29 de outubro de 2012

Os filósofos e a discussão pública

                                                  
Nas fotos: Michael Sandel, Martha Nussbaum e Cornel West (com Barack Obama)

Nigel Warburton postou no seu blog Virtual Philosopher a lista dos 10 filósofos vivos que mais têm contribuído para o debate público. Claro que há muitos outros filósofos, tão ou mais interessantes, e que não contribuem tanto como aqueles para o debate público. O mérito filosófico e a contribuição para o debate público não são exactamente coincidentes. Dificilmente se imagina um filósofo da matemática, por muito brilhante que seja do ponto de vista filosófico, ter o impacto público que um filósofo político tem.  Ainda assim, a contribuição para o debate público de ideias não deixa de ser um indicador da importância e da influência de alguns filósofos, pelo que a lista de Warburton tem algum interesse.

Não sei com que critérios foi elaborada a lista, mas decidi gastar dois minutos a pesquisar no Google os nomes daquela lista, mais dois ou três que estranhei não ver lá, tendo-me limitado a ver o número total de referências. 

Tenho de confessar a minha ignorância em relação a Cornel West, de quem conhecia o nome e pouco mais. Mas, a seguir ao esmagador Peter Singer, o mais referido no Google é precisamente West. Isto se não contarmos com todas as vezes que Umberto Eco é referido, caso contrário, este ficaria em segundo lugar (mesmo assim muitíssimo longe de Singer). Só que a maior parte das referências a Eco são sobre os seus romances e não propriamente sobre as suas ideias filosóficas, pelo que não estão relacionadas com o seu contributo para a discussão pública. Mas pude confirmar que alguns nomes ausentes da lista de Warburton são mais frequentes na net do que outros que lá estão. São, por exemplo, os casos de Anthony Grayling e de Roger Scruton. Sobretudo o primeiro destes. 

Uma das muitas coisas (e são tantas!) que os números do Google não mostram, é que alguns filósofos mais jovens têm sido recentemente cada vez mais referidos, o que indica que estão talvez mais presentes na discussão pública actual do que outros que já andam por aí há mais tempo. Parece-me que o caso de Sandel, um filósofo relativamente jovem, tem marcado mais o espaço público da discussão filosófica nos últimos tempos do que o veterano Habermas: o primeiro livro publicado por Habermas data de 1962, ao passo que o primeiro publicado por Sandel data de 1982.

Tendo todos estes aspectos em conta, eu faria uma lista ligeiramente diferente da de Warburton, acrescentado-lhe mais dois nomes. A lista ficaria assim:

1. Peter Singer
2. Michael Sandel
3. Cornel West
4. Amartya Sen
5. Daniel Dennett
6. Anthony Grayling
7. Kwame Appiah
8. Jürgen Habermas
9. Martha Nussbaum
10. Umberto Eco
11. Roger Scruton
12. Ronald Dworkin

Claro que a influência de cada um entre os seus pares é outra coisa. Para terminar, sublinhe-se o facto de Dennett navegar em águas diferentes (nem melhores nem piores) de todos os outros. O que vos parece? 

23 de outubro de 2012

Conhecimento metafísico


Este é o tema da conferência que o filósofo Jonathan Lowe, professor na Universidade de Durham, irá proferir na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, já no próximo dia 26 (sexta-feira, às 15:00 horas, na sala Mattos Romão).

A conferência promete ser muito interessante, ainda que se trate de uma questão abordada por Lowe em alguns dos seus livros, nomeadamente em The Possibility of Metaphysics (1998). Apesar de este título ter ressonâncias kantianas, Lowe tem procurado apresentar uma resposta em termos muito diferentes de Kant. Já aqui me referi ao que Kant acabou por fazer à metafísica, atirando-a para o beco sem saída do incognoscível e abrindo caminho para que o seu lugar acabasse aos poucos por ser ocupado pela epistemologia. Ora, é precisamente a isso que Lowe se opõe. Mas não só rejeita uma metafísica metodologicamente tutelada pela epistemologia, como rejeita também que tenha de recorrer a metodologias próprias da lógica, da semântica filosófica ou da filosofia da mente. A metafísica deverá, pois, ser feita directamente. Até porque, argumenta Lowe, todos esses ramos da filosofia assumem inevitavelmente certos compromissos estritamente metafísicos que dificilmente poderão ser garantidos pelos métodos usados nessas mesmas áreas.


18 de outubro de 2012

A estética é um assunto muito complicado...

... diz Paul Boghossian. Mas é precisamente onde estão as dificuldades que mais precisos são os bons filósofos. Por isso, é bom saber que um dos seus próximos livros é precisamente sobre estética, em particular sobre o gosto e a objectividade que se pode esperar dos juízos de gosto, como explica no vídeo abaixo. Na sua abordagem, Boghossian irá cruzar a estética com a filosofia da mente. 

Boghossian, que é professor na Universidade de Nova Iorque, tem-se destacado principalmente nas áreas da epistemologia, da filosofia da mente e da filosofia da linguagem. É verdade que já tem dado uma perninha na estética e filosofia da arte, mais precisamente com a publicação de um par de artigos sobre filosofia da música, mas esta será a sua estreia em livro na área da estética. Se conseguir manter a qualidade do que tem publicado até agora, nomeadamente do seu Fear of Knowledge - Against Relativism and Construtivism (2006), então temos boas razões para ficar impacientes.

8 de outubro de 2012

Morreu J. J. C. Smart (1920 – 2012)



Jack Smart, como era conhecido, morreu há três dias a 6 de Outubro de 2012. Era um filósofo australiano, que fazia jus ao seu apelido, cujas contribuições se estendem à metafísica, filosofia da ciência, filosofia da mente e ética, entre outras disciplinas filosóficas. Num futuro post descreverei mais pormenorizadamente algumas das contribuições de Smart para estas disciplinas, respectivamente a sua proposta de uma teoria identativa cérebro/mente tipo-tipo, o seu ataque à inteligibilidade da noção de passagem ou fluxo temporal e a sua defesa do utilitarismo de actos. Por agora, deixo o leitor com um tributo musical (aqui) a Jack Smart, realizado há dois anos, com letra de Kit Fine, estando ele também no piano, e Geoff Brennan no vocal.

4 de outubro de 2012

Jonathan Haidt e os Espantalhos




Nesta crônica Garry Gutting argumenta que Jonathan Haidt fez, no seu último livro, um espantalho das teorias morais de Platão, Kant e Rawls ao tentar refutá-las alegando simplesmente que as pessoas não agem ou raciocinam moralmente do modo previsto pelas teorias morais. O que Haidt se esqueceu foi que os filósofos não estavam fazendo teses empíricas sobre o que as pessoas comuns pensam, um erro corriqueiro entre alguns filósofos experimentais. Vale a pena conferir.

2 de outubro de 2012

Palestra: A Racionalidade da Gratidão





Nesta sexta-feira, dia 5, o Professor Desidério Murcho proferirá a palestra "A Racionalidade da Gratidão" na sala 300F da PUC-Rio como parte dos seminários organizados pelo departamento de Direito e pelo grupo de Ética e Realidade Atual da PUC-Rio. Os seminários terão início às 14:30 iniciando com uma palestra do Prof. Lincoln Frias, seguida pela palestra do Professor Desidério. 

1 de outubro de 2012

A moral da história

No próximo dia 3, quarta-feira, estarei no Rio de Janeiro, na Universidade Federal Fluminense, para fazer uma palestra intitulada "A Moral da História: Ética, Estética e Literatura". Trata-se de uma intervenção no VIII Seminário do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana.