26 de julho de 2012

Onde estão os filósofos neoliberais?


Será que «neoliberalismo» faz parte do vocabulário filosófico? Será o neoliberalismo uma teoria política?

«Neoliberalismo» é um dos termos que têm surgido com mais frequência na discussão pública de questões políticas. Muitas vezes não se chega a perceber bem se se está a falar de uma filosofia política ou de uma doutrina económica, que são coisas diferentes, embora não desligadas. Vale, pois, a pena tentar compreender melhor do que se está exactamente a falar quando se fala de neoliberalismo.

É certo que o uso frequentemente depreciativo do termo não ajuda a esclarecer a coisas, pois dá a ideia de que se trata de algo que é obviamente mau e indesejável. Mas, se o neoliberalismo for algo assim tão obviamente mau e censurável, como poderá alguém minimamente razoável assumir-se claramente como neoliberal? Postas as coisas deste modo, esperar que um neoliberal confesse o seu neoliberalismo é como esperar que um egoísta confesse o seu egoísmo, ou que um manipulador se assuma publicamente como tal. 

Assim, é melhor deixar de parte o uso valorativo dos termos «neoliberal» e «neoliberalismo» e tentar ver antes, de forma desapaixonada, o que têm de comum aqueles autores que são habitualmente classificados como neoliberais.

Centrando-nos nos casos mais conhecidos, apontam-se por vezes os nomes de Friedrich Hayek e Ludwig von Mises, como principais inspiradores. Mas estes são economistas, não filósofos. Nomes mais recentes são os de Milton Friedman e Alan Greenspan, também eles economistas. E há também quem indique Ronald Reagan e Margaret Thatcher, que não são economistas nem filósofos. Parece, pois, não ser fácil encontrar filósofos políticos que defendam o neoliberalismo. 

Talvez algumas pessoas se sintam tentadas a indicar os nomes de filósofos como Robert Nozick ou David Gauthier. Mas isso é enganador, pois estes filósofos fizeram questão de se demarcar claramente do liberalismo contemporâneo de Rawls e Dworkin (que se distinguem dos liberais clássicos, como Locke e Kant), sendo alguns dos seus mais fortes críticos. Daí que Nozick e Gauthier sejam conhecidos como libertaristas, não como neoliberais. E os libertaristas nem sequer foram menos críticos do liberalismo do que os comunitaristas e os marxistas.

Será, pois, adequado falar de neoliberalismo nas discussões de teoria política? Volto, então, a perguntar: onde estão os filósofos neoliberais?

Talvez fosse bom assentar que, apesar da confusão conceptual reinante, o neoliberalismo não é realmente uma teoria política.  A não ser que não esteja a ver bem e haja por aí algum leitor que me queira esclarecer. 

Estou, sinceramente, aberto a isso.

16 de julho de 2012

Marx morreu?


«Deus morreu, Marx morreu, e eu próprio não me sinto lá muito bem», dizia Woody Allen.

Espero, sinceramente, que Woody Allen se sinta melhor. A avaliar pela sua actividade recente como realizador, parece estar de saúde. Quanto a Deus, também não vale a pena perder muito tempo com isso, pois ainda que morra, ele há-de saber como dar a volta ao assunto e acabará sempre por ressuscitar. 

Mas o que é feito de Marx? Estará mesmo morto? Terá ele resistido à queda do Muro de Berlim e à manifesta agonia dos regimes que diziam mantê-lo bem vivo? Será que os livros de filosofia política contemporânea ainda se dão ao trabalho de discutir Marx? 

Ora, basta folhearmos uma das mais prestigiadas introduções à filosofia política contemporânea, como é o caso de Contemporary Political Philosophy: An Introduction, de Will Kymlicka, para verificarmos que afinal o morto ainda mexe. E a avaliar pelo destaque que no seu livro Kymlicka dá ao marxismo (praticamente o mesmo que a qualquer outra grande teoria política contemporânea, como o liberalismo social de Rawls e Dworkin, o libertarismo de Nozick e Gauthier, ou o comunitarismo de Sandel, Walzer, McIntyre e Taylor), Marx não só não está sequer doente, como parece gozar de boa saúde. 

É certo que o marxismo actual abandonou ou reformulou algumas das teses defendidas por Marx. Mas isso tem-se verificado sobretudo em relação às suas teses empíricas, como é, em parte, o caso do materialismo histórico. Contudo, é precisamente quando o Muro de Berlim cai e os regimes comunistas inspirados por Marx se começam a render ao capitalismo reinante que o marxismo ganha um novo fôlego. E a esta curiosidade junta-se uma outra: a enorme revitalização do marxismo que se tem verificado a partir dos anos 80 do século XX deve-se quase exclusivamente a filósofos e pensadores políticos que, eles próprios, se reclamam de analíticos. A tal ponto que a esta recente redescoberta de Marx se costuma chamar «marxismo analítico», tendo como principais representantes filósofos e pensadores políticos oriundos do universo anglo-saxónico, entre os quais se destaca o filósofo G. A. Cohen. 

Os marxistas analíticos procuram não tanto reconstruir as teses empíricas de Marx, mas antes avançar com argumentos a favor da legitimação moral dos ideais comunistas, adoptando uma perspectiva marxista predominantemente normativa e desenvolvendo uma teoria marxista da justiça que evite as alegadas deficiências de teorias da justiça como a de Rawls. 

O capítulo do livro de Kymlicka discute criticamente, e com algum pormenor, os argumentos dos marxistas analíticos, nomeadamente as suas duas principais tendências: o marxismo perfeccionista e o marxismo kantiano. 

Como se vê, Marx está longe de morrer. Podemos não concordar com os marxistas, mas certamente não com o argumento de que está definitivamente morto e enterrado. Nada podia ser mais enganador.          

12 de julho de 2012

Uma falácia à procura de nome

Chama-se falsas às notas que parecem verdadeiras. Esta parece verdadeira. Portanto, é falsa.

1. «Consideram-se falácias informais os argumentos que parecem ser dedutivamente válidos.»

A afirmação 1 ou é verdadeira ou é falsa. Um colega insistia ontem comigo que é verdadeira, até porque viu isso bem defendido algures. Mas tal afirmação é tão verdadeira como a seguinte:

2. «Consideram-se gatos os animais com pelos.»

Ora, qualquer pessoa sabe que 2 é falsa, mesmo sendo verdade que todos os gatos têm pelos. Isto porque não basta (não é suficiente) um animal ter pelos para ser considerado (ou chamado) gato.

Se substituirmos a expressão «falácias informais» por «gatos» e «os argumentos que parecem dedutivamente válidos» por «animais com pelos» verificamos facilmente que estamos perante afirmações idênticas, só que acerca de coisas diferentes.

Assim, se dizemos que 2 é falsa, temos também de admitir que 1 é igualmente falsa.

E de nada serve dizermos que estamos a falar de coisas diferentes: se for falso, como é efectivamente, que 3 cebolas são mais cebolas do que 5 cebolas, então também tem de ser falso que três batatas são mais batatas do que 5 batatas. Falar de cebolas ou batatas é tão irrelevante como falar de falácias informais ou de gatos.

Se a afirmação 1 fosse verdadeira, então nada haveria de errado no seguinte raciocínio da Joaquina, que vende gelados na praia:

JOAQUINA: Olhó gelado fresquinho!
CLIENTE ANÓNIMO: Minha senhora, dê-me um gelado de chocolate, por favor.
JOAQUINA: Aqui tem.
CLIENTE ANÓNIMO: Bom, não tenho trocado. Posso pagar com uma nota de 50?
JOAQUINA: (observando com cuidado a nota) Humm...
CLIENTE ANÓNIMO: O que passa? Está com dúvidas?
JOAQUINA: Humm... ok, parece verdadeira.
CLIENTE ANÓNIMO: Ah!
JOAQUINA: Logo, é falsa.
CLIENTE ANÓNIMO: Hã?

Alguém convenceu a Joaquina que se consideram falsas as notas que parecem verdadeiras. Simplesmente considerou que a nota era falsa, dado que parecia verdadeira.

A Joaquina aplicou bem o que aprendeu. Só que um raciocínio que nos leva de premissas verdadeiras a uma conclusão falsa tem de padecer de algum vício, mesmo que pareça válido. É o que acontece precisamente com as falácias.

Temos, portanto, aqui uma falácia. Hesito em lhe dar um nome. Aqui fica, pois, esta falácia à procura de um nome. Há ideias?

10 de julho de 2012

Temos maus alunos de Filosofia?

Foto: Aires Almeida

Foram ontem publicados os resultados dos exames de Filosofia do 11º ano, da 1ª fase e não parecem mesmo nada animadores. Vejamos:

A média nacional é negativa, de 8,9 valores, contando apenas os alunos internos. Se contarmos os internos e os externos, a média desce para 7,8 valores.  

Os valores anteriores atiram directamente a Filosofia para o pódio dos piores resultados, tendo apenas atrás de si as temidas disciplinas de Física e Química e de Matemática B.

Nenhum aluno é obrigado a fazer o exame de Filosofia, ao contrário do que acontece com os alunos que frequentam as disciplinas de Matemática e de História A, por exemplo. 

Por um lado, o exame de filosofia funciona, na maior parte dos casos, como uma espécie de joker que os alunos podem usar em vez de fazerem exames de outras disciplinas nas quais sentem mais dificuldades. Por outro lado, os que fazem o exame de Filosofia, não porque se sintam mais confortáveis com a disciplina, fazem-no porque pretendem ingressar em algum curso superior que exige como prova de ingresso o exame de Filosofia.  

Será que temos mesmo maus alunos de Filosofia? Como explicar este inesperado e intrigante insucesso?

7 de julho de 2012

Grayling e José Gil no 10º Encontro Nacional de Professores de Filosofia


Os filósofos Anthony Grayling e José Gil serão os convidados principais do 10º Encontro Nacional de Professores de Filosofia, organizado pela Sociedade Portuguesa de Filosofia em parceria com o Departamento de Filosofia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. 

O encontro irá decorrer nos dias 7 e 8 de Setembro, nas instalações dessa faculdade (Av. de Berna, 26- C, Lisboa), tendo o recém-criado Centro de Formação da SPF solicitado a acreditação do encontro para efeitos de atribuição de 0,6 créditos de formação aos professores participantes.

Haverá ainda comunicações de António Zilhão (UL), Porfírio Silva (IST), Vítor Correia (UNL), Patrícia Fernandes (UM), Joana Pontes (IFUL), Pedro Galvão (UL), Dina Mendonça (UNL), Luís Bernardo (UNL) e Domingos Correia (E. S. Sebastião e Silva e Presidente da Comissão Organizadora das Olimpíadas Nacionais de Filosofia). Será também entregue o Prémio de Ensaio Filosófico SPF 2011 a Ricardo Silva (UL), seguido de uma comunicação do autor baseada no seu ensaio, além das comunicações dos colaboradores deste blog Vítor Guerreiro, eu próprio e José Gusmão, que foi o vencedor da medalha de prata das Olimpíadas Internacionais de Filosofia do ano passado.

Pode-se obter aqui mais informações sobre o programa e inscrições.