12 de maio de 2013

Filosofia da educação de Locke

Acaba de ser publicado o livro Educar Para a Verdade e a Virtude (Edições Afrontamento), de Rui Cunha, baseado na sua tese de doutoramento sobre a filosofia da educação de John Locke. O livro tem, aliás, o subtítulo A Emergência da Modernidade Pedagógica no Pensamento Educacional de John Locke


Este livro exibe as excelentes qualidades que todos os que conheceram Rui Cunha lhe reconheciam quando com ele conversavam ou liam o que escrevia: a sua enorme bagagem filosófica, o seu rigor conceptual, bem como o profundo conhecimento das fontes directas e da bibliografia de referência. Tendo como fonte principal a obra de Locke, em particular Some Thoughts Concerning Education (livro entretanto traduzido para português pela Almedina, com o título Alguns Pensamentos Sobre Educação), facilmente se percebe que Rui Cunha não deixa um único detalhe por estudar nem por esclarecer, ao estilo do melhor scholarship

Tratando-se de um livro póstumo, o Rui não teve, infelizmente, oportunidade de fazer a última revisão do texto nem de tomar algumas decisões de pormenor para publicação. A bibliografia consultada, por exemplo, foi muitíssimo mais extensa do que a indicada no fim do livro. Mas isso são apenas pormenores. 

O mais importante é que se trata de um rigoroso e informativo estudo de um autor português (penso que o primeiro) totalmente dedicado ao pensamento educacional de Locke, devidamente contextualizado em termos filosóficos. Eis, em resumo, o que Rui Cunha, nas suas próprias palavras, nos propõe neste estudo:

   «Locke é um pensador da máxima importância quando se trata da Epistemologia, creditando-se-lhe a paternidade da teoria empirista do conhecimento, maximamente relevante até ao presente; Locke é também um pensador da máxima importância no tocante à Filosofia Política, tendo cunhado a teoria contratualista da origem do Estado, igualmente relevante ainda hoje; então, porque é que, no que toca à Filosofia da Educação, onde também produziu obra, Locke é quase ignorado e considerado irrelevante hoje em dia? Como é que um génio filosófico na Epistemologia ou na Filosofia Política se metamorfoseia num pensador supostamente menor em Filosofia da Educação?
     Ou será que a produção educacional de John Locke não tem sido suficientemente lida e menos ainda bem compreendida a sua relevância filosófica? Se é assim, torna-se necessário recolocá-lo na primeira linha de debate entre os filósofos da educação. Justamente, é a hipótese da grandeza do pensamento de Locke, também nesta área, que subjaz a este trabalho e se configura como o nosso objectivo último: mostrar a importância do pensamento de Locke para o debate filosófico acerca da educação. 
   O fundamento desta nossa tese radica no que designamos como a Emergência da Modernidade Pedagógica. Que pretendemos dizer com isto? Entre o que, à falta de melhor, poderíamos chamar o modelo tradicional de educação e o modelo progressivo, operou-se, em nosso entender, uma mudança de paradigma, uma revolução pedagógica, mais complexa do que supõe o uso da expressão revolução copernicana, aplicada à proposta pedagógica de Rousseau. Em nosso entender, operou-se uma ruptura na história da filosofia da educação. A concepção de educação própria do período anterior a esse corte, que vem desde os Gregos, com particular realce para Platão, Aristóteles, Santo Agostinho e S. Tomás, cede lugar a uma nova concepção de educação que se constrói gradualmente a partir desse novo paradigma. Na hipótese que apresentamos, esse novo paradigma inicia-se no século XVII com Locke (embora tenha tido precursores como Coménio, ou até Montaigne, no século anterior) e conclui-se — nas suas linhas filosóficas gerais, que não na sua implementação generalizada na prática educativa — no século XVIII com Rousseau, cujo Émile servirá de porta-estandarte para esta nova visão da educação.
    A nossa hipótese não é, contudo, universalmente aceite.» (pp. 40-1)

O índice de conteúdos (abreviado) é o seguinte:

Prefácio
Abertura
Capítulo 1: Vida e obra de John Locke
Capítulo 2: Locke e a emergência da modernidade pedagógica
Capítulo 3: A recepção da filosofia da educação de Locke
Capítulo 4: Teoria geral da educação
Capítulo 5: Teoria da educação moral e cívica
Capítulo 6: O currículo do young gentleman
Referências bibliográficas

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