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O golpe de estado ortográfico

Diz-se que o Acordo Ortográfico tem como objectivo unificar a ortografia dos diferentes países de língua portuguesa. Mas o que se verifica é que ele afasta mais do que unifica. Sendo assim, qual teria sido a verdadeira razão subjacente ao acordo? Deixo esta pergunta para os leitores pensarem. E deixo também aqui um artigo da autoria de Maria Regina Rocha (professora e consultora do Ciberdúvidas), publicado no jornal Público do passado dia 19 de Janeiro, com dados objectivos que confirmam que o acordo serve mais para desunir do que para unir. O artigo intitula-se A falsa unidade ortográfica.
     O acordo Ortográfico está em causa. Instituições e publicações há que o aplicam; outras, que o rejeitam. O grande público contesta-o, e a esmagadora maioria dos cidadãos não consegue compreender o que se está a tentar fazer à Língua Portuguesa.
   Efectivamente, embora genericamente as pessoas estejam contra esse acordo, infelizmente a forma como se extremaram posições levou a que, num determinado momento, quem tinha o poder político lhe conferisse força de lei, sem uma atenta e lúcida reflexão sobre o mesmo e as suas gravíssimas implicações, sobretudo de natureza linguística e cultural, com repercussão no ensino e no domínio da língua.
     Como ainda estamos em fase de transição e as leis são os homens que as fazem, esperemos que as razões serenas e lúcidas se imponham e façam com que aqueles que representam o povo legislem de acordo com o supremo interesse do país e da língua portuguesa, seja ela falada onde for.
      Lembro apenas, como precedente, que o Acordo Ortográfico de 1945 foi nessa data assinado por Portugal e pelo Brasil, que o Brasil o tentou aplicar durante dez anos e que, em 1955, rendido à especificidade do registo ortográfico da variante do Português do Brasil, revogou esse acordo. Assim, se Portugal tomar a iniciativa de reflectir e, com razões ponderosas, reformular o texto do Acordo actual, não fará nada de inédito nem beliscará as relações entre os países envolvidos. Aliás, será de referir, ainda, que, recentemente, o próprio Governo brasileiro anunciou que vai adiar a obrigatoriedade da aplicação do acordo para 2016...
      Focando, então, o Acordo actual, em primeiro lugar, deverei dizer que uma pessoa com formação linguística naturalmente que não estaria, à partida, contra um acordo ortográfico. E deverei dizer, ainda, que houve, neste acordo, tentativas (embora não totalmente eficazes) de resolver algumas questões ortográficas relativamente à grafia de novas palavras, concretamente no que diz respeito à utilização do hífen.
   No entanto, este acordo enferma de um grande pecado original: não alcança minimamente o apregoado objectivo da unidade na ortografia.
       Para que serve um "acordo ortográfico"? Para unificar a ortografia de povos que falam a mesma língua. Ora, com este acordo, a ortografia da Língua Portuguesa não se unificou. Tentei obter resposta a uma pergunta simples: quantas palavras se escreviam de forma diferente no Brasil em comparação com a forma como as mesmas palavras se escreviam em Portugal e nos restantes Países de Língua Oficial Portuguesa antes do Acordo e depois do Acordo? Não consegui obter uma resposta objectiva da parte dos defensores do Acordo Ortográfico. Pergunto: parte-se para a tentativa de aplicação de um acordo ortográfico sem se saber claramente quantas palavras é que mudam na ortografia?
    Assim, procurei eu a resposta, consultando o "Vocabulário de Mudança" disponibilizado no Portal da Língua Portuguesa (http://www.portaldalinguaportuguesa.org/).
     E, considerando a informação aí veiculada, a resposta é a seguinte (contagem feita manualmente): antes do Acordo -- e exceptuando as palavras com alteração do hífen, as palavras graves acentuadas no Brasil e não em Portugal (como idéia - ideia) e as palavras com trema (pelo seu número residual e por tais situações afectarem sobretudo a ortografia brasileira) --, havia 2691 palavras que se escreviam  de forma diferente e que se mantêm diferentes (por exemplo facto - fato), havia 569 palavras diferentes que se tornam iguais (por exemplo, abstracto e abstrato resultam em abstrato), e havia 1235 palavras iguais que se tornam diferentes. 
     Está a ler bem: com o Acordo Ortográfico, aumenta o número de palavras que se escrevem de forma diferente!
       Isto é, havia 1235 palavras que se escreviam da mesma forma em Portugal e no Brasil que, com o Acordo, mudam, a saber: 190 ficam com dupla grafia em ambos os países (por exemplo circunspecto e circunspeto); 57 ficam com dupla grafia mas só em Portugal (por exemplo, conceptual e concetual, que no Brasil se escreve conceptual, mantendo a consoante "p"); 788 mudam para uma das variantes que existem no Brasil, por vezes a menos utilizada ou a considerada mais afastada da norma padrão (por exemplo, perspetiva: em Portugal, só se admite esta forma -- sem "c" --, mas no Brasil admitem-se duas, perpectiva e perspetiva, sendo esta última preferencial); finalmente, 200 mudam para uma até ao momento inexistente e que passa a existir apenas em Portugal (por exemplo, receção, que no Brasil só admite a forma recepção, que passa a não ser possível em Portugal).
      Esta última situação é a mais aberrante: são 200 palavras inventadas, que não existiam e passam a ser exclusivas da norma ortográfica em Portugal. Alguns exemplos: em Portugal, com o Acordo, passa obrigatoriamente a escrever-se aceção, anticoncetivo, conceção, confeção, contraceção, deceção, deteção, impercetível.
   O problema diz, pois, respeito sobretudo à grafia das palavras que contêm as vulgarmente chamadas "consoantes mudas". Segundo os referidos dados do Portal da Língua Portuguesa, com o Acordo Ortográfico, no que diz respeito às palavras que mudam, no Brasil continuam a escrever-se 1235 palavras com essa consoante etimológica (978 de dupla grafia e 257 que se escrevem só com a manutenção da consoante), enquanto em Portugal e nos restantes Países de Língua Oficial Portuguesa são apenas 247!
     Em Portugal, altera-se a ortografia fazendo desaparecer as respectivas consoantes e, afinal, no Brasil, essa ortografia de cariz etimológico mantém-se!
    Não vou aqui falar da questão da dupla ortografia e de fragilidades e incorrecções presentes nos textos referentes ao Acordo Ortográfico, que têm um efeito negativo no ensino, na aprendizagem e no domínio da Língua Portuguesa (tal poderá ser objecto de outro artigo). Aqui apenas estou a referir como falsa a propalada unidade ortográfica!
     Chegou a hora decisiva de nos pronunciarmos eficazmente pela suspensão da aplicação deste Acordo que tanto prejuízo causa à Língua Portuguesa. Tal é possível subscrevendo a Iniciativa Legislativa de Cidadãos (em http://ilcao.cedilha.net/), que visa, democraticamente, levar ao Parlamento, de novo, esta discussão.
     E faço um apelo aos decisores políticos para que analisem cuidadosamente a situação: ninguém se pode escudar na ignorância dos assuntos sobre os quais toma decisões, pois a História não lhes perdoará.



Comentários

  1. Dos acordos e dos desacordos ortográficos! Do texto de Aires Almeida, de 21jan2013 destacaria entre outros pontos:

    «Lembro apenas, como precedente, que o Acordo Ortográfico de 1945 foi nessa data assinado por Portugal e pelo Brasil, que o Brasil o tentou aplicar durante dez anos e que, em 1955, rendido à especificidade do registo ortográfico da variante do Português do Brasil, revogou esse acordo. Assim, se Portugal tomar a iniciativa de reflectir e, com razões ponderosas, reformular o texto do Acordo actual, não fará nada de inédito nem beliscará as relações entre os países envolvidos. Aliás, será de referir, ainda, que, recentemente, o próprio Governo brasileiro anunciou que vai adiar a obrigatoriedade da aplicação do acordo para 2016... »


    É uma guerra interessante esta, mas eu punha o enfoque antes na Semântica, no que aquele Prof brasileiro dizia que o importante seria haver para a comunidade dos países de expressão portuguesa um "Dicionário de Sinónimos", em vez desta guerra de unicidade ortográfica. Escrevi "unicidade" intencionalmente em vez de "unidade".

    Já agora para ser politicamente incorreto foi à custa dos acordos ortográficos que o falar do centro/sul lusitano foi anulando o falar do norte português galaico-galécico. E depois criaram "democraticamente" aquela da 2.ª Língua portuguesa, o Mirandês.

    Pois eu lá corrigia minha mãe:

    - Mãe, não diga “Febreiro”, diga “Fevereiro”! E tantas, tantas outras...

    Mas claro os nossos “irmans” galegos ainda dizem, e bem, “Febreiro”, vão afirmando sua identidade face ao castelhano.

    O falar do norte português foi sendo subjugado ao longo do tempo e pelos periódicos acordos ortográficos pelo falar do centro-sul lusitano à custa da ortografia, clarosempre liderados pelos académicos lisboetas!...

    A tal troca do "v" pelo "b", o "om" pelo "ão", outras...

    Por tal como salientava o dito Prof. brasileiro o importante de uma comunidade linguística é a sua Semântica em que pode, deve até às vezes haver dupla grafia, de acordo com falares regionais.

    Por tal entretenham-se lá com a Ortografia! Mas isso até um programa de computador, onde não há intencionalidade, o pode fazer, o que decerto nunca fará esse programa é elaborar um texto coma profundidade do sentir da nossa rica semântica do sentir portugalidade.

    É que como bem chamava à atenção o filósofo John Searle, sistemas computacionais não têm semântica, como bem explicou na sua célebre metáfora do "quarto chinês", por que de facto o importante de uma Língua é a sua semântica.

    Mas são pertinentes as criticas ao Acordo atual de Aires Almeida, se bem que as minhas ficam como ficou explicito e implícito, para outro patamar de análise.

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