20 de maio de 2013

Altruísmo eficaz: porquê e como


 

Nesta palestra TED, Peter Singer defende a tese do seu livro A Vida Que Podemos Salvar - Agir agora para pôr fim à pobreza no mundo. Neste contexto refere-se a um movimento em expansão, liderado por filósofos, economistas e matemáticos, o altruísmo eficaz.   

Apresenta algumas experiências mentais que nos questionam sobre como podemos equilibrar a emoção e a razão para ter o maior impacto possível ao agir segundo o que afirma ser uma obrigação moral: ajudar aqueles que se encontram na pobreza extrema. 

Será isto uma chantagem moral?
Ou será esta uma regra de ouro do comportamento ético?

14 comentários:

  1. Nessa, como noutras matérias, prefiro a acção política eficaz.
    Não que as duas coisas se excluam mutuamente. Mas as iniciativas altruístas relevam as mais das vezes do individualismo (senão do mero gozo privado de se "sentir fazer o bem") e perdem de vista, ou iludem, as soluções globais - que se jogam no plano ético-político - e que combatem os grandes problemas na sua raíz sistémica.

    (Está bastante simplificado e resumido, mas creio que dá para perceber a ideia)

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  2. Olá João, obrigado pelo seu comentário, que nos pode levar a reflectir sobre as seguintes questões:

    - Caso não esteja a sugerir que apenas as pessoas que ocupam cargos políticos é que devem ter um comportamento eticamente responsável face aos mais pobres do mundo, então podemos questionar-nos se, para a maioria das pessoas, ser politicamente eficaz não é uma alternativa menos viável do que tentar obter um impacto positivo, por exemplo, através de doações a organizações humanitárias comprovadamente eficazes.

    - Quanto à relação entre quem ajuda e quem é ajudado, cada um de nós poderá colocar-se na posição de quem necessita urgentemente de ajuda (como as pessoas que estão a morrer à fome, ou as que sofrem com uma doença que é curável, etc.). Será que nessa situação de extrema necessidade alguém se questiona sobre a legitimidade dos motivos de quem a ajuda? Mesmo posteriormente será que a gratidão não se sobrepõe a questões desse género?

    - Mas nós, que não estamos em situação de precisar de ajuda, poderemos questionar de forma mais imparcial os motivos de quem ajuda: será então eticamente censurável que alguém se sinta bem por ajudar outra pessoa? Ou mais ainda, será que o facto de alguém se sentir bem por ajudar os outros é algo de tal forma censurável que constitui uma razão suficiente para não ajudar?

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  3. Bom dia,

    Eu tenho uma pergunta relativa ao que o Peter Singer diz. O que ele afirma, se não me engano, é que nós devemos ajudar as pessoas que estão na pobreza extrema, porque o custo de o fazer é irrisório quando comparado com os benefícios para a pessoa ajudada.

    Ora, não implica isto que temos de ajudar as pessoas extremamente pobres até atingirmos nós virtualmente esse nível de pobreza? Mesmo as pessoas mais pobres em Portugal têm bem mais posses que as pessoas extremamente pobres dos países subdesenvolvidos, portanto continua a ser verdade para elas que " o custo de ajudar as pessoas extremamente pobres é irrisório quando comparado com os benefícios para as pessoas ajudadas".

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  4. João, essa é uma óptima questão sobre os limites das nossas obrigações morais.

    Se pensarmos que Peter Singer defende o máximo impacto da ajuda (altruísmo eficaz) então poderemos entender que, alguém que doa tudo o que possui, deixa de estar em condições de continuar a ajudar.

    No limite até poderíamos usar o exemplo de quem se dispõe a doar um rim. É simples de ver que, se doasse dois rins teria o dobro do impacto mas, se o fizesse, a possibilidade de vir a ajudar mais pessoas terminaria nesse preciso momento!

    Enquanto alguém que ajudasse progressivamente e de uma forma controlada ao longo da sua vida, nunca deixaria de estar em condições de ajudar, avaliando a cada momento o máximo de eficácia possível para o fazer.

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  5. Certo, mas a tese dele implica que as pessoas devem doar uma parte muito grande dos seus rendimentos (ainda que não todos, como observou, dado que precisam de uma parcela (modesta!) para continuarem a viver confortavelmente o suficiente para continuarem a obter rendimentos, de maneira a poderem ajudar mais pessoas).

    Ou seja, tomando o argumento do Peter Singer a sério, pessoas como ele deveriam doar 80% dos seus rendimentos (estou a atirar um número), porque conseguem viver condignamente e desempenhar as suas profissões só com 20%. Porque não faz então ele isso?

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    1. João, porque não fazemos NÓS isso?

      Mas indo directamente à sua questão (e depois à minha), como fala em percentagens, talvez valha a pena lembrar o seguinte: ao partir do montante calculado para fazer todos no planeta subirem acima do limiar da pobreza extrema, Peter Singer estabelece um critério público de ajuda de acordo com o rendimento de cada um (de 1%, 5%, 10% e por aí fora para os muito ricos). Apesar de fazer doações acima da percentagem que, de acordo com este critério, lhe caberia, sempre que questionado Peter Singer admite que poderia dar mais.

      Podíamos argumentar que, no seu caso ou no nosso, por precaução, não arriscaríamos tudo o que poderíamos dar, prevenindo assim a eventualidade de um qualquer acidente, um problema de saúde, uma catástrofe natural ou outra desgraça qualquer.

      Mas se o que está em causa é a resolução de um problema quantificável, considerando a parte que cabe a cada um, o que poderá servir de obstáculo à resolução deste problema? Serão aqueles que ajudam com a parte que lhes cabe (mesmo que possam ajudar mais), ou aqueles que ajudam com menos do que deviam (ou não ajudam de todo)?

      Mesmo admitindo que alguém, ao não cumprir com aquilo que pode, terá um efeito negativo na determinação dos outros (em termos psicológicos), em termos estritamente éticos podemos reflectir sobre o seguinte:

      Porque razão alguém (quem quer que seja) que ajude com menos do que pode, serviria de justificação para eu ajudar menos ou nem sequer ajudar?

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    2. "Porque razão alguém (quem quer que seja) que ajude com menos do que pode, serviria de justificação para eu ajudar menos ou nem sequer ajudar?"

      Não serve de justificação, não foi isso que eu disse. Aliás, até poderia servir de justificação para ajudar mais.

      "Peter Singer estabelece um critério público de ajuda de acordo com o rendimento de cada um (de 1%, 5%, 10% e por aí fora para os muito ricos)."

      Esse critério é político, essas percentagens são pequenas para não escandalizar as pessoas. A verdade é que esse critério é totalmente incongruente com a afirmação "devemos ajudar as pessoas em situação de pobreza extrema, se o custo de o fazer for irrisório comparado com os benefícios para essa pessoa". Esta afirmação implica, por exemplo, que quando vou comprar uma tv grande não o devo fazer, porque posso poupar esse dinheiro para matar a fome a uma criança africana (e é verdade).

      Julgo que o próprio Peter Singer admite que essas percentagens (1&, 5% e 10%) foram estabelecidas de maneira a serem pouco exigentes e, portanto, mais eficazes. Novamente, isso é política, trata-se de como manipular as pessoas de maneira a fazer algo usando meias verdades (estamos moralmente obrigados a dar 5% dos rendimentos, no sentido em que estamos obrigados a dar 80% e 5<80).

      Eu julgo que o problema é que as pessoas não levam afirmações do tipo "devemos ajudar as pessoas em situação de pobreza extrema, se o custo de o fazer for irrisório comparado com os benefícios para essa pessoa" a sério, ou seja, ou a afirmação é verdadeira ou é falsa, num sentido exacto, no mesmo sentido em que o teorema fundamental do cálculo é verdadeiro ou falso. Se for falsa, tudo o que ele diz está errado. Se for verdadeira, ele devia dar muito mais. Dizer que dá pouco e que até podia dar mais é irritante, porque faz da afirmação acima uma meia-verdade, algo que até faz sentido mas que às vezes se respeita ou não.

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    3. Alguém que acredite que esse critério público de doação, baseado nas percentagens referidas anteriormente, é o melhor porque leva às melhores consequências (que será o caso dos utilitaristas ), de que modo está a manipular a verdade ou as outras pessoas?

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  6. Talvez este pequeno texto/excerto possa ajudar a clarificar melhor o ponto de vista que enunciei no meu comentário anterior - em síntese, que as iniciativas altruístas obnubilam a necessidade de respostas ético-políticas, a nível sistémico - , que julgo relevante para debater a posição de Singer e, mormente, os seus pressupostos.

    "Talvez preferíssemos que a moral bastasse, talvez preferíssemos não ter necessidade de política.

    A política não é o contrário do egoísmo (esse é o caso da moral), mas a sua expressão colectiva é conflitual: trata-se de sermos egoístas em conjunto, (...) e o mais eficazmente possível. Como? Organizando convergências de interesses, e temos aquilo a que chamamos solidariedade (diferentemente da generosidade, que, pelo contrato supõe a desinteresse). (...)

    A grande tarefa do Estado é a regulação e a socialização dos egoísmos. É por isso que é necessário.

    E por isso que e insubstituível. A política não é o reino da moral, do dever, do amor. É o reino das relações de força e da opinião, dos interesses e dos conflitos de interesses". - A.Comte Sponville.


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    1. João, e se o altruísmo for uma resposta mais eficaz do que as mudanças políticas de fundo?

      Mesmo que consideremos ideal investir numa intervenção política com efeitos substanciais e permanentes, com um impacto até nos países que recusam essa intervenção, podemos antecipar a dificuldade de uma mudança (a nível sistémico) se verificar a curto prazo. Por isso, no que diz respeito à pobreza extrema, parece sensato equacionar um outro factor: a urgência. Poderíamos então colocar a seguinte questão:

      - Quanto tempo estaríamos dispostos a esperar para que essa intervenção política surta efeito, sabendo que, por causas relacionadas directamente com a pobreza extrema (segundo números da UNICEF), morrem 19 mil crianças por dia?

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  7. José, eu não diria que o altruísmo seja uma resposta mais eficaz do que a resposta política e sistémica; diria, antes, que, em contextos de emergência social ou humanitária - e assumindo uma forma sobretudo caritativa e assistencialista -, o altruísmo poderá ser a resposta mais rápida e expedita.

    No meu 1º comentário, de resto, afirmei que o altruísmo e o seu tipo de intervenção e a resposta ético-política, de ordem sistémica, não se excluem.

    O que eu penso é que o altruísmo, por mais eficácia de que se reclame, não só não se conseguirá substituir-se à dimensão ético-política, como tem um efeito ideológico instrumental de iludir e obnibular a necessidade das intervenções daquela natureza, na medida em que transmite a ilusão de que os problemas sociais de fundo são apenas de ordem "acidental", "conjuntural" ou "individual", e são resolúveis no quadro das iniciativas particulares, das "boas intenções".

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    1. Mas porque não considerar a ilusão inversa?

      Veja-se o caso do compromisso assumido pelos países desenvolvidos nos anos 70 relativamente à ajuda externa aos países mais carenciados. Só agora, 40 anos depois, é que o primeiro dos G8, o Reino Unido, cumpriu a meta predefinida – e não será de desprezar a influência de organizações humanitárias como a Oxfam.

      Como vários inquéritos demonstram, as pessoas continuam “iludidas” que os seus países contribuem com mais do que deviam (imaginando médias muito superiores à realidade) e, afinal, a maioria desses países fica-se pelas “boas intenções”.

      Porque havemos então de pressupor que a motivação ética que suporta o altruísmo seja nefasta para a intervenção política e não o oposto? Ou seja, porque não consideramos que a motivação ética que suporta o altruísmo seja benéfica (e até pedagógica) para a intervenção política?

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  8. Caro João Guedes,

    Suponha que, com 1000 euros, consegue ajudar 10 pessoas em situação de pobreza extrema. É verdade que o Estado podia ajudar muitas mais, mas o facto mantém-se que, se estiver disposto a doar 1000 euros em vez de os guardar para si, 10 pessoas podem sair extremamente beneficiadas, independentemente de as outras pessoas doarem dinheiro ou não. É um facto que o Estado não se sentirá tão obrigado a fazer doações, caso particulares o façam, mas essa consequência da sua acção hipotética (doar os 1000 euros) é mínima quando comparada com o facto de menos 10 pessoas morrerem à forme ou de doenças facilmente curáveis.

    Por exemplo, nas questões ambientais, o que diz faz sentido, dado que, mesmo que eu ande sempre de bicicleta e nunca polua nada, isso tem zero efeito, porque há 6 milhares de milhões na Terra, portanto o facto de eu poluir ou não não influencia a atmosfera ficar poluída ou não. Neste caso, no de ajudar pessoas em situação de pobreza extrema, a contribuição individual importa, porque é possível, com o dinheiro de uma só pessoa, salvar outra pessoa de morrer em miséria extrema.

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  9. José,
    O problema que, no fundo, devemos equacionar é o da Justiça, não ficando apenas no da "ajuda" ou da "doação", que vai redundar, como eu observei, no assistencialismo caritativo, expressão de altruísmo que tem pertinência sobretudo na perspectiva de acorrer a situações de emergência social ou humanitária - como são os exemplos apresentados por si.

    O altruísmo, seja qual for a sua forma, aceita e infunde o pressuposto de que as desigualdades sociais e económicas não devem ser combatidas na sua base estrutural e nos seus efeitos sistémicos, mas apenas "remediadas" ou "atenuadas" por iniciativas individuais (cuja "boa intenção" nem vou discutir) que, procurando mostrar o lado "humanitário" do sistema, acabam por contribuir para a "naturalização" e perpetuação das desigualdades.

    Veja-se um Rawls que, a seu modo, não deixa de reconhecer tais efeitos - acentuando o problema de fundo da Justiça.
    "A distribuição natural não é nem justa nem injusta; nem é injusto que as pessoas nasçam na sociedade com uma dada posição. São, muito simplesmente, factos naturais. O que é justo ou injusto é a forma como as instituições lidam com esses factos" (Uma Teoria da Justiça, sec. 17).












































































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