidade Federal do Paraná, em agosto de 2011. Todas as aulas estão disponíveis no You Tube.

Boa nova!



Philosophical Devices é o novo livro de David Papineau, com lançamento previsto para setembro deste ano pela Oxford University Press. O livro explica de maneira clara e acessível noções técnicas centrais que permeiam todo o debate filosófico contemporâneo, como por exemplo, mundos possíveis, verdades necessárias e contingentes, condicionalização, completude, etc. É certamente mais um livro indispensável para a boa formação filosófica! 

10 de junho de 2012

Que seria de nós sem o acordo?

O que vale é que temos o acordo ortográfico. Não sei como iríamos entender-nos sem ele, como deixa antever este pequeno exemplo que circula pela rede. 


1 de junho de 2012

Lógica e teoria da argumentação

Todos aqueles que estudam ou se interessam pela lógica e pela teoria da argumentação, terão à sua disposição, já a partir deste mês de Junho, o livro Inside Arguments: Logic and the Study of Argumentation (Cambridge Scholars Publishing), organizado por Henrique Jales Ribeiro, professor associado da Universidade de Coimbra, onde ensina lógica, retórica e teoria da argumentação, tanto a estudantes de licenciatura como a estudantes de pós-graduação.

O livro reúne um conjunto de 18 ensaios baseados em outras tantas comunicações apresentadas no colóquio internacional "Inside Arguments", realizado na primavera do ano passado na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Entre os autores dos ensaios contam-se alguns dos mais destacados especialistas internacionais da área, como são os casos de Douglas Walton, Alec Fisher e Frans van Eemeren, entre outros.