2 de maio de 2013

Água, H2O, tipos químicos e essencialismo

"Uma molécula individual de H2O não tem quaisquer das propriedades observáveis que associamos com a água. Um copo de água, tão puro como a água pode ser, é melhor entendido como contendo H2O, OH-, H3O+ e outros iões relacionados mas menos comuns, e mesmo isto é uma vasta e excessiva simplificação (se pudéssemos obter água verdadeiramente pura, que não podemos). O nosso melhor entendimento actual das transferências de electrões que dão à água as propriedades que observamos é uma média estatística de interacções, sempre a mudar, que é tão complexa que chega a ser literalmente impensável. De facto, o problema é que "não é que nós estejamos incertos de quais (das distribuições de tipos de) microestruturas é a correcta. O ponto é que não há microestrutura correcta, porque a microestrutura depende tanto do contexto e da função como qualquer outra essência nominal" (van Brakel, 2000b, 80–81). [...] É por isto que os químicos usam o modelo de ‘mistura de iões’ para descrever o comportamento macroscópico da água. A única coisa que podemos dizer sobre um copo de água que não é, estritamente falando, um erro é que a razão média de átomos no copo é 2H : 1O e que tem as propriedades macroscópicas da água. Se existem outros tipos de átomos no copo, ou se a razão é outra, então não temos água pura. Se o raio for o mesmo, mas não tiver as propriedades macroscópicas (pH, ponto de ebulição) da água então não temos água mas apenas uma mistura de oxigénio e hidrogénio nas suas formas elementais. A análise química e os experimentos tratam a água não como uma molécula individuada mas em quantidades macroscópicas. Todas as propriedades típicas observáveis da água – o seu pH, a sua densidade, o seu ponto de ebulição e fusão, a sua utilidade como solvente, são dependentes não apenas da sua razão atómica mas das interacções entre iões dissociados. Filósofos da química têm argumentado este ponto por, pelo menos, 25 anos… [...] Definirmos H2O e D2O como membros do mesmo tipo natural depende de quais são as propriedades das moléculas que nós queremos investigar. Químicos orgânicos, examinando as interacções entre biliões de moléculas numa solução aquosa, vão definir as propriedades essenciais da água como um tipo natural de um modo bastante diferente de um químico físico a estudar moléculas de H2O em estruturas cristalinas, e ambos diferiram do físico a estudar que tipos de quark compõem o protão."
'Why Water Is Not H2O, and Other Critiques of Essentialist Ontology from the Philosophy of Chemistry', em Philosophy of Science vol. 74, no. 5 (December 2007) por Holly VandeWall.

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