13 de julho de 2013

Julian Dodd: Será 4'33'' de John Cage música?



Julian Dodd argumenta que 4'33'' de John Cage não é música, ao passo que Imaginary Landscape nº4, uma peça para 12 rádios, do mesmo autor, é música. Dodd argumenta a favor desta conclusão com base no que pensa ser uma condição necessária para algo ser uma obra musical. Terá razão quanto à condição indicada ser mesmo necessária? Terá razão acerca das conclusões a que chega? Será que importa realmente se 4'33'' é ou não música? Se não importa, estaremos ainda a dizer algo interessante quando dizemos que 4'33'', ou seja o que for, é música? E o que pensa o leitor?

4 comentários:

  1. Um peido é música? E uma sucessão de peidos?

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  3. Consigo imaginar situações em que o som de um peido é integrado numa composição musical, tal como os sons de uma máquina de escrever foram integrados numa composição musical por Leroy Anderson: http://www.youtube.com/watch?v=g2LJ1i7222c

    Posso ainda imaginar composições de "arte sonora", desprovidas de ritmo, melodia ou harmonia, manipulando electronicamente gravações de peidos. Algo como as composições "musique concrète" de P. Schaeffer e P. Henry. Neste caso, obscurecer a origem causal dos sons seria uma vantagem. Os peidos escutados "acusmaticamente" terão maior probabilidade de soarem bem.


    Outra hipótese ainda é usar o som dos peidos de forma rítmica. Nesse caso teríamos uma sequência sonora com pelo menos uma "característica musical básica" (ritmo, melodia ou harmonia). Para gerar melodias e acordes seria preciso algum virtuosismo flatulento.

    Uma questão completamente diferente é se alguma destas coisas teria valor ou interesse estético.

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  4. O Frederico acaba por tocar talvez num ponto importante (se por acaso interpreto bem o que pensou). Discordo de que a condição apontada por Dodd seja realmente necessária para algo ser uma obra musical - a condição é a de que uma obra musical tem de consistir em sons organizados por um compositor sob a forma de instruções para execução. Uma objecção imediata a isto é que há obras, como composições electrónicas para reprodução, que não são sequer executáveis. Produzir sons indiscerníveis seria o equivalente a produzir uma réplica de um quadro. Isto introduz uma potencial distinção curiosa na música: nem toda a música é alográfica, como pensava Goodman; parece que alguma música é autográfica.

    Voltando à intervenção do Francisco. É uma excelente pergunta se *quaisquer* instruções dadas por um compositor, para a produção de sons, consiste em música. Há uma certa tradição de repetir que esta questão não é realmente importante. Discordo. O conceito de música não pode ser um conceito arbitrário ou vazio. Se tudo o que une as coisas que classificamos como música é o facto de lhes aplicarmos este ruído - "música" - então nada de interessante dizemos ao dizer que algo é música. Bem podíamos dizer que são "zingarelhos em suspensão aquosa", ou outro ruído parvo qualquer.
    O que penso é que tal como nas teorias da representação figurativa opomos as teorias perceptivas à teorias convencionalistas como a de Goodman, sendo que as primeiras apelam a um tipo específico de expriência, algo como o seeing-in ("ver em") de que falava Wollheim, há um tipo especial de experiência sonora que dá substância ao nosso conceito "música" e torna inteligíveis usos alargados do conceito ("musique concrète", p.ex.). Esta experiência sonora peculiar, creio, é aquilo a que Scruton chamou "experiência dos sons como tons" (não confundir isto com sons de altura definida). Quando ouvimos sons ambiente, como os sons que compõem execuções de 4'33'', ouvimo-los como pistas acústicas acerca do ambiente, como reveladores das suas causas. Mas quando ouvimos música temos uma experiência diferente: ouvimos o Dó no clarinete como uma resposta ao Si que o antecedeu e uma antecipação do Mi que lhe sucederá. Ouvimos um movimento que nenhum som exemplifica literalmente (alguns autores contestam a ideia de Scruton de que as descrições da música em termos de espaço e movimento são metafóricas). Esta "experiência dos sons como tons" não se restringe à tonalidade diatónica, nem tem apenas a ver com sons de altura definida. Por exemplo, a experiência de uma sequência rítmica é já uma "experiência de sons como tons", pois o ritmo é um género de "animação" ou movimento que ouvimos no som e não se reduz à regularidade ou a uma pulsação.

    Para mais sobre este tema, sugiro a leitura dos três capítulos iniciais de Aesthetics of Music, de Scruton, bem como os artigos de Malcolm Budd que disputam as ideias de Scruton (Musical Movement and Aesthetic Metaphors; Musical Understanding; entre outros); bem como os artigos de Nick Zangwill sobre música e metáfora (acessíveis no site pessoal do autor).

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