21 de abril de 2013

Educação, ineficiência e lavagem ao cérebro

O nosso leitor Paulo Santos teve a gentileza de responder a um breve comentário meu sobre o vídeo que o Luiz divulgou aqui, e a sua contribuição é preciosa. Contudo, o meu pensamento não é o que poderia parecer, dada a brevidade do meu comentário. Urge, pois, explicar um pouco melhor o que penso.

Para começar, não penso de modo algum que a escola serve apenas para formar taxistas ou banqueiros; pelo contrário, serve para formar seja o que for que as pessoas querem ser: pintores, filósofos, poetas, etc. Seria até estranho que eu, que sou professor de filosofia, fosse como aquelas pessoas muito provincianas que pensam que no mundo só há pessoas como elas: engenheiros, médicos, advogados e empresários. Felizmente, no mundo há muitas profissões, desde pintor abstracto a actor de teatro, passando por filósofo e cozinheiro, cientista e cineasta.

Ora, o problema é precisamente este: diferentes pessoas querem aprender diferentes coisas, querem ter diferentes competências porque têm diferentes interesses. As competências que eu quero adquirir dependem do que me apaixona: no meu caso, a filosofia. Estas competências são completamente diferentes das que precisa uma pessoa que tenha paixão por outra coisa qualquer.

Portanto, temos uma primeira dificuldade: é pura e simplesmente impossível que o PISA avalie competências relevantes para todas as pessoas. O que avalia são as competências que os pedagogos consideram relevantes que fizeram o PISA.

A segunda dificuldade é que mesmo que os pedagogos quisessem avaliar as competências relevantes para ser, por exemplo, filósofo, não conseguiriam fazê-lo. Porquê? Porque nem sequer sabem que competências são essas e, mesmo que saibam, eles próprios não as têm; portanto, não as podem avaliar. Os pedagogos têm exclusivamente as competências artificiosas alimentadas pelas escolas e universidades, sem qualquer relação com uma actividade que não seja autofágica, alimentada pelas próprias escolas e universidades. Um pedagogo é um metaprofessor. Um mecânico de automóveis ou um filósofo pode ensinar os outros a serem mecânicos de automóveis ou filósofos porque tem essas competências. Nas escolas contemporâneas, na maior parte dos casos, os professores dessas coisas não são essas coisas porque são professores profissionais e por isso na verdade não sabem reparar um automóvel nem escrever um livro de filosofia, e depois fingem que podem ensinar isso aos filhos dos outros. Mas o caso dos pedagogos é ainda mais engraçado (ou trágico), porque são metaprofessores, são professores de professores, especialistas na arte de ensinar quem não sabe X a ensinar X, sendo que eles mesmos não só não sabem X como nem sabem ensinar X. Se não fosse trágico, seria cómico.

Lendo os artigos que o Paulo generosamente me indicou, vejo que os autores têm consciência da dificuldade que é avaliar realidades que muitas vezes são abstractas recorrendo a indícios empíricos. Mas o problema de coisas como o PISA é mais elementar, mais pedestre: é que um sistema de ensino que dá excelentes competências de tipo A, medidas pelo PISA, pode ser péssimo a dar competências de tipo B, que o PISA não mede. E acontece que para muitas pessoas as competências de tipo A são relevantes, mas para muitas mais não são relevantes.

A dificuldade mais geral que está aqui em causa é o que me faz pensar que as escolas e universidades são hoje em dia o principal obstáculo ao desenvolvimento das sociedades, à criação de bem-estar e riqueza (e não me refiro apenas à riqueza material). É que as escolas e universidades vão no sentido contrário do que precisamos para desenvolver competências cada vez mais eficientes, compensadoras e ricas: a especialização. A fonte de toda a riqueza é a especialização, pois é daqui que surge a eficiência: uma sociedade A que produz bananas a metade do preço de outra sociedade B é imediatamente mais rica do que B (sendo tudo o resto igual), pela simples razão de que 1) toda a gente gasta menos dinheiro em bananas e por isso tem mais dinheiro para comprar outras coisas, o que por sua vez financia essas outras coisas e 2) quem faz bananas mais baratas é porque demora menos tempo a fazê-las e pode por isso usar o tempo que sobra a fazer outras coisas que não bananas, o que pode ir desde peças de teatro a automóveis. A eficiência e a especialização são as mães da riqueza, e as escolas e universidades insistem no contrário disso: querem que toda a gente tenha aproximadamente as mesmas competências, o que provoca um desperdício imenso de recursos humanos, que são a única riqueza que um país realmente tem (e não o petróleo ou os diamantes ou as bananas, como erradamente as pessoas tendem a pensar, pois de nada adianta ter petróleo se não tivermos pessoas que sabem extraí-lo de maneira eficiente).

Para terminar, há uma parte do vídeo em que o professor de Harvard que apresenta o suposto milagre educativo finlandês fica maravilhado com um projecto que os estudantes desenvolveram sobre energias renováveis. É quando se vê estas coisas que se percebe a marosca. O que o tal professor de Harvard quer, como muitas pessoas ligadas à educação, é usar a educação para fazer a cabeça dos jovens, para lhes meter na cabeça os preconceitos e ideias feitas e politicamente correctas do nosso tempo (e que daqui a 50 anos as pessoas vão achar horríveis e incorrectas). Um olhar desapaixonado sobre o tal projecto sobre energias renováveis mostra a ineficiência da coisa, de um ponto de vista cognitivo e humano: reduz-se, no máximo, a umas 4 proposições (do género: há energias que são renováveis e outras que não são, se usarmos energias que não são renováveis, as gerações futuras não poderão usá-las (duh), etc.). O que isto significa é que os alunos andaram semanas a fazer uma tolice que poderiam ter feito e aprendido em 10 minutos ou menos. É o máximo do mínimo da eficiência. Contudo, é muito eficiente para outra coisa: para calar o espírito crítico, para fazer a cabeça dos alunos, para os mergulhar em ideias que foram treinados como macacos para considerar que são indisputáveis porque foram mergulhados nelas. 

Agora compreende-se a paixão pelo suposto milagre educativo finlandês.

Bem-vindo ao admirável mundo novo. Nem é preciso a Soma.

3 comentários:

  1. Como é que se garante o espírito crítico insistindo no máximo grau de especialização?

    Como se pode ter espírito crítico sem uma perspectiva minimamente abrangente, que nos permita considerar, em termos concretos e num esforço de abstracção quando necessário, diferentes aspectos da realidade em que vivemos?
    E aquilo que articula esses diferentes aspectos, ou aquilo que nos é simplesmente "dado" como consistindo no que supostamente articula, por princípio ou por factores concretos, uma dada proposta ou descrição legítima de um estado de coisas?

    O espírito crítico, se baseado apenas na sofisticação metodológica com um foco compartimentalizado ou especializado, focado num conjunto de tarefas e problemas, mesmo que sejam tarefas e problemas com um alcance grande na realidade, está condenado a uma mundivisão ela mesma compartimentalizada.
    Nesse caso como podemos falar de espírito crítico, se na minha mundivisão, ou em termos menos ambiciosos na minha perspectiva de como a realidade se divide e articula, está quase totalmente dependente do meu conhecimento especializado e dos seus pressupostos e função própria?
    Não podemos filtrar criticamente, isto é desenvolver reservas e dúvidas, sobre aquilo que não consideramos num perspectiva abrangente. Claro que o espírito crítico bem aplicado em termos panorâmicos pode resultar simplesmente na constatação de hiatos e falhas que envolvem as nossas limitações pessoais em termos de intelecto, formação e informação. Ainda mais dado precisamente que nos dias de hoje não podemos ser realisticamente especialistas em mais de uma ou duas áreas, e mesmo não sendo especialistas só podemos estar bem informados sobre meia dúzia.
    Mas reconhecer hiatos teoréticos da nossa parte, e porventura de outros de acordo com o que nos é oferecido e proposto, já é importante.

    Sem pelo menos a tentativa de uma visão abrangente temos um afunilamento da nossa vida intelectual que pode nos tornar excelentes num dado campo, mas que nos torna altamente vulneráveis a mentiras ou decepções mais ou menos subtis, simplesmente porque não dedicamos tempo a tentar construir uma perspectiva de conjunto. E as mentiras e decepções subtis próprias de uma sociedade de informação exploram os hiatos ou buracos nas relações entre isto ou aquilo. Para manipular não é preciso mentir ou veicular inconsistências claras, basta sobrevalorizar, desvalorizar ou omitir subtilmente até que se distorce ou se remove como relevante um aspecto importante.

    Na minha opinião o foco excessivo na especialização torna os cidadãos mais criticamente passivos, demasiado satisfeitos com a suficiência do conhecimento especializado que obtém, e francamente, mais facilmente manipuláveis.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Provavelmente, nenhuma sociedade comprou tanto a ideia de educação, digamos, teatral como a brasileira. E ainda comprou a pior parte da ideia: a que prega menor autonomia do professor (no conteúdo, na elaboração de prova, no regime de trabalho etc.) e menos estudo individual. A desgraça não acaba por aí. O governo brasileiro, maquiavelicamente, quer também mudar os critérios do PISA, querendo que a situação social dos países seja levada em conta (http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,paises-da-al-querem-mudar-a-avaliacao-pisa,964397,0.htm). Por mais que nos outros países a ideia da educação "teatral" tenha força, o estudo individual do aluno e a autonomia do professor parece ainda ter forte peso. Aqui isso é "coisa do passado".

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