12 de julho de 2013

O valor da civilização



O cultivo de grandes realizações culturais é, assim, uma condição necessária, mas não suficiente, da civilização - conta-se que comandantes de campos de concentração choravam à noite ao som de Schubert, após um duro dia de matança em massa. Ninguém chamaria esses homens de civilizados. Pelo contrário, assemelhavam-se mais aos bárbaros antigos que, após invadirem e saquearem uma cidade civilizada, viviam em suas ruínas porque elas eram ainda muito melhores do que qualquer coisa que eles poderiam construir por contra própria. A primeira exigência da civilização é que os homens estejam dispostos a reprimir seus instintos e apetites mais baixos: falhar nisso faz deles, precisamente porque são inteligentes, muito piores que meras bestas.
 Theodore Dalrymple, O que temos a perder.

O ensaio completo pode ser lido aqui, em tradução de Aluízio Couto. 

11 comentários:

  1. Oportuna reflexão esta, em tempos como os nossos em que a sombra da barbárie se perfila de novo, insidiosamente, sobre a Europa.
    Numa célebre conferência sobre o inquietante destino da Europa, proferida em 1935, Husserl advertia: "O maior perigo da Europa é o cansaço." Hoje, a Europa esfarela-se entre o cansaço - que conduz à amnésia - e a agonia.

    No seu testamento de 1895, Alfred Nobel falava na importância crucial da paz num mundo que a ciência e a técnica tornavam mais poderoso mas, ao mesmo tempo, mais vulnerável. Seguindo as pisadas ilustres de Saint-Pierre, de Kant, ou de Victor Hugo, Nobel falava de um "Congresso de Paz", que juntasse os povos e os Estados, num caminho de cooperação e progresso. Os apelos de Nobel foram ensurdecidos pelo troar dos canhões que devastaram a Europa e o mundo durante três décadas (1914-1945). Duas gerações destroçadas por poderosas armas de destruição maciça. Milhões de jovens, educados e saudáveis, fuzilados pela metralha, intoxicados por gases venenosos, volatizados pela aviação. Cidades devastadas. Civis dizimados pela fome. Uma Grande Depressão entre duas guerras. O Holocausto. Os cogumelos atómicos. O século XX libertou os cavaleiros do Apocalipse, e fê-lo a partir de uma Europa endoidecida, "sedenta do seu próprio sangue", como profetizou Nietzsche.

    Quando atribuiu o Prémio Nobel da Paz à União Europeia, o Comité Nobel não se limitou a recordar os 60 anos de paz e prosperidade que a integração europeia já permitiu. Lançou um apelo vibrante para os riscos desse projeto mergulhar num abismo sombrio. Um grito de alerta, numa Europa de democracias fragilizadas, servida por líderes pusilânimes. Sem memória histórica. Omissos nas ciências básicas da governação. Sem o sentido do trágico. Desprovidos de empatia pelo sofrimento dos seus povos. Enredados na sinistra contabilidade das "dívidas soberanas", esquecendo a escolha imutável do nosso destino: os Europeus estão condenados a estar juntos. Ou, lado a lado, construindo um futuro comum e pacífico. Ou, frente a frente, dilacerando-se nos campos de batalha. Será que acordaremos antes de ser demasiado tarde?

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  2. Numa perspectiva mais global, devemos dirigir entretanto a nossa interrogação para um horizonte mais amplo.
    Charles Keeling foi quem conseguiu medir pela primeira vez com exatidão a quantidade de dióxido de carbono (CO2) existente na atmosfera terrestre. O feito ocorreu em 1958, num local muito elevado e limpo, o vulcão Mauna Loa, no Hawai. A medição indicava: 315 moléculas de dióxido de carbono em cada milhão de moléculas de ar (ppmv CO2). O CO2 é o principal gás de efeito de estufa (GEE), gases responsáveis pelo facto de a vida humana civilizada ser possível na Terra. Se o dióxido de carbono fosse retirado da nossa atmosfera, a temperatura média baixaria de 14ºC para -18ºC. A Terra seria uma permanente "bola de neve". Dia 9 de maio de 2013, a agência americana NOOA informou que a barreira dos 400 ppmv CO2 havia sido ultrapassada. A última vez que tal ocorreu foi há três milhões de anos! Quando a máquina a vapor começou a funcionar, em 1750, a atmosfera tinha 275 ppmv CO2.
    É aqui que se encontra a raiz das alterações climáticas e do aquecimento global. Os GEE, que acrescentamos à atmosfera com o nosso abuso dos combustíveis fósseis, são como um bom vinho. Delicioso, se bebido com moderação; mortal, se o ingerirmos até ao coma alcoólico. Por este caminho atingiremos níveis de GEE na atmosfera que causarão aumentos da temperatura média de 4ºC a 5ºC antes mesmo do final do século. Será um planeta fustigado por um clima hostil, incapaz de suportar os 11 mil milhões de habitantes que se projetam. Comparado com isto, tudo o mais, incluindo a crise na Zona Euro, são detalhes. Contudo, perante a cegueira egoísta e míope que domina a política, mormente no Velho Continente, apetece repetir o que Heidegger disse, na célebre entrevista em 1967: "Já só um deus nos poderá salvar..."

    A Verdade. O Bem. O Belo. Estes são os três vértices do antiquíssimo triângulo platónico em que se funda a alma imortal da Europa. Apesar de todas as destruições, quando a Europa se reergue das cinzas, é aí que poderá buscar a força da renovação.

    Pena é que o pensamento e, em particular, o europeu atravesse também ele uma hora de crepúsculo. A filosofia, designadamente, parece entorpecida por uma debilidade do pensamento, capturada por um crescente academismo que a torna cada vez mais fechada e ensimesmada, ameaçando volver-se numa nova forma de escolástica. (O panorama filosófico do outro lado do Atlântico é bem sintomático).
    Mas uma escolástica assistida por deuses menores...

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  3. Saudade do tempo em que se publicava mais filosofia e menos panfletos sentimentalistas neste blog.

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  4. "O cultivo de grandes realizações culturais é, assim, uma condição necessária, mas não suficiente, da civilização (...)
    A primeira exigência da civilização é que os homens estejam dispostos a reprimir seus instintos e apetites mais baixos: falhar nisso faz deles, precisamente porque são inteligentes, muito piores que meras bestas."

    Realmente, é muito plausível isso (ironia modo on). Excluamos, então, do conjunto das civilizações o Egito, a Babilônia, a Grécia, a Pérsia, Roma, Índia, Japão (antigo), China (antiga)e a civilização maia; pois em todas elas não houve o que ele chama de "repressão de instintos e apetites mais baixos".

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  5. Estar disposto a reprimir seus instintos não é o mesmo que de fato reprimir os instintos. Pode ser que muitos que de fato não reprimiram seus instintos estavam dispostos a reprimi-los. Falhar em reprimir os instintos não é o mesmo que falhar em estar disposto a reprimir os instintos.

    O problema é que parece que mesmo quem defenda que reprimir os instintos é uma condição necessária de uma civilização não está disposto a aceitar que a mera disposição para reprimir os instintos seja o bastante.

    Além disso, estar disposto a reprimir os instintos não é condição necessária para reprimir os instintos. Quando alguém é ameaçado com uma arma para que entregue a carteira, e então a entrega, não parece que estava disposto a entregar a carteira, ainda que a tenha entregue. O que parece é que estar disposto a realizar uma ação a é condição necessária para realizar a ação a. Mas neste caso, não se vê como o autor pode distinguir entre as civilizações, onde supostamente as pessoas reprimiram seus instintos, daquilo que não seriam civilizações, uma vez que é inteiramente possível que neste último caso, ainda que não tenham de fato reprimido seus instintos, podem ter estado dispostos a reprimir. E se estavam dispostos, parece que temos que aceitar que eram de fato civilizações, porque é isso que está dito no texto, cuja citação está no comentário acima.

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  6. Correção: onde se lê "O que parece é que estar disposto a realizar uma ação a é condição necessária para realizar a ação a."

    leia-se:

    "O que parece é que estar disposto a realizar uma ação a é condição necessária para realizar VOLUNTARIAMENTE a ação a."

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  7. É uma pena que se gaste energia passando um texto assim para o português quando nossa língua carece de tantos textos realmente bons e importantes.

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  8. Os comentário do anónimo mostram bem, contra ele mesmo - e até pelo contraste com os dois primeiros comentários -, a falta que faz "mais filosofia".

    De facto, ele ensaia, dir-se-ia por caricatura, uma "abordagem analítica" - e falha por completo o essencial do texto/ensaio de Darlymple.

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  9. Diogo, por acaso tens alguma objeção às ideias apresentadas nos comentários acima ou estás apenas a atacar quem escreveu os comentários? Não percebi bem. Qual o problema em discutir-se em pormenor as afirmações do autor, sejam elas centrais ou periféricas? Uma afirmação falsa é ainda falsa mesmo que não seja central. Discutir esse tipo de pormenor é uma característica típica da "abordagem analítica" que você citou e é o que fazem os melhores filósofos desde os tempos de Platão e Aristóteles.

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  10. A definição do autor é falaciosa, sua redução excluiu as maiores civilizações da história conhecia. O que eu pude ver foi o texto acima, não consegui ler o texto, mas a essência está aí. Ele pensa que, por tocar um assunto polêmico, terá a vitória garantida. É um asno!
    Qual civilização se encaixa nessa definição?
    Não há preocupação com a realidade? Tudo bem, podemos ficar no âmbito ideal sem problemas. Todavia acho uma exigência demasiadamente grande essa que ele faz.
    Ele não precisa achar a frieza e a crueldade (seja qual for) algo bonito, mas daí a rejeitar o título de civilização de um povo por não se enquadrar em seu humanismo é ridículo.

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  11. Fui violentado, estuprado pelos bandidões da Abin mais de uma vez além de outros crimes,me ajudem denunciando os criminosos para o mundo, url:https://www.facebook.com/profile.php?id=100008766464140

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