25 de Setembro de 2012

Filosofia ao Vivo no Rio de Janeiro


23 de Setembro de 2012


O GEOFF (Grupo de Estudos de Filosofia da Física) é um grupo independente, sem vinculação direta com qualquer instituição. A participação é gratuita e aberta para qualquer pessoa, independentemente do nível de escolaridade e localidade. Seu principal  objetivo é estimular a pesquisa, a produção e divulgação da Filosofia da Física estabelecendo um ambiente de interação -– via grupo de e-mails e fórum de discussões -– entre estudantes de diversas localidades. Os trabalhos produzidos pelos participantes são discutidos e revisados por outros participantes. Para auxiliar a produção bibliográfica, eles têm a oportunidade de se inscrever como integrantes de módulos de estudo e projetos de tradução, havendo ainda, e principalmente, a liberdade de produção de trabalhos independentes. Tanto os módulos de estudo quanto os projetos de tradução são propostos e coordenados pelos próprios participantes.


19 de Setembro de 2012

Extinção?



Eis dois ótimos livros introdutórios que ainda podemos achar enterrados em sebos Brasil a fora! Escolha e Acaso (Choice and Chance) de Brian Skyrms -- traduzido por Leônidas Hegenberg e Octanny S. Mota (Cultrix, 1971) --, e Filosofia da Ciência Natural (Philosophy of Natural Science) de Carl Hempel -- traduzido por Plínio Sussekind Rocha (Zahar, 1970) --, ambos originalmente publicados em 1966, estão entre os clássicos da bibliografia introdutória em filosofia. O que não consigo entender é como livros tão bons tenham sido esquecidos por essas editoras, que ainda estão na ativa. Certamente seria uma boa vê-los republicados. 

17 de Setembro de 2012

De onde vêm os leitores da Crítica?

Um leitor escreveu-me a perguntar gentilmente sobre quem seriam os visitantes deste blog, mais precisamente sobre se a maioria eram leitores portugueses ou brasileiros. Fui consultar as estatísticas do Blogger e, para quem, como este leitor, tenha alguma curiosidade sobre quem costuma passar por aqui, ficam alguns dados muitíssimo gerais.

Durante o primeiro dos cerca de 4 anos de existência deste blog, o maior número de visitas tinha origem em Portugal. Porém, o número de visitantes do Brasil ultrapassou já, em muito, o de Portugal. Os cinco países com maior número de visitas são os seguintes (por ordem decrescente): Brasil, Portugal, EUA, França e Alemanha. 

Mas nos últimos meses verifica-se uma tendência curiosa. Apesar de o número mensal de visitas com origem em Portugal continuar a subir, este número tem sido ultrapassado pelo dos EUA (quase cinco mil por mês). E verifica-se também um aumento muito significativo de visitantes da China. Assim, nos dois últimos meses os cinco países com maior número de visitantes são (novamente, por ordem decrescente): Brasil, EUA, Portugal, França e China.

Não sei se isto terá alguma relevância, mas pode ser que haja outros leitores que gostem de saber destas coisas.  

15 de Setembro de 2012

Pensar de A a Z

A Bizâncio acaba de anunciar a edição do livro de Nigel Warburton, Pensar de A a Z, na colecção Filosoficamente, dirigida por Desidério Murcho. A tradução é de Vitor Guerreiro, com introdução e notas de Desidério Murcho.

11 de Setembro de 2012

Metafilosofia

São bem conhecidas as posições dos positivistas lógicos e de Wittgenstein sobre a natureza e metodologia da filosofia. Apesar de os primeiros estarem na origem da concepção naturalista da filosofia e do segundo influenciar fortemente a concepção metafilosófica da chamada «viragem linguística», a verdade é que a discussão filosófica sobre a própria natureza da filosofia nunca chegou a despertar o interesse que talvez merecesse. Foi assim que, tal como com as anteriores, também as concepções pragamatista, hermenêutica e ironista (ou pós-modernista) da filosofia só indirectamente foram desafiadas e discutidas. Isso parece, contudo, estar a mudar e há já sinais credíveis de que a metafilosofia está a conquistar o espaço próprio de uma verdadeira disciplina filosófica. Dois dos mais sólidos indícios são os livros The Philosophy of Philosophy (Blackwell, 2007), de Timothy Williamson, e What Philosophers Know (Cambridge, 2009), de Gary Gutting. Dois livros que vale mesmo muito a pena ler.






5 de Setembro de 2012

Filosofia - Uma Introdução por Disciplinas


Na próxima sexta-feira, às 16:40, será feito o lançamento, no 10º Encontro Nacional de Professores de Filosofia, na Universidade Nova de Lisboa, do livro Filosofia - Uma Introdução por Disciplinas (Edições 70), organizado por Pedro Galvão, que será apresentado pelo próprio.

Na apresentação prévia da editora lê-se o seguinte:

Os autores deste livro partilharam o objectivo de conseguir um guia de estudo para a Filosofia estruturado tematicamente -- i. e. em função de questões, perspectivas e argumentos, sem qualquer preocupação primariamente histórica. Nos onze capítulos que compõem o presente volume, encontramos assim um mapa conceptual da Filosofia que cobre não só as suas disciplinas principais, mas também muitas das suas áreas mais especializadas.

Os capítulo e respectivos autores são os seguintes:

LÓGICA - Ricardo Santos
METAFÍSICA - Desidério Murcho
EPISTEMOLOGIA - Célia Teixeira
ÉTICA - Pedro Galvão
FILOSOFIA POLÍTICA - João Cardoso Rosas, Mathias Thaler e Iñigo González
FILOSOFIA DA RELIGIÃO - Agnaldo Cuoco Portugal
FILOSOFIA DA CIÊNCIA - António Zilhão
FILOSOFIA DA LINGUAGEM - Teresa Marques e Manuel Gracia-Carpintero
FILOSOFIA DA MENTE - Sara Bizarro
FILOSOFIA DA ACÇÃO - Susana Cadilha e Sofia Miguens
ESTÉTICA E FILOSOFIA DA ARTE - Aires Almeida

4 de Setembro de 2012

Teólogos e filósofos

Eis uma piada engraçada que me contaram hoje:

Um teólogo e um filósofo discutem os méritos relativos das disciplinas a que se dedicam.

O teólogo diz:   A filosofia é como um homem cego que procura numa cave completamente escura um gato preto que não está lá.

O filósofo responde: Pois, e a teologia encontra o gato.




3 de Setembro de 2012

Grayling e Blackburn: duas entrevistas interessantes


O conhecidíssimo filósofo inglês Anthony Grayling (que no próximo sábado fará uma conferência em Lisboa, no 10º Encontro Nacional de Professores de Filosofia) tem-se visto envolvido recentemente  numa animada polémica em Inglaterra. A origem da polémica prende-se com a criação, no ano passado em Londres, do já famoso New College of the Humanities (NCH), uma instituição privada de ensino superior, que procura dar formação especializada de excelência na área das humanidades: filosofia, história, economia, direito e literatura. Parece que o NCH tem bastantes estudantes interessados, até porque o elenco de professores é uma verdadeira constelação de estrelas: Simon Blackburn, Daniel Dennett, Peter Singer (filósofos), mas também Richard Dawkins, Steven Pinker e Lawrence Krass (história natural, psicologia e ciência), além do filósofo do direito Ronald Dworkin, do crítico literário e professor Christopher Ricks e dos historiadores Linda Colley e Niall Ferguson. O cerne da polémica é a escola ser privada e de as propinas anuais rondarem as 18 mil libras.

Grayling, que abandonou o seu lugar de professor no prestigiado Birkbeck College, da Universidade de Londres, para fundar e se dedicar inteiramente ao NCH, tem sido acusado de virar costas ao ensino público e de promover um ensino elitista, inaceitável sobretudo vindo de alguém associado à esquerda e que tem sido um dos mais destacados defensores do humanismo contemporâneo. O crítico literário e colunista do Guardian, Terry Eagleton, sugere mesmo que Grayling se rendeu ao mercantilismo.

Vale, pois, a pena ler este artigo do último número da revista New Humanist, baseado numa entrevista com o próprio A. C. Grayling, e na qual este responde com muita ponderação às acusações que lhe são feitas. A ideia de Grayling é que ele está simplesmente a contribuir para salvar o ensino das humanidades, uma vez que o governo decidiu deixar de as financiar e não parece que as coisas tendam a inverter-se no futuro. Quanto às críticas de elitismo, sugere que o futuro das humanidades depende da qualidade da formação dos estudantes e não da sua quantidade, acrescentando que o montante das propinas é até inferior ao que se despende nas outras universidades, incluindo as públicas. Acrescenta que, para surpresa de muitos, um bom ensino das humanidades é mais caro do que o das ciências e que a escola tem previsto um sistema de bolsas e de angariação de estudantes sem capacidade financeira para suportar as propinas, de modo a garantir que os melhores não sejam excluídos.

Mas o melhor mesmo é o leitor ler o artigo.

Outra entrevista que vale muito a pena ler é esta entrevista de Simon Blackburn ao 3:AM Magazine. Blackburn, um filósofo desempoeirado que tanto escreve coisas estritamente destinadas à discussão com outros filósofos como escreve para o grande público, confessa que não gosta de ser descrito como um popularizador da filosofia. O que procura fazer, diz, não é tanto trazer (ou fazer baixar) a filosofia às pessoas, mas antes levar (ou fazer subir) as pessoas à filosofia. Entre muitas outras coisas interessantes para o leitor.


2 de Setembro de 2012

Dummett, metafilosofia e uma disputa sobre o tempo


"Sobre o quê, então, é a filosofia? Para Quine e alguns outros filósofos americanos contemporâneos, a filosofia é simplesmente a parte mais abstracta da ciência. Ela não faz, de facto, qualquer observação ou conduz quaisquer experimentos próprios; mas pode, e deve, incorporar as descobertas das ciências para construir uma teoria naturalizada do conhecimento e da mente. Propriamente falando, então, ela deve ser classificada com as ciências naturais.

Wittgenstein era da opinião exactamente oposta. Para ele, a filosofia encontra-se em completo contraste com a ciência: os seus métodos divergem completamente daqueles da ciência e o seu objectivo diverge em igual grau. Provavelmente a maior parte dos filósofos praticantes hoje iria concordar com isto e acrescentaria que os resultados da filosofia divergem totalmente daqueles da ciência. Wittgenstein era mais radical. Ele não pensava que a filosofia possui quaisquer resultados, na forma de proposições enunciáveis que foram descobertas ser verdadeiras; a filosofia meramente lança luz naquilo que nós já conhecemos de outras fontes, permitindo-nos vê-lo com olhos que não estejam enevoados por confusão intelectual.

A melhor maneira de resolver esta disputa, e dizer sobre o que é a filosofia e porque meios procede, é considerar um problema filosófico de amostra. Pelas razões explicadas no capítulo precedente, não foi até ao século dezanove que fez sentido perguntar por um exemplo de problema filosófico, por oposição a um problema de outro tipo; até hoje, poderia facilmente haver disputas sobre se um problema pode ser genuinamente filosófico ou não. Mas há casos paradigmáticos de problemas que toda a gente pode concordar que são filosóficos por natureza. Um seria este: O tempo realmente passa?

Uns podem dizer que evidentemente o faz: o mundo muda assim que novos eventos ocorrem; estes eventos anteriormente permaneciam no futuro e vão, no tempo devido, acabar e retroceder para o passado. Mas outros negam que o tempo passe neste sentido. Existem relações temporais entre eventos – certos eventos temporalmente precedem outros – mas isto é tudo o que o tempo é: ser uma dimensão em que eventos têm diferentes localizações.

Este é claramente um desacordo filosófico. É de facto, um desacordo metafísico: é sobre a natureza, não da mente ou do comportamento humanos, mas da realidade externa. Face a esse desacordo, como deve um filósofo proceder? Ele pode começar por perguntar aos defensores da passagem do tempo para clarificar a sua tese. O que, ele pode perguntar, é que eles pensam que é? Uns podem replicar que o que vai ser não é, e o que deixou de ser não é: tudo o que é existe agora. Isto significa, ele inquire, que asserções sobre o que vai acontecer ou sobre como as coisas anteriormente eram são nem verdadeiras nem falsas? Porque, ele insiste, uma asserção só pode ser verdadeira se houver algo em virtude de que seja verdadeira: portanto, se tudo o que é, é o que existe agora, nenhuma asserção sobre o futuro ou sobre o passado pode ser verdadeira. Alguns podem entusiasticamente concordar. A realidade, dizem eles, está em constante mudança. As únicas asserções verdadeiras são aquelas que representam a realidade como é, isto é, como é agora; não pode haver verdades sobre o que vai ser ou sobre o que foi.

Outros crentes na passagem do tempo podem dar uma resposta mais moderada. Eles podem insistir que o filósofo se esta a esquecer que o verbo “ser” tem modos temporais. Se for perguntado o que é, no modo presente, a resposta deve ser restrita ao momento presente; mas também há respostas às questões sobre o que vai ser e sobre o que já foi. O princípio de que uma asserção pode ser verdadeira só se existir algo em virtude de que é verdadeira deixa passar o facto que a natureza flectida do verbo “ser”: deve ser verdade “só se há, vai haver, ou houve algo em virtude de que é verdadeira.” O que, então, diferencia esta posição daqueles que negam a passagem do tempo? pergunta o filósofo. Essas pessoas deixam de fora da sua descrição da realidade um facto essencial, é-lhe dito, nomeadamente, que certos eventos ordenados por sequência temporal estão a ocorrer agora.

O céptico responde que a questão “Que evento está a acontecer agora?" meramente pergunta que evento é simultâneo com o perguntar da questão, que é ele próprio outro evento. Não, o oponente dele responde. Quando uma experiência dolorosa cessa e eu exclamo, “Graças a Deus que isto acabou”, eu não estou a regozijar-me por uma mera relação de precedência temporal, ele diz, pois eu já sabia em avanço que eu devia dizer, “Graças a Deus que isto acabou”, e que eu dizê-lo só ocorreria depois da experiência ter chegado ao fim. Tudo o que isto significa, o oponente da passagem temporal replica, é que o teu sentimento de alívio seguiu-se, em vez de preceder, o fim da experiência dolorosa; é ainda apenas uma questão de sequência temporal.

O crente na passagem do tempo pode agora objectar que o seu oponente está a espacializar o tempo, tratando-o como apenas mais uma dimensão a acrescentar às três do espaço. Isso, ele diz, abole o tempo, já que não permite a realidade da mudança, enquanto que a mudança é da essência do tempo. O seu oponente replica que ele reconhece a mudança: existe mudança quando uma proposição verdadeira é convertida numa falsa substituindo uma especificação temporal ocorrente nela por uma diferente. “É precisamente isso que estou a dizer,” o defensor da passagem do tempo pode exclamar: “poderias definir ‘mudança espacial’ substituindo ‘especificação de lugar’ por ’especificação temporal’; mas de facto de haver relva neste lugar e nenhuma a um quilómetro de distância não implica que alguma mudança ocorreu ou está a ocorrer.” “Isso é contrário à maneira como falamos,” pode ser replicado: nós dizemos tais coisas como “O terreno muda a este do local.” “Só porque nos imaginamos a viajar nessa direcção,” o outro responde.

Nós não precisamos de seguir o debate desta disputa bem conhecida mais longe; levada só até aqui, ilustra adequadamente o carácter da discussão filosófica. A disputa certamente concerne a realidade: de acordo com a posição que alguém tome sobre ela, ele irá conceber o mundo de uma maneira ou de outra. Mas o assunto não pode ser resolvido por meios empíricos: teorias científicas podem ser de importância – por exemplo, é relevante que, de acordo com a relatividade especial, a simultaneidade seja relativa a um sistema de referência. Mas a ciência não pode resolver a questão: nenhuma observação pode estabelecer que um lado ou outro está certo. Um filósofo vai procurar ou mostrar que um dos disputantes está certo ou está errado, talvez com alguma clarificação dos dois lados, ou então dissolver a disputa mostrando que ambos os lados podem ser vítimas de alguma confusão conceptual. A filosofia, de facto, está preocupada com a realidade, mas não para descobrir novos factos sobre ela: procura melhorar o nosso entendimento do que já sabemos. Não procura observar mais, mas clarificar a visão do que já vemos. O seu objectivo é, na frase de Wittgenstein, ajudar-nos a ver o mundo correctamente.

Quer o filósofo declare ter resolvido um problema ou tê-lo dissolvido como um pseudo-problema, ele procederá por argumentação racional. A filosofia partilha com a matemática a peculiaridade de não apelar a novas fontes de investigação, mas repousa somente em raciocínios que tenham por base o que já sabemos. Ela difere da matemática na medida em que prefere territórios obscuros. Os matemáticos já se têm às vezes envolvido em análise conceptual, procurando definições de conceitos como equivalência numérica, continuidade e dimensão. Mas os seus objectivos divergem daqueles dos filósofos. Eles pouco se preocupam se as definições a que chegam capturam o conceito como nós implicitamente o entendemos na vida quotidiana: eles estão apenas preocupados em formular um conceito preciso debaixo do qual possa razoavelmente ser dito que um caso determinantemente ou caí ou não caí. Tendo feito isso, a sua argumentação procederá dentro dos limites das definições que eles adoptaram. O raciocínio do filósofo toma lugar na base de um entendimento implícito existente; apela a esse entendimento e logo não é executado, como o do matemático é, dentro de um enquadramento de conceitos já feito preciso.

Logo o único recurso do filósofo é a análise dos conceitos que já possui, mas sobre o qual está confuso; ele procura remover essa confusão. Quer ele procure fazer isso por uma análise das expressões da nossa linguagem ou por qualquer outro meio é uma questão da sua metodologia filosófica; as diferenças metodológicas podem ser marcadas, mas o objectivo é o mesmo. Na disputa filosófica de amostra que nós examinamos, o filósofo não pode argumentar a partir da apreensão de sucessão temporal que pode ser atribuída a uma criança. A questão que estava em disputa só pode surgir para um adulto para quem as nossas maneiras de falar sobre o tempo sejam conhecidas. É pois estéril perguntar se a filosofia é sobre a realidade, sobre os conceitos em termos dos quais pensamos a realidade, ou sobre os meios linguísticos que usamos para expressar esses conceitos. É sobre a realidade por procurar clarificar os conceitos em termos dos quais a concebemos e, logo, as expressões linguísticas por meio da qual formulamos a nossa concepção."

Sir Michael Dummett, The Nature and Future of Philosophy, pp. 7-11.