18 de junho de 2013

Peter Singer responde

Lançamos aqui o desafio de se colocar questões ao Peter Singer sobre o assunto do livro A Vida Que Podemos Salvar.



Acaba de ser publicado o primeiro vídeo com as respostas às seguintes questões:

1. "Como pode um estudante de dezasseis anos, sem rendimentos, contribuir para A Vida Que Podemos Salvar?" ~ Tom Cartwright (via Twitter) [00:15]

2. "O que pensa sobre o 'Problema dos pobres comedores de carne'?" ~ Peter Hurford (via Twitter) [01:10]

3. "Uma possibilidade suficientemente desanimadora seria uma criança cuja vida é salva apenas para viver mais 50 anos com problemas que impedem qualquer contentamento." ~ Charles Spohr (via email) [02:42]

4. "À luz de outras catástrofes, como a Super-tempestade do Furacão Sandy, questiono-me se uma doação à Cruz Vermelha Americana, por exemplo, para assistência à catástrofe, estaria dentro do espírito do Compromisso?" ~ Ann Howard (via email) [04:04]

5. "Onde traço o limite para as minhas acções? Teria de viajar por todo o mundo para tentar salvar TODAS as “crianças a afogar-se no lago”?" ~ José Oliveira Stor Zé (via Facebook) [06:22]

E estas respostas de Peter Singer, despertam-lhe novas questões?

7 comentários:

  1. Mais do que questões avulsas, o que tem pertinência, seja numa perspecttiva de cidadania, seja numa perspectiva filosófica, é interpelar e analisar os supostos e os limites desse "altruísmo eficaz" apresentado por Singer.

    Desede logo, convém sublinhar que as iniciativas altruístas relevam as mais das vezes do individualismo (senão do mero gozo privado de se "sentir fazer o bem") e perdem de vista, ou iludem, as soluções globais - que se jogam no plano ético-político - e que combatem os grandes problemas na sua raíz sistémica.
    Se, em contextos de emergência social ou humanitária - e assumindo uma forma sobretudo caritativa e assistencialista -, o altruísmo poderá ser a resposta mais rápida e expedita, daí não se segue que seja uma resposta mais eficaz do que a resposta política e sistémica e que a possa verdadeiramente substituir.

    Não é que o altruísmo e o seu tipo de intervenção e a resposta ético-política, de ordem sistémica, se excluam mutuamente.
    O que eu penso é que o altruísmo, por mais eficácia que se reclame, não só não se conseguirá substituir à dimensão ético-política, como tem um efeito ideológico instrumental de iludir e obnibular a necessidade das intervenções daquela natureza, na medida em que transmite a ilusão de que os problemas sociais de fundo são apenas de ordem "acidental", "conjuntural" ou "individual", e são resolúveis no quadro das iniciativas particulares, das "boas intenções".

    O problema que, no fundo, devemos equacionar é o da Justiça, não ficando apenas no da "ajuda" ou da "doação", que vai redundar no assistencialismo caritativo, expressão de altruísmo que tem pertinência sobretudo na perspectiva de acorrer a situações de emergência social ou humanitária.
    O altruísmo, seja qual for a sua forma, tende a fazer aceitar e a infundir o pressuposto de que as desigualdades sociais e económicas não devem ser combatidas na sua base estrutural e nos seus efeitos sistémicos, mas apenas "remediadas" ou "atenuadas" por iniciativas individuais (cuja "boa intenção" nem vou discutir) que, procurando mostrar o lado "humanitário" do sistema, acabam por contribuir para a "naturalização" e perpetuação das desigualdades, numa realidade social, e mesmo global, em que estas se aprofundam cada vez mais.


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    1. Olá João, vou tentar sintetizar a sua objecção ao altruísmo (tendo como referência a acção politica) e tentar perceber se ela acerta no alvo.

      - Se admite que o altruísmo pode coexistir com a acção política (e o “altruísmo eficaz” não propõe substituir-se à acção política), então este não será o ponto fundamental da sua objecção ou estaria, mesmo em seu entender, a errar o alvo;

      - Se não concretiza a relação entre o altruísmo e o egoísmo (pois o egoísmo, ao sobrepor-se, anularia o altruísmo – e aí de que estaríamos a falar?), não será esse também o ponto fundamental da sua objecção ou estaria também a errar o alvo (ou o alvo até desaparecia);

      - Resta a opinião que o altruísmo, em seu entender, serve para iludir e esconder a existência dos problemas que tenta resolver (!?). Ora este argumento, que o João repete insistentemente, parece não fazer sentido, pois uma das funções das Organizações Humanitárias mais eficazes é precisamente exercer pressão para que o poder político, esse sim, não consiga iludir ou esconder esses problemas (e os resolva). Pois alguns desses problemas são provocados ou mantidos pelo próprio poder político. Assim, se bem o entendo, parece que a sua opinião está correcta, mas erra o alvo.

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  2. Sophi/Editora Juruá18 de junho de 2013 às 17:31

    Boa tarde,
    Meu nome é Sophi, trabalho no departamento de divulgação da Juruá Editora e gostaria de lhe fazer uma proposta de parceria. Caso tenha interesse em saber mais detalhes, peço a gentileza de que entre em contato no e-mail divulgacao@jurua.com.br.
    Agradeço a atenção.

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  3. Olá, José Oliveira!

    Uma das muitas perguntas que eu faria ao Singer é: Há quase nada que se equipara em importância moral ao alívio do sofrimento causado pela miséria, dada a gravidade desse mal. No fim, de fato, quase tudo teria que ser sacrificado em função de nos empenharmos em acabar com ele. As artes, por exemplo, perderiam a importância diante de tal mal. Reconheço que entre salvar um quadro de Rembrandt e uma criança, mais vale salvar uma criança. Contudo, se nos colocamos como Singer contra o leilão ou mesmo a compra de obras de obras de arte a altos preços, ainda que as obras o valham, como fica o trabalho dos artistas (estou me referindo aos bons artistas)? Que valor terá o trabalho deles? Para que fazer arte em um mundo que tantas pessoas morrem de fome? Se pensarmos também em âmbitos como a Física, por exemplo, que importância ela tem diante da morte de tantas crianças por malária? Deveria um físico abandonar suas pesquisas, se tornar infectologista, médico ou sanitarista e se dedicar à pesquisa sobre vacinas e curas para doenças características dos lugares mais pobres? Deve um escultor se tornar economista e pensar estratégias eficazes para colocar fim à pobreza?

    Outro ponto que me intriga diz respeito ao princípio normativo de Singer. Ele propõe um princípio normativo? O utilitarismo é mesmo o pano de fundo para seus mais diversos argumentos em Ética Prática? Se é, qual tipo, negativo ou preferencial? Ele não distingue bem prazer ou sofrimento de interesse/preferência. Em A Vida que Podemos Salvar ele formaliza seu principal argumento em favor da obrigação de ajudar, já anteriormente formulado quase do mesmo modo em “Famine, Affluence and Morality” e em Ética Prática (considerando já a edição de 2011). Contudo, apesar de ser um argumento especificamente voltado para a obrigação de ajudar, Singer parece sugerir que, considerando pelo menos a premissa 2 do argumento (Se está em nosso alcance evitar algo ruim de acontecer, sem sacrificar qualquer coisa quase tão importante, é errado não fazer.), temos a obrigação de evitar que coisas ruins aconteçam. Que coisas ruins são essas, qualquer sofrimento, apenas o sofrimento causado pela pobreza? Em “Famine, Affluence and Morality” uma das definições, ou pelo menos, um dos exemplos de “coisas ruins” são coisas intrinsecamente erradas. Porém, se ele não é um utilitarista, ele não é, pelo menos, um consequencialista?

    Obs.: Não tenho facebook, como faço para fazer todas essas perguntas ao Singer, envio para o e-mail institucional dele?

    Abraço!

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    1. Olá Fernanda. Desculpe o atraso, mas só agora vi o seu comentário.

      Para colocar estas questões directamente ao Peter Singer, julgo que o mais adequado será através do contacto do site "The Life You Can Save".
      Outras recomendações que faria são as seguintes, para além de colocar as questões em Inglês, estas devem ser breves – repare que as questões escolhidas anteriormente foram resumidas a uma curta frase. Imagino também que uma pergunta que envolva dois ou três assuntos distintos possa não ser escolhida.

      Espero que consiga que o Peter Singer responda às suas questões!

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  4. Olá,

    O primeiro parágrafo é uma pergunta interessante, que eu já fiz aqui, à qual nem o Singer, nem qualquer dos bloggers aqui sabe responder. É incrível que as pessoas continuem a publicitar as ideias do Singer sem notarem que as ideias dele, levadas a sério, obrigam-nos todos a ser melhores que a Madre Teresa de Calcutá.

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    1. Olá João. Não percebo a que “primeiro parágrafo” se refere. De qualquer modo julgo que a resposta do Peter Singer à questão que coloquei (a questão n.º 5), contraria a sua última afirmação - se lhe parece que a resposta não é convincente pode sempre "publicitar" aqui as suas ideias.

      Agradeço desde já a sua atenção.

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