28 de janeiro de 2013

Mentir e ser sincero


Aqui está um caso divertido, encontrado no blog de Alexander Pruss (um excelente filósofo da religião): 
"Sam é um político que está a falar para uma grande audiência multilingue, e está a planear utilizar slogans que funcionem com cada grupo linguístico. Por coincidência, há algo, s, que ele pode dizer que é tal que em Elbônio significa que ele ama caçar, enquanto em Baratanio s significa que ele é um ávido ciclista. Sam de facto adora caçar apesar de odiar fazer ciclismo, mas sabe que dizer que adora caçar vai tender a ser apelativo para falantes elbonianos, que ele tende a respeitar e não deseja enganar, e que dizer que ele é um ciclista ávido vai tender a ser apelativo a falantes de Baratanio. Por isso, Sam diz s.
Ao fazê-lo, Sam é sincero na sua asserção a falantes de Elbônio que ele ama caçar e mente a falantes de Baratanio que é um ciclista ávido. Mas encontra-se Jane na audiência que é uma falante completamente bilingue de Elbônio e Baratanio. Será que Sam mentiu a Jane?"

8 comentários:

  1. Preciso de saber se existe os termos "mentira" e "sinceridade" existem nas supramencionadas línguas.

    Honestamente, estas experiências mentais dos filósofos analíticos, todas juntas, davam um excelente conto infantil. Então, dávamos as mãos e íamos todos juntos, depois de jogar à macaca e de nos enfileirarmos, lançar tretar para o ar e sermos felizes na inocência.

    Grateful for the question... fez-me reviver a infância!

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  2. Nunca devemos menosprezar a ignorância profunda; explicamos muitas coisas, atitudes e opiniões se não nos esquecermos do papel profundo da ignorância.

    E as experiências mentais de Platão, nomeadamente na República e no Timeu? E a experiência mental de Descartes, com o seu incrível génio maligno? E as experiências mentais de Agostinho, precisamente sobre a mentira?

    Para quem não compreende a vida do espírito, tudo o que não se pareça com beber cerveja e falar pretensiosamente ao mesmo tempo que se coça o tomates parece infantil. Mas é mais infantil a novela, ou Agostinho?

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  3. Parece que, independentemente de proferir uma verdade em elbonio e uma falsidade em baratanio, ele engana Jane, pois tem a intenção de fazer ambos os grupos na audiência acreditarem que não profere algo ambíguo entre duas frases em línguas distintas (sem formar esta crença falsa em todos, nem consegue mentir eficazmente acerca do ciclismo nem convencer da sua sinceridade ao falar sobre caça: todos duvidariam do que diz). Para ser bem-sucedido, tem de fazer todos pensarem que produziu uma só afirmação e não duas. Mas será que se pode dizer que isto é mentir, embora envolva logro? Se sim, então mente duplamente, pois também mente aos baratonios em particular.
    Por outro lado, parece que ele só pode mentir e dizer a verdade (ao mesmo tempo) a Jane se não tiver a crença de que ela é bilingue. Se sabe que ela é bilingue, a intenção de a enganar ao proferir os sons ambíguos torna-se ociosa, pois sabe que apenas gerará nela a dúvida acerca de que afirmação está ele a fazer. Parece que se mente e diz a verdade ao mesmo tempo, não o faz a Jane em particular.

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    1. Vitor,

      Uma resposta para a sua saída é que como se trata de um experimento mental bizarro, e que envolve uma grande audiência multilíngue, não me parece claro que ele tem a intenção de fazer ambos os grupos na audiência acreditarem que não profere algo ambíguo entre duas frases em línguas distintas. Seria necessário explicar mais sobre o contexto da situação. Por exemplo, como ele pode fazer discurso apenas para parte da audiência se a audiência é multilíngue? Um ouvinte de uma audiência tão estranha poderia perfeitamente supor que ele diz algo que pode significar coisas diferentes em outras línguas. Assim, me parece que o fato da Jane ser ou não bilíngue somente será relevante se ela souber que Sam odeia ciclismo. Se ela não souber isso, ela poderia também supor que o Sam adora caçar e fazer ciclismo, e nesse caso seria enganada da mesma maneira.

      Outra objeção é que não me parece de todo óbvio que a intenção de enganar é uma condição necessária da mentira. Suponha, por exemplo, que estou criticando o artigo de um aluno de filosofia para avaliar se ele está atento ao defender suas idéias. Eu posso afirmar algo, fazer uma distinção conceitual equivocada, por exemplo, que (1) eu sei que o aluno considera falsa e (2) que eu também considero falsa. A minha intuição é que (2) é suficiente para o que eu disse seja considerado uma mentira. A minha intenção não é enganar, mas testar a atenção do aluno.

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    2. Olá Mateus,

      Um exemplo talvez ainda mais claro para ilustrar o que pretendes no teu segundo parágrafo é o seguinte: alguém entra num escritório a perguntar pelo Sr. X à sua secretária, que responde, sabendo bem que o visitante não acredita nela, que o Sr. X de momento não está. Ela sabe que a pessoa diante de si não acredita nela e sabe que o que diz é falso, pois sucede apenas que o Sr. X não quer receber o visitante. Aqui não há claramente intenção de enganar, pois a secretária sabe que o visitante não acredita nela. Ele finge educadamente acreditar nela, sabendo que ela sabe que ele não acredita.

      No exemplo do professor que testa o aluno podíamos ainda alegar que o professor procura fazer passar, ainda que temporariamente e com um fim pedagógico, uma crença falsa - de que o professor aceita a falsa distinção. Mesmo pensando que o aluno sabe (ou tem todos os meios para inferir que) a distinção é falsa, ainda assim tem de haver algum propósito em testar a sua atenção. Para fazer este teste, o professor coloca um obstáculo para ver se aluno tropeça nele. Podemos interpretar o "engano" neste sentido generoso de introduzir o obstáculo, sem a conotação negativa associada ao termo.

      Talvez eu esteja enganado quanto à possibilidade de interpretar assim o teu exemplo. Mas seja como for, no exemplo que dei atrás (se não erro, li-o num artigo de Eddy Zemach sobre a verdade na arte) não há como salvaguardar interpretativamente a necessidade da intenção de enganar. É inteiramente claro que a secretária mente sem essa intenção. Nem sequer está a testar a acuidade mental ou os conhecimentos do visitante.

      Em resposta à tua objecção propriamente dita, eu responderia que a minha observação não depende de a intenção de enganar ser uma condição necessária da mentira. Basta que naquele contexto a intenção de os fazer crer que não profere uma frase ambígua seja suficiente para dizermos que mente. Claro que isto não é claro: uma resposta é que, propriamente falando, ele não mente pois a crença falsa de que não profere ambiguidades não faz parte do conteúdo proposicional das frases que profere. Quando muito, estaria apenas a enganá-los.

      Concedeo que a minha observação pode ser inadequada (no sentido em que estou a dar atenção a um detalhe que temos de ignorar nas experiências mentais). Afinal, sabemos que a Terra Gémea de Putnam teria de ser diferente em muitas coisas para poder diferir na estrutura química do líquido chamado "água", mas ainda assim ignoramos esse detalhe em virtude do que a experiência mental permite iluminar. Talvez este detalhe que observei seja deste género.

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  4. Oi Vítor,

    peço desculpas pela demora na resposta. Talvez haja uma maneira de manter a tese de que a intenção de enganar é necessária para que algo seja considerado mentira, mesmo nos casos da secretária e do professor. Poderíamos defender que aquilo que eles prendem expressar é implicitado conversacionalmente e não afirmado literalmente. A secretária afirma que o Sr. X não está, mas o que ela pretende dizer ela implicita conversacionalmente, i.e., que ele não está disposto a atender ninguém naquela momento. O ouvinte entende o que é implicitado e por isso não é enganado. O mesmo vale para o exemplo do professor. Isso seria um indício de que a mentira deve ser considerada relativamente ao àquilo que se pretende expressar ou comunicar, independentemente de ser afirmado ou meramente implicitado.

    Quanto aos detalhes do experimento mental. Eu entendo que podemos desconsiderar alguns detalhes em experimentos mentais, mas essa tolerância vai até certo ponto, pois alguns experimentos mentais e algumas de nossas intuições associadas a esses experimentos mentais são mais claras que outras. O experimento da terra gêmea é relativamente claro para a discussão sobre a natureza do significado, mas o experimento envolvendo a audiência multilíngue precisa de maiores esclarecimentos.

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    1. Olá novamente, com considerável atraso.

      Creio que embora *possas* adoptar essa estratégia com as implicaturas conversacionais para preservar a tese de que a intenção de enganar é necessária não me parece que isso seja definitivo.
      Ocorre-me que essa estratégia pode ser atacada do seguinte modo: o que é implicitado conversacionalmente dá acesso ao ouvinte às *razões* pelas quais a secretária mente. Mas uma coisa são as razões para a mentira, outra coisa é o acto de mentir. Esta pode ser uma má resposta, na medida em que parece cair em petição de princípio: que ela mente independentemente do que está implícito na falsidade que profere. Dito isto, talvez tenhamos embatido num impasse, pois também poderíamos dizer que há petição de princípio do lado oposto: a estratégia das implicaturas conversacionais parece redundar numa pressuposição de que afirmar falsidades só conta como mentir quando não é implicitada conversacionalmente a razão de se afirmar a falsidade.
      Mais sucintamente: a estratégia das implicaturas conversacionais mostra o que já sabemos - que o ouvinte não é enganado - mas a partir daí apenas pressupõe que não havendo engano não há mentira. Contudo, isso era o que pretendíamos saber à partida.


      De acordo quanto às experiências mentais.

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