7 de dezembro de 2013

Pensar sobre a ciência


Aqui fica uma novidade editorial e, simultaneamente, uma sugestão para quem compra ou oferece livros no Natal. Introdução à Filosofia da Ciência, é um livro que a própria autora, a filósofa italiana Lisa Bortolotti, apresenta assim:

«Este livro é um guia para as questões filosóficas centrais levantadas pela prática da ciência. Não se destina apenas ao filósofo curioso pela ciência, mas também ao cientista que quer saber mais sobre filosofia. E também a todo aquele que se interessa pelo que confere à ciência um estatuto especial, pese embora a continuidade entre a investigação científica e as outras actividades humanas.»


27 de novembro de 2013

A importância do casamento


Por que o casamento é importante? Para o filósofo conservador Roger Scruton, ele é importante, dentre outras coisas, porque é a instituição por meio da qual o capital social é transmitido às gerações futuras. No entanto, defende o filósofo, ele só pode ser bem sucedido se for um sacramento envolvendo um homem e uma mulher, e não apenas um contrato entre as partes. Scruton também argumenta que outros arranjos, como a união entre pessoas do mesmo sexo, não satisfazem as exigências de um casamento genuíno e não devem ser considerados como tal. Além de discutir o casamento, o filósofo também defende uma concepção particular de desejo sexual. Para ele, o desejo livre de perversões é o desejo por uma pessoa, vista como um fim em si mesmo, e não por seu corpo.

O ensaio compõe o livro A Political Philosophy, lançado em 2006. A tradução é de Aluízio Couto e a revisão é de Nayara Tozei. 

12 de novembro de 2013

Thomas Nagel

E essa é a condição principal do absurdo - obrigar uma consciência transcendente inconvicta a ficar ao serviço desse empreendimento imanente e limitado que é uma vida humana. 

9 de novembro de 2013

Google: todos os filósofos são idiotas (menos um)!


A Google assegura que, quando fazemos uma pesquisa, os resultados sugeridos no preenchimento automático “são um reflexo da atividade de pesquisa de todos os usuários da Web e do conteúdo das páginas da Web indexadas pelo Google.”

Portanto ao fazermos pesquisa com a frase incompleta “o filosofo X é…”, o preenchimento automático irá completar a frase com aquilo que os utilizadores da Internet pensam sobre esse filósofo.

Eis alguns resultados:




(imagem retirada daqui)

Conclusões?

4 de novembro de 2013

Arthur Danto (1924-2013)


Arthur Danto morreu em Nova Iorque no passado dia 25 de Outubro, com 89 anos de idade. Destacou-se sobretudo como filósofo da arte, em particular pelo seu influente artigo «The Artworld», de 1964, que está na origem das conhecidas teorias institucionalistas da arte. 

O seu livro mais importante é provavelmente The Transfiguration of the Commonplace, de 1981, mas escreveu também sobre filosofia da acção, epistemologia e até publicou mais do que uma introdução à filosofia. 

Danto foi durante largos anos professor na Columbia University, em Nova Iorque, e foi também crítico de arte. A notícia no Público da sua morte pode ser lida aqui, assim como este e este obituários.  

30 de outubro de 2013

Cientistas provam a existência de deus

A notícia surge nos jornais deste modo e refere-se à formalização do teorema relativo à existência de deus desenvolvido por Kurt Gödel.



Gödel, amigo de Albert Einstein, e que goza entre a comunidade científica de reputação semelhante, desenvolveu o argumento que agora foi “provado automaticamente em poucos segundos” e que poderá ter aplicações em áreas como a Inteligência Artificial ou a verificação de software e hardware.

Pode ler-se uma descrição detalhada do argumento ontológico de Gödel a favor da existência de deus na Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos, segunda edição.



(agradecemos ao Pedro Lopes pela informação)

22 de outubro de 2013

Peter Singer ensina Ética Prática (grátis)

A partir de Março de 2014, Peter Singer irá apresentar on-line o seu famoso curso de Ética Prática. Neste curso gratuito apresentará de forma introdutória algumas das questões éticas com que nos podemos confrontar no dia-a-dia ou como cidadãos do mundo.



Alguns dos tópicos abordados serão:
  •  Morte cerebral e estado vegetativo persistente (como devemos tratar os indivíduos que estão em estado vegetativo persistente?);
  • Aborto e a condição moral dos embriões e dos fetos (quando, se alguma vez, se justifica o aborto?);
  • Tomando decisões finais sobre a vida (pode a eutanásia e o suicídio médico assistido justificar-se?); 
  • Altruísmo eficaz (qual é a nossa responsabilidade para com as pessoas mais pobres do que nós, qual é a melhor causa e quais são as melhores opções de carreira?); 
  • Alterações climáticas (em que princípios devem as nações acordar quanto à extensão das suas emissões de gases de efeito estufa?);
  • Animais (a igualdade só se aplica a seres humanos?);
  • Valores ambientais (pode alargar-se a ética para além da fronteira da nossa própria espécie, para algo que não sente nada, como plantas, ou a algo que nem sequer tem vida, como montanhas e riachos?);
  • Porquê agir eticamente? (qual é o significado da vida, e o que é levar uma vida boa?). 

19 de outubro de 2013

Neurociência Homunculista (Colin McGinn)

Imagem retirada daqui.

"Aqui eu preciso dizer algo sobre a linguagem padrão que a neurociência veio a assumir nos últimos cinquenta anos. Mesmo livros sóbrios de neurociência nos dizem, rotineiramente, que partes do cérebro “processam informação”, “enviam sinais” e “recebem mensagens” – como se isso fosse tão incontroverso quanto a ocorrência de processos elétricos e químicos no cérebro. Nós precisamos examinar esse linguajar com cuidado. Por que exatamente se pensa que o cérebro pode ser descrito desse modo? Ele é uma coleção de células biológicas como qualquer órgão do corpo, à maneira do fígado ou coração, os quais não são suscetíveis de ser descritos em termos de informação. Dificilmente se pode afirmar que nós observamos transmissão de informação no cérebro, como observamos processos químicos; essa é uma descrição puramente teórica do que está ocorrendo. Então qual é a base para a teoria?

A resposta deve ser certamente que o cérebro está causalmente conectado à mente e a mente contém e processa informação. Isto é, um sujeito consciente tem conhecimento, memória, percepção e o poder da razão – eu tenho vários tipos de informação à minha disposição. Sem dúvida eu tenho essa informação por causa da atividade em meu cérebro, mas daí não se segue que meu cérebro também possua tal informação, muito menos as partes microscópicas dele. Por que nós dizemos que linhas de telefone transmitem informações? Não porque elas sejam intrinsecamente informacionais, mas porque sujeitos conscientes estão em cada extremidade da linha, trocando informação no sentido ordinário. Sem os sujeitos conscientes e seus estados informacionais, fios e neurônios não seriam justificadamente descritos em termos de informações.

O erro é supor que fios e neurônios são homúnculos [pequenos homenzinhos] que de algum modo imitam indivíduos humanos em seus poderes de processamento-de-informação; em vez disso eles são simplesmente o background causal para as transações genuinamente informacionais. O cérebro considerado em si mesmo, independentemente da mente, não processa informação ou manda sinais ou recebe mensagens, não mais do que o coração o faz; pessoas processam informação, e o cérebro é o mecanismo subjacente que as torna capazes disso. É simplesmente falso dizer que um neurônio literalmente “envia um sinal” para outro; o que ele faz é se envolver em certas atividades químicas e elétricas que estão causalmente conectadas às genuínas atividades informacionais.

A ciência contemporânea do cérebro está assim repleta de um injustificado linguajar homunculista, apresentado como se fosse ciência sóbria e estabelecida. Nós descobrimos que fibras nervosas transmitem eletricidade. Nós não descobrimos, no mesmo sentido, que elas transmitem informação. Nós simplesmente postulamos essa conclusão através de falsamente modelar neurônios sobre pessoas. Para colocar a questão um pouco mais formalmente: estados neuronais não têm conteúdo proposicional da maneira que estados mentais têm conteúdo proposicional. A crença de que Londres é chuvosa literal e intrinsecamente contém o conteúdo proposicional de que Londres é chuvosa, mas nenhum estado neuronal contém esse conteúdo desse modo – em oposição a contê-lo metafórica ou derivativamente (John Searle por muito tempo tem defendido com vigor esse tipo de ponto).

E há um perigo teórico nesse linguajar relaxado, porque ele promove a ilusão de que nós entendemos como o cérebro pode dar origem à mente. Um dos atributos centrais da mente é a informação (conteúdo proposicional) e há uma difícil questão sobre como estados informacionais podem vir a existir em organismos físicos. Nós estamos iludidos se pensamos que podemos fazer progresso nessa questão ao atribuir estados informacionais ao cérebro. Para ser justo, se o cérebro processasse informação, no sentido pleno da palavra, então ele seria capaz de produzir estados como crenças; mas simplesmente não é literalmente verdade que ele processa informação. Assim, nós ficamos devidamente nos perguntando como atividade eletroquímica pode gerar estados genuinamente informacionais como conhecimento, memória e percepção. Como tantas vezes, o linguajar homunculista dissimulado gera uma ilusão de compreensão teórica."

Colin McGinn, Homunculism
Resenha de “How to Create a Mind: The Secret of Human Thought Revealed” de Ray Kurzweil (21 de Março 2013)
(Agradecemos a tradução de Lauro Edison)

9 de outubro de 2013

Democracia à venda é o fim da Democracia?

Nesta palestra Michael Sandel refere-se à passagem de uma economia de mercado para uma sociedade de mercado, em que tudo vai estando à venda e depende do nosso poder de compra: a saúde, a justiça, a educação, a política, etc.




Numa mudança desta natureza, para além da óbvia acentuação da desigualdade, Michael Sandel aponta motivos para não se colocar um preço em certos bens morais e cívicos. E o nosso leitor, o que pensa?

8 de outubro de 2013

Teoria do conhecimento



Publicado recentemente, a Introdução à Teoria do Conhecimento, de Dan O'Brien, é um livro acessível,  informado, rigoroso e actual. O autor começa por apresentá-lo assim:


Ao longo do livro usei vários exemplos retirados da literatura e, em especial, do cinema. As histórias dos filmes e dos livros são frequentemente do conhecimento geral, o que pode dar origem a animadas discussões nas aulas acerca dos aspectos filosóficos do enredo ou da caracterização das personagens de uma obra em particular. Este tipo de interdisciplinaridade deve ser incentivado. A filosofia não deve ser vista como uma disciplina árida e académica divorciada da vida quotidiana. Tempos houve ao longo da sua história em que tal aconteceu: ocorre-nos imediatamente o estereótipo dos filósofos medievais esgrimindo argumentos enigmáticos para determinar quantos anjos caberiam numa cabeça de alfinete. Ainda hoje, se atentarmos em certas revistas filosóficas, podemos observar que muitos artigos de investigação são igualmente idiossincráticos e inacessíveis. Existe o perigo de a filosofia se tornar inacessível e desinteressante para as pessoas que vivem fora dos departamentos de filosofia das universidades. Os problemas filosóficos que iremos examinar neste livro são aqueles que dizem respeito ao conhecimento — uma noção que faz parte do nosso dia a dia. Esses problemas vêm sendo debatidos há milhares de anos e podem ser iluminados quer pela leitura de grandes filósofos do passado como Platão, Descartes e Hume, quer pela interpretação das obras de escritores e cineastas que são eles próprios confrontados, ainda que indirectamente, pelas mesmíssimas questões. 

25 de setembro de 2013

Ensinar bem e mal filosofia

Especialmente para professores de filosofia, vale a pena ocasionalmente espiar o blogue de Adonai Sant` Anna, onde já publiquei este artigo sobre educação. A realidade apontada pelo autor do blogue no artigo que aqui destaco não é muito diferente do contexto científico de produção da filosofia em Portugal. Para bom entendedor escusado será dizer que em Portugal, como no Brasil como em qualquer parte do mundo, há casos isolados de excepção, mas que não traduzem o funcionamento geral dos cursos de filosofia. Creio que em Portugal será até um pouco pior. No artigo que aqui se destaca, Adonai reproduz uma parte de um mail recebido de um estudante de filosofia brasileiro que ingressou numa universidade americana.

"[s]into uma diferença imensa no método americano em relação ao qual fui ensinado no Brasil. Apesar de sempre ter gostado de filosofia analítica, o que era exigido de mim na graduação era simplesmente interpretação de textos; nunca me pediram para escrever se algo era certo ou errado. Nunca interessou se eu poderia construir um argumento a favor ou contra um problema filosófico. Sou Teaching Assistant de Intro to Philosophy e exijo de meus alunos (mesmo quem está no primeiro semestre) que argumentem a favor e contra o fundacionalismo de Descartes, por exemplo, e que mostrem alternativas."


Ler o artigo todo clicando AQUI

19 de setembro de 2013

Novos Livros Introdutórios em Filosofia do Direito






Livros introdutórios são imprescindíveis para o bom ensino e aprendizado da filosofia. A filosofia do direito já conta com algumas obras de caráter introdutório (por exemplo, aqui, aqui e aqui ), mas duas novas obras prometem preencher algumas lacunas das obras passadas e fornecer um material mais completo para professores e alunos. A primeira é a de Stefan Sciaraffa denominada The Nature of Law: A Philosophical Inquiry. Como de costume, essa obra trata primariamente do problema da natureza do direito, mas inova ao estender alguns dos argumentos sobre esse tema para explicar alguns problemas associados aos sistemas jurídicos internacionais e ao raciocínio jurídico. O livro, apesar de introdutório, também promete avançar uma posição original acerca da natureza do direito, o que talvez não seja tão recomendável de se fazer em um livro introdutório, mas ainda assim não necessariamente torna o livro inapto para ser usado em aulas de graduação. A segunda obra é a de Jeffrey Brand-Ballard, autor do interessantíssimo Limits of Legality - The Ethics of Lawless Judging, e é denominada Philosophy of Law: Introducing Jurisprudence. Essa obra introdutória abrange uma série de tópicos distintos do usual debate acerca da natureza do direito, tais como a punição, a causação e a legitimidade de os juízes se desviarem das leis (que é o tema central do primeiro livro do autor). Ambos os livros ainda não estão disponíveis para a compra, mas devem ser comercializados em breve. Vale aguardar para conferir esse material novo.

18 de setembro de 2013

Sobre o Conceito de Direito

Eis os vídeos completos de uma série de palestras comemorativas do aniversário de 50 anos do lançamento do livro The Concept of Law de H. L. A. Hart.  As palestras são ministradas por alguns dos filósofos do direito mais destacados da atualidade, tais como Frederick Schauer, John Gardner e Leslie Green. Para aqueles interessados em filosofia do direito vale perder algumas horas vendo o conteúdo. 

Montage of Presenters


5 de setembro de 2013

Stephen Mumford e Rani Lill Anjum em Lisboa

A convite do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa, Stephen Mumford e Rani Lill Anjum farão as seguintes conferências no próximo dia 12, quinta-feira, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, sala 8.2.10.:

11h - "Powers, Causation and Probability"
15h - "Metaphysics, Logic and Science".



Stephen Mumford is Professor of Metaphysics and Dean of the Faculty of Arts at the University of Nottingham and Professor II at the Norwegian University of Life Sciences (UMB). He is the author of Dispositions (Oxford 1998), Laws in Nature (Routledge 2004),David Armstrong (Acumen, 2007), Watching Sport (Routledge 2011), and co-author of Getting Causes From Powers (Oxford 2011) and Metaphysics - A very short introduction (Oxford, 2012), Causation – A very short introduction (Oxford 2013).

Rani Lill Anjum is Researcher of Philosophy and Director of the 4 year research project CauSci – Causation in Science – funded by the Research Council of Norway and hosted by the Norwegian University of Life Sciences (UMB). She is the co-author of Getting Causes from Powers (Oxford 2011) and Causation – A very short introduction (Oxford 2013).


3 de setembro de 2013

Rebater um argumento por 20 mil dólares


Eis o argumento:

“A moral e os valores dependem da existência de mentes conscientes — e especificamente do facto dessas mentes poderem experimentar várias formas de bem-estar e de sofrimento neste universo. 

Mentes conscientes e os seus estados são fenómenos naturais, totalmente delimitados pelas leis do universo (sejam elas o que vierem a ser). 

Portanto, as questões de moral e dos valores devem ter respostas certas e erradas no âmbito da ciência (em princípio, se não na prática). 

Consequentemente, alguns povos e culturas estarão certos (em maior ou menor grau), e alguns estarão errados, no que diz respeito ao que consideram ser importante na vida.”

Este argumento é apresentado por Sam Harris no seu livro "The Moral Landscape" e aqui é lançado o desafio para que o rebatam.

A melhor resposta será publicada e receberá um prémio de 2 mil dólares e quem o convencer que está errado, receberá um prémio de 20 mil dólares.

E o nosso leitor, aceita o desafio?

27 de agosto de 2013

Boa nova



Acaba de sair pela Loyola, os dois volumes (I e II) de Apt Belief and Reflective Knowledge (2007; 2009, Oxford UP), de Ernest Sosa. Boa oportunidade para os leitores lusófonos entrarem em contato com a epistemologia contemporânea, mais especificamente com a epistemologia das virtudes. O leitor encontrá aqui uma resenha do primeiro volume, e aqui uma do segundo. 

23 de agosto de 2013

Filosofia em Directo... e ao vivo


Acabo de receber a agradável notícia de que o meu livro Filosofia em Directo continua a merecer a preferência dos leitores portugueses, tendo já ultrapassado o bonito número de 21 500 exemplares vendidos. A todos os leitores do meu livro, o meu muito obrigado. Espero não desmerecer a vossa confiança, e espero que discordem do que escrevi, mas que o livro vos dê instrumentos para discordar de uma maneira mais sofisticada, reflectida e cuidada.

A edição brasileira do meu livro tem por título Filosofia ao Vivo e está à venda nas livrarias brasileiras. Em caso de dificuldade, pode ser comprado no site do editor.

Os leitores poderão gostar também do meu livro Sete Ideias Filosóficas Que Toda a Gente Deveria Conhecer, que é um complemento ao Filosofia em Directo. O Sete Ideias vende-se em Portugal em todas as livrarias, como é o caso da Wook, e no Brasil na Livraria Cultura.

Uma vez mais, muito obrigado a todos os leitores que fazem de Filosofia em Directo um inesperado sucesso de vendas. Espero não desmerecer a vossa confiança.

16 de agosto de 2013

Mais uma do mercado editorial underground brasileiro



Acabo de descobrir a tradução de Consciousness (Cambridge University Press, 2009), de Christopher Hill, publicada em 2011 pela Editora Unesp. Eis a descrição das costas do livro:


Este livro apresenta uma nova e compreensiva teoria da consciência. O capítulo inicial distingue seis principais formas de consciência e delineia um tratamento para cada uma. Os capítulos posteriores focam-se na consciência fenomênica, na consciência de, e na consciência introspectiva. Ao discutir a consciência fenomênica, Hill desenvolve a teoria representacional da mente em novas direções argumentando que estar ciente de algo sempre envolve representações, até mesmo dos estados qualitativos como a dor. Ele então usa essa perspectiva para enfraquecer as abordagens dualistas dos estados qualitativos. Os outros tópicos envolvem o estar ciente visual, as aparências visuais, os qualia emocionais e o processamento metacognitivo. Esta importante obra interessará a um amplo público de alunos e especialistas em filosofia da mente e ciência cognitiva. 

12 de agosto de 2013

E se o pensamento moral for irredutível ao pensamento amoral?

A propósito da nota do Lucas, considere-se o seguinte: imagine-se que a justificação moral é irredutível a outras justificações (penso que algo como isto faz parte da concepção de Enoch). Uma razão para isso seria que os conceitos morais são primitivos, irredutíveis a conceitos não-morais.

Agora considere-se três tipos de justificação última da moralidade: a utilitarista, a contratualista e a kantiana. Estas são as justificações mais influentes. Todas estão erradas, parece-me, se a justificação moral for irredutível a outros tipos de justificação. Vejamos porquê.

O utilitarismo defende que o princípio moral último é a maior felicidade para o maior número de agentes morais relevantes. Ou este princípio é circular ou comete uma versão da falácia naturalista, violando a irredutibilidade da moralidade. É circular caso não se explique de modo não-moral o que é um agente moral relevante e por que razão cada agente moral tem o dever de promover a felicidade máxima de todos os outros agentes morais. Se escaparmos da circularidade, dando uma prova naturalista do princípio, como Mill, viola-se a irredutibilidade da moralidade, cometendo uma versão da falácia naturalista. O realista moral irredutibilista tem de aceitar a opção 1; mas sem a ilusão da redução da segunda via está longe de ser óbvio que o princípio seja verdadeiro (por que raio tenho o dever de promover a felicidade de todos os agentes morais relevantes, tenha eu ou não contacto moralmente relevante com tais agentes? Sou um mero ser humano, ou uma divindade?)

Considere-se agora a justificação contratualista: temos o dever de fazer o que vemos que deve ser feito sob o véu da ignorância. Só que há duas maneiras de conceber o véu da ignorância: ou tento decidir tendo sem ter em conta considerações morais, ou tendo-as em conta. No primeiro caso violamos a irredutibilidade do moral ao amoral, cometendo portanto uma versão da falácia naturalista. No segundo, é circular. No primeiro caso, decido que os mais ricos têm o dever de financiar os mais pobres, porque estou a pensar amoralmente: terei pouco a perder se for rico, mas muito a ganhar se for pobre. Mas o resultado é apenas uma decisão amoral, sem legitimidade moral se a moralidade for irredutível ao pensamento amoral. No segundo caso, que é a via de quem pensa que a moralidade é irredutível à moralidade, tomo decisões não tendo apenas em conta os meus interesses egoístas, mas tendo em conta o que é justo e injusto, de modo que não serve para descobrir quais são os princípios de justiça se eu não souber já o que é e o que não é moral fazer.

Considere-se agora a justificação kantiana: tenho sempre o dever de cumprir o imperativo categórico em cada situação. E o que é o imperativo categórico em cada caso? É apenas uma versão de raciocínio imparcial amoral, com a justificação adicional de que violar esta imparcialidade é irracional porque conduz a contradições lógicas ou incoerências. Em última análise, tenho o dever de fazer algo quando não o fazer envolve um certo tipo de irracionalidade. Como é evidente, isto é uma justificação amoral da moralidade, pois pressupõe que agir moralmente é apenas uma questão de agir racionalmente. Se a tese da irredutibilidade do pensamento moral estiver correcta, esta justificação está incorrecta porque comete uma vez mais uma versão da falácia naturalista. Uma maneira de não o fazer é declarar que tenho o dever de fazer algo não porque não o fazer seja irracional, mas exclusivamente porque não o fazer é imoral. Neste caso, ficamos sem maneira de estabelecer qual é o imperativo categórico em cada caso, ao passo que na versão original de Kant temos pelo menos um guia: a imparcialidade máxima.

Se eu tiver razão em algumas destas reflexões, considerar que o pensamento moral é irredutível a conceitos não morais tem efeitos mais radicais do que talvez pareça à primeira vista. Explorar esta opção parece-me um trabalho interessante. Intuicionistas como Moore fizeram-no, mas o pensamento deles é hoje pouco conhecido. O que mais se conhece é o utilitarismo, o kantismo e o contratualismo, teorias que me parecem pouquíssimo promissoras caso o pensamento moral seja irredutível. Isto não é dizer que estas três teorias estejam erradas; têm elementos de verdade, mas estão erradas enquanto teorias da fundamentação da moral. São antes teorias que, adequadamente entendidas, falam de alguns aspectos importantes do pensamento moral (como a imparcialidade), mas pecam por tornar condições necessárias da moralidade em condições suficientes.

E o que pensam os leitores?

Realismo Moral Não Naturalista




Acabo de saber do lançamento do livro Taking Morality Seriously: A defense of Robust Realism, escrito por David Enoch. Essa é uma ótima surpresa dada a onda irracional de naturalismo e cientificismo que tem atingido a filosofia. Um excerto sobre o livro disponibilizado pela editora diz o seguinte: 

"Em Taking Morality Seriously: A Defense of Robust Realism, David Enoch desenvolve, argumenta e defende uma posição realista e objetivista forte da ética e da normatividade em geral. Essa posição – segundo a qual há verdades morais e outras verdades normativas perfeitamente objetivas e universais que não podem de maneira alguma ser reduzidas a outras verdades naturais – é familiar, porém esse livro é o primeiro desenvolvimento detalhado das motivações positivas a favor dessa posição colocada em argumentos razoavelmente precisos. E quando o livro se torna defensivo – defendendo o Realismo Robusto contra as objeções tradicionais – ele mobiliza os argumentos originais positivos a favor dessa posição para ajudar com a defesa contra as objeções. 
A principal motivação subjacente a favor do Realismo Robusto desenvolvida no livro é a de que nenhuma outra posição metaética pode justificar a nossa consideração séria pela moralidade. Os argumentos positivos desenvolvidos aqui – o argumento da indispensabilidade deliberativa de verdades normativas, e o argumento das implicações morais da objetividade metaética (ou da sua ausência) – são, portanto, argumentos a favor do Realismo Robusto que são sensíveis às motivações pré-teóricas subjacentes a favor dessa posição."

David Enoch vem se destacando na defesa do realismo moral não naturalista (veja a sua entrevista de 2012 feita pela revista 3.AM) e recentemente disponibilizou um artigo chamado Why I am an Objectivist about Ethics (And Why You Are, Too) no qual explicita e defende as motivações de ser um realista moral, bem como tenta mostrar que rejeitar o objetivismo moral não é uma tarefa muito convincente. 

Para aqueles interessados em ética e metaética, ou curiosos sobre o Realismo Moral, vale a pena conferir.

7 de agosto de 2013

A Crítica a blogar há 5 anos


Exactamente há cinco anos atrás Desidério Murcho dava as boas-vindas
a este espaço de divulgação e discussão.


Que memórias têm daquilo que aqui se divulgou e discutiu?

O que foi para si o melhor e o pior?

3 de agosto de 2013

Naturalismo



Eis outra boa nova editorial: Naturalismo, de Jack Ritchie. É a tradução, feita por Fábio Creder, e publicada pela Vozes, de Understandig Naturalism, Acumen, 2008. Embora não faça um levantamento completo do naturalismo filosófico,  Ritchie apresenta algumas posições naturalistas centrais em epistemologia, metafísica e filosofia da linguagem (deixando de fora a ética, infelizmente) -- a epistemologia naturalizada de Quine, o fiabilismo, o fisicismo, o deflacionismo quanto a verdade, a atitude ontológica naturalista, etc. Acessível e de leitura fácil, Naturalismo é uma boa introdução ao tema. Pode-se encontrar aqui uma resenha publicada na Notre Dame Philosophical Reviews

Sumário
Introdução
1- A filosofia primeira
2- Quine e a epistemologia naturalizada
3- O confiabilismo
4- A filosofia da ciência naturalizada
5- Naturalizando a metafísica
6- Naturalismo sem fisicalismo?
7- Significado e verdade
Conclusão 

24 de julho de 2013

Morreu Fred Dretske (1932-2013)


Fred Dretske era professor da Duke University e um dos mais importantes filósofos contemporâneos nas áreas da epistemologia e da filosofia da mente. O seu mais recente livro, Perception, Knowledge and Belief, foi publicado em 2000, quando ainda ensinava na Stanford University. 
Apesar de não ser tão estudado e discutido entre nós como merecia, os contributos deste filosófo americano para a epistemologia (mas não só) são da maior relevância, tendo sido distinguido com o prestigiado Prix Jean Nicod (França) em 1994.
Para quem quiser ver um pouco de Dretske em acção, aqui pode ser vista uma palestra sua, intitulada «What We See», proferida no âmbito das Howison Lectures in Philosophy, da Universidade de Berkeley (com uma curta intervenção de Searle no fim, no período de discussão).  

Consciência, o mais importante das nossas vidas — John Searle

Nesta palestra John Searle fala sobre a consciência humana por ser, segundo o que defende, o aspecto mais importante das nossas vidas, pois estarmos conscientes é uma condição necessária para que qualquer coisa seja importante. E exemplifica afirmando que nenhuma produção ou conhecimento humano nos interessa se formos um zombie ou se estivermos em coma.

No decurso da palestra apresenta uma definição para este termo e uma resolução do problema mente-corpo, para além de refutar alguns dogmas (da religião, do materialismo, do behaviourismo, etc.) sobre este assunto.



A sua definição de consciência estará correcta? E a resolução do problema mente-corpo? E as suas refutações colhem? O que pensa o leitor?

13 de julho de 2013

No dia mundial do Rock and Roll... um pouco de metafísica!


Para aqueles que gostam de rock and roll e alguma vez na adolescência gastaram algum tempo discutindo com os amigos os problemas (que naquela época não pareciam nada filosóficos) sobre as formações das bandas -- se o Deep Purple ainda continuaria sendo a mesma banda sem o Ian Gillan ou sem o Ritchie Blackmore, ou se seria impossível haver novamente Led Zeppelin depois da morte de Jonh Bonham, ou mesmo se o The Final Cult é mais um disco solo do Roger Waters do que um disco do Pink Floyd, dentre muitos outros -- é hora de relembrar isso um pouco. Eis um divertido texto, de James Bondarchuk, sobre a metafísica -- a constituição e a natureza -- do Black Sabbath. 

Julian Dodd: Será 4'33'' de John Cage música?



Julian Dodd argumenta que 4'33'' de John Cage não é música, ao passo que Imaginary Landscape nº4, uma peça para 12 rádios, do mesmo autor, é música. Dodd argumenta a favor desta conclusão com base no que pensa ser uma condição necessária para algo ser uma obra musical. Terá razão quanto à condição indicada ser mesmo necessária? Terá razão acerca das conclusões a que chega? Será que importa realmente se 4'33'' é ou não música? Se não importa, estaremos ainda a dizer algo interessante quando dizemos que 4'33'', ou seja o que for, é música? E o que pensa o leitor?

12 de julho de 2013

O valor da civilização



O cultivo de grandes realizações culturais é, assim, uma condição necessária, mas não suficiente, da civilização - conta-se que comandantes de campos de concentração choravam à noite ao som de Schubert, após um duro dia de matança em massa. Ninguém chamaria esses homens de civilizados. Pelo contrário, assemelhavam-se mais aos bárbaros antigos que, após invadirem e saquearem uma cidade civilizada, viviam em suas ruínas porque elas eram ainda muito melhores do que qualquer coisa que eles poderiam construir por contra própria. A primeira exigência da civilização é que os homens estejam dispostos a reprimir seus instintos e apetites mais baixos: falhar nisso faz deles, precisamente porque são inteligentes, muito piores que meras bestas.
 Theodore Dalrymple, O que temos a perder.

O ensaio completo pode ser lido aqui, em tradução de Aluízio Couto. 

11 de julho de 2013

Um carvalho invisível?


Neste livro, cuja tradução portuguesa estará disponível dentro de pouco mais de uma semana, o autor pergunta-nos em que filósofo pensamos ao ler os versos humorísticos que se podem ler abaixo. O leitor o que acha?

 Uma vez um jovem disse assim:
«Deus, acho deveras estranho,
Que aquele carvalho do jardim
Continue a sê-lo
Quando não está ninguém a vê-lo.»

«Caro Senhor, estranho é o seu espanto
Pois do jardim nunca arredo o pé
E é por isso que a dita árvore
Continua a ser como é.
Com a maior boa fé me subscrevo, DEUS.»

10 de julho de 2013

Philosophy Now Radio Show

A excelente revista "Philosophy Now" já tinha sido divulgada pelo Desidério na Crítica, mas na ocasião a revista ainda não contava com a série de entrevistas "Philosophy Now Radio Show". Ao contrário de boa parte do conteúdo do site, que é pago, os podcasts das entrevistas estão disponibilizados gratuitamente. Vale a pena conferir.

Filósofos na Tela


Eis uma interessante série de entrevistas que pretende aproximar o grande público do trabalho acadêmico dos filósofos contemporâneos. Os filósofos entrevistados respondem questões sobre as motivações que os levaram à filosofia, os aspectos mais satisfatórios e menos satisfatórios do seu trabalho, os temas da sua pesquisa atual, se as humanidades precisam mostrar algum impacto benéfico na sociedade que justifique a sua existência e se a própria filosofia tem algum impacto benéfico na sociedade. Vale a pena conferir. 

9 de julho de 2013

Filosofia Antiga

Mais uma entrevista da série No Jardim da Filosofia, desta vez sobre filosofia antiga, por António Pedro Mesquita, professor de Filosofia Antiga da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

5 de julho de 2013

Disputatio


Vale bem a pena ler o último número especial da revista internacional de filosofia Disputatio, publicada pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, e dirigida por João Branquinho (UL) e Teresa Marques (UL). Trata-se de um número inteiramente constituído por ensaios recentes de autores portugueses e brasileiros, organizado por João Branquinho e Guido Imaguire. Aí se pode confirmar que a discussão e a investigação actuais de nível internacional podem começar a contar cada vez mais com o contributo dos filósofos portugueses e brasileiros. 

4 de julho de 2013

Da “Teoria da Justiça” de Rawls à Prática?

Imagine que lhe era dado o poder de alterar o mundo como entendesse e que até poderia beneficiar-se a si próprio. O único problema é que você não saberia quem viria a ser nesse mundo, se seria homem ou mulher, rico ou pobre, forte ou fraco. O que faria então com esse poder?

Para responder a esta questão John Rawls sugeriu que se maximizasse o mínimo. Ou seja, você deveria garantir que as pessoas mais carenciadas ficassem o melhor possível, em comparação com outras alternativas, pois você poderia ser uma dessas pessoas.

Acreditando que este “véu de ignorância” nos levasse a considerar esta como a solução mais justa, seria possível tornar real a experiência mental de John Rawls?

Esta organização acredita que sim, e o nosso leitor?

18 de junho de 2013

Peter Singer responde

Lançamos aqui o desafio de se colocar questões ao Peter Singer sobre o assunto do livro A Vida Que Podemos Salvar.



Acaba de ser publicado o primeiro vídeo com as respostas às seguintes questões:

1. "Como pode um estudante de dezasseis anos, sem rendimentos, contribuir para A Vida Que Podemos Salvar?" ~ Tom Cartwright (via Twitter) [00:15]

2. "O que pensa sobre o 'Problema dos pobres comedores de carne'?" ~ Peter Hurford (via Twitter) [01:10]

3. "Uma possibilidade suficientemente desanimadora seria uma criança cuja vida é salva apenas para viver mais 50 anos com problemas que impedem qualquer contentamento." ~ Charles Spohr (via email) [02:42]

4. "À luz de outras catástrofes, como a Super-tempestade do Furacão Sandy, questiono-me se uma doação à Cruz Vermelha Americana, por exemplo, para assistência à catástrofe, estaria dentro do espírito do Compromisso?" ~ Ann Howard (via email) [04:04]

5. "Onde traço o limite para as minhas acções? Teria de viajar por todo o mundo para tentar salvar TODAS as “crianças a afogar-se no lago”?" ~ José Oliveira Stor Zé (via Facebook) [06:22]

E estas respostas de Peter Singer, despertam-lhe novas questões?

9 de junho de 2013

Peter van Inwagen em Lisboa


É já nos próximos dias 12 e 14 de Junho que o destacado filósofo americano Peter van Inwagen dará duas conferências na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Ambas as conferências, cujos resumos podem ser lidos aqui, fazem parte das LangCog Lectures e serão sobre tópicos de ontologia.

Peter van Inwagen, professor de Filosofia na University of Notre Dame, é um dos filósofos de topo mundiais em áreas como a metafísica, a filosofia da religião e a filosofia da acção. Na área da filosofia da religião, por exemplo, destaca-se a sua resposta ao problema do mal. Também merece destaque a sua tese incompatibilista acerca da questão do livre arbítrio e do determinismo, defendendo uma versão bastante original de libertismo, uma perspectiva pouco comum entre filósofos contemporâneos. 

Peter van Inwagen é um dos mais sonantes filósofos cristãos da actualidade (converteu-se ao cristianismo em 1980) e tem sido convidado para proferir conferências nas mais prestigiadas instituições académicas, entre as quais as famosas The Gifford Lectures (2003). 

30 de maio de 2013

Robert C. Bishop em Lisboa

Nos próximos dias 12 e 14 de Junho, Robert C. Bishop, físico e filósofo da ciência norte-americano, especialista nas questões da complexidade, não-linearidade, determinismo e emergência, fará duas conferências na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, a convite do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa. Mais informações:

20 de maio de 2013

Altruísmo eficaz: porquê e como


 

Nesta palestra TED, Peter Singer defende a tese do seu livro A Vida Que Podemos Salvar - Agir agora para pôr fim à pobreza no mundo. Neste contexto refere-se a um movimento em expansão, liderado por filósofos, economistas e matemáticos, o altruísmo eficaz.   

Apresenta algumas experiências mentais que nos questionam sobre como podemos equilibrar a emoção e a razão para ter o maior impacto possível ao agir segundo o que afirma ser uma obrigação moral: ajudar aqueles que se encontram na pobreza extrema. 

Será isto uma chantagem moral?
Ou será esta uma regra de ouro do comportamento ético?

18 de maio de 2013

Bondade e lucidez







"Desde a puberdade, acreditei no valor de duas coisas: a bondade e a lucidez. Inicialmente, estes dois permaneceram mais ou menos distintos; quando me sentia triunfante acreditava mais na lucidez e com a disposição oposta acreditava mais na bondade. Gradualmente, os dois se uniram cada vez mais nos meus sentimentos. Julgo que muito pensamento obscuro existe como uma desculpa para a crueldade e que muita crueldade é motivada por crenças supersticiosas."

Bertrand Russell


Texto retirado daqui.

12 de maio de 2013

Filosofia da educação de Locke

Acaba de ser publicado o livro Educar Para a Verdade e a Virtude (Edições Afrontamento), de Rui Cunha, baseado na sua tese de doutoramento sobre a filosofia da educação de John Locke. O livro tem, aliás, o subtítulo A Emergência da Modernidade Pedagógica no Pensamento Educacional de John Locke


Este livro exibe as excelentes qualidades que todos os que conheceram Rui Cunha lhe reconheciam quando com ele conversavam ou liam o que escrevia: a sua enorme bagagem filosófica, o seu rigor conceptual, bem como o profundo conhecimento das fontes directas e da bibliografia de referência. Tendo como fonte principal a obra de Locke, em particular Some Thoughts Concerning Education (livro entretanto traduzido para português pela Almedina, com o título Alguns Pensamentos Sobre Educação), facilmente se percebe que Rui Cunha não deixa um único detalhe por estudar nem por esclarecer, ao estilo do melhor scholarship

Tratando-se de um livro póstumo, o Rui não teve, infelizmente, oportunidade de fazer a última revisão do texto nem de tomar algumas decisões de pormenor para publicação. A bibliografia consultada, por exemplo, foi muitíssimo mais extensa do que a indicada no fim do livro. Mas isso são apenas pormenores. 

O mais importante é que se trata de um rigoroso e informativo estudo de um autor português (penso que o primeiro) totalmente dedicado ao pensamento educacional de Locke, devidamente contextualizado em termos filosóficos. Eis, em resumo, o que Rui Cunha, nas suas próprias palavras, nos propõe neste estudo:

   «Locke é um pensador da máxima importância quando se trata da Epistemologia, creditando-se-lhe a paternidade da teoria empirista do conhecimento, maximamente relevante até ao presente; Locke é também um pensador da máxima importância no tocante à Filosofia Política, tendo cunhado a teoria contratualista da origem do Estado, igualmente relevante ainda hoje; então, porque é que, no que toca à Filosofia da Educação, onde também produziu obra, Locke é quase ignorado e considerado irrelevante hoje em dia? Como é que um génio filosófico na Epistemologia ou na Filosofia Política se metamorfoseia num pensador supostamente menor em Filosofia da Educação?
     Ou será que a produção educacional de John Locke não tem sido suficientemente lida e menos ainda bem compreendida a sua relevância filosófica? Se é assim, torna-se necessário recolocá-lo na primeira linha de debate entre os filósofos da educação. Justamente, é a hipótese da grandeza do pensamento de Locke, também nesta área, que subjaz a este trabalho e se configura como o nosso objectivo último: mostrar a importância do pensamento de Locke para o debate filosófico acerca da educação. 
   O fundamento desta nossa tese radica no que designamos como a Emergência da Modernidade Pedagógica. Que pretendemos dizer com isto? Entre o que, à falta de melhor, poderíamos chamar o modelo tradicional de educação e o modelo progressivo, operou-se, em nosso entender, uma mudança de paradigma, uma revolução pedagógica, mais complexa do que supõe o uso da expressão revolução copernicana, aplicada à proposta pedagógica de Rousseau. Em nosso entender, operou-se uma ruptura na história da filosofia da educação. A concepção de educação própria do período anterior a esse corte, que vem desde os Gregos, com particular realce para Platão, Aristóteles, Santo Agostinho e S. Tomás, cede lugar a uma nova concepção de educação que se constrói gradualmente a partir desse novo paradigma. Na hipótese que apresentamos, esse novo paradigma inicia-se no século XVII com Locke (embora tenha tido precursores como Coménio, ou até Montaigne, no século anterior) e conclui-se — nas suas linhas filosóficas gerais, que não na sua implementação generalizada na prática educativa — no século XVIII com Rousseau, cujo Émile servirá de porta-estandarte para esta nova visão da educação.
    A nossa hipótese não é, contudo, universalmente aceite.» (pp. 40-1)

O índice de conteúdos (abreviado) é o seguinte:

Prefácio
Abertura
Capítulo 1: Vida e obra de John Locke
Capítulo 2: Locke e a emergência da modernidade pedagógica
Capítulo 3: A recepção da filosofia da educação de Locke
Capítulo 4: Teoria geral da educação
Capítulo 5: Teoria da educação moral e cívica
Capítulo 6: O currículo do young gentleman
Referências bibliográficas

3 de maio de 2013

Teorias da Correcção: Nível Factorial e Fundamental

Muitos filósofos que trabalham em Ética procuram descobrir critérios para distinguir as acções certas das erradas, e, habitualmente, também fazer distinções mais apuradas entre vários tipos de acções certas (entre acções permíssiveis e obrigatórias e acções permissíveis mas não obrigatórias, por exemplo), construindo para isso teorias que possuem um conjunto de principios que especificam o que é certo e errado (teorias da correcção). O utilitarismo e a ética kantiana são os exemplos mais bem conhecidos de teorias da correcção, apesar de estritamente falando o utilitarismo não ser uma teoria da correcção de acção, mas uma combinação de uma teoria de correcção da acção com um tipo de teorias do bem, especificamente as que obedecem à restricção de que os únicos estados de coisas que vale a pena promover por si mesmos são aqueles que envolvem o bem-estar de um certo conjunto de seres vivos. Uma teoria do bem seria assim uma teoria sobre que estados de coisas são intrinsecamente valiosos ou que vale a pena promover por si. Que coisas são boas em si mesmas? Apenas estados mentais prazerosos ou a satisfação de desejos? E que dizer da amizade, conhecimento e beleza?
Uma distinção introduzida por Kagan (1997) e que bem merecia mais popularidade e reconhecimento, por clarificar as coisas, tanto dentro como fora da filosofia - daí estar a escrever este post- , é entre dois níveis que uma teoria da correcção completa tem de possuir: um nível factorial e um nível fundamental. 
No nível factorial, pretende-se especificar quais os factores moralmente relevantes, numa dada situação, e como estes interagem de modo a determinar o estatuto deôntico de uma acção (isto é, se ela é obrigatória, permissível, superrogatória, impermissível...). Assim sendo, neste nível factorial teriamos dois tipos de teorias, as consequencialistas e as deontológicas. As primeiras caracterizam-se pelo facto de acharem que para determinar se uma dada acção é correcta ou não devemos apenas atender à promoção de estados de coisas impessoalmente valiosos ou, mais simplesmente, a aumentar a quantidade de bem no universo - vários tipos de teorias sobre o bem, como o hedonismo que identifica o bem com o prazer, vão dar origem a vários tipos de consequencialismo. As segundas, acham que há outros factores a ter em conta para além da promoção do bem, nomeadamente introduzem  restricções à acção, ou seja, admitem a existência de limites na nossa procura de aumentar o bem no universo como matar uma pessoa inocente para salvar duas e também podem aceitar a existência de opções, isto é que há habitualmente um leque de acções que é permíssivel fazer, na medida em que não somos obrigados a fazer acções que traga mais bem para o universo o tempo todo. Já agora, pode-se entender a ética das virtudes no nível factorial como a tese de que as restricções à promoção do bem e opções são formuladas recorrendo ao vocabulário de virtudes e vícios, contrastando com outro tipo de deontologia que formula as suas restricções e opções com base em direitos e obrigações.
No nível fundamental, o objectivo é que a teoria explique porque é que são aqueles factores e não outros os moralmente relevantes, e porque é que interagem daquela maneira e não de outra. Em suma, pretende-se dar uma justificativa teórica do mecanismo para determinação da correcção de uma acção que foi dado no nível anterior.  Tipos de teorias que temos aqui seriam, para dar apenas alguns exemplos: Consequencialismo fundamental, Egoismo psicológico, Contratualistas.
O Consequencialismo fundamental é a tese de que a promoção impessoal do bem é o padrão moral fundamental (ao contrário do Egoismo psicológico que nos diz que a promoção do bem do próprio agente é que é o padrão moral fundamental). Poder-se-ia perguntar em que é que isto difere do Consequencialismo factorial apresentado há pouco, sendo a resposta que este não implica aquele nem vice-versa (embora seja obviamente possível defender os dois).  Alguém pode achar que a melhor maneira de promover a obtenção de estados de coisas intrinsecamente valiosos não é só ter em conta essa promoção, por exemplo porque é incompatível com o funcionamento da psicologia humana fazer sempre o melhor a cada momento, mas fazer acções que sejam permitidas por um sistema de regras que se fosse adoptado traria as melhores consequências, sendo que esse sistema de regras terá restrições e opções. Deste modo, teriamos um consequencialismo fundamental e uma deontologia factorial.
Para mostrar como o oposto também é possível, isto é, sermos consequencialistas no nível factorial e justificar essa perspectiva sendo não consequencialistas no nível fundamental basta tomarmos o contratualismo. O contratualismo é a perspectiva no nível fundamental de que a lista dos factores moralmente relevantes é obtida através de um acordo de partes contratantes, dadas certas motivações e a informação disponível a esses intervenientes. Ora, não há nenhuma contradição em supor que as partes contratantes chegariam a um acordo em que só sancionassem uma única regra moral: Promoção impessoal do bem. Se assim fosse, o consequencialismo factorial seria justificado por um contratualismo no nível fundamental.
A recomendação está feita. Leia o Normative Ethics de Shelly Kagan se quiser perceber o que é uma teoria acerca do que é certo e errado. Pessoalmente, acho limitador a ética reduzir-se a Mill e Kant no secundário, achando que uma abordagem sistemática faz mais sentido do que uma histórica, especialmente quando isso é feito à custa de um obscurecimento da diferença entre teorias do bem e teorias do correcto e, relativamente a estas últimas, a existência de dois níveis diferentes de que é preciso dar conta (e, no caso de Kant, ainda muita metaética à mistura com ética normativa). Mas isso é um tópico para outra ocasião.