12 de agosto de 2013

E se o pensamento moral for irredutível ao pensamento amoral?

A propósito da nota do Lucas, considere-se o seguinte: imagine-se que a justificação moral é irredutível a outras justificações (penso que algo como isto faz parte da concepção de Enoch). Uma razão para isso seria que os conceitos morais são primitivos, irredutíveis a conceitos não-morais.

Agora considere-se três tipos de justificação última da moralidade: a utilitarista, a contratualista e a kantiana. Estas são as justificações mais influentes. Todas estão erradas, parece-me, se a justificação moral for irredutível a outros tipos de justificação. Vejamos porquê.

O utilitarismo defende que o princípio moral último é a maior felicidade para o maior número de agentes morais relevantes. Ou este princípio é circular ou comete uma versão da falácia naturalista, violando a irredutibilidade da moralidade. É circular caso não se explique de modo não-moral o que é um agente moral relevante e por que razão cada agente moral tem o dever de promover a felicidade máxima de todos os outros agentes morais. Se escaparmos da circularidade, dando uma prova naturalista do princípio, como Mill, viola-se a irredutibilidade da moralidade, cometendo uma versão da falácia naturalista. O realista moral irredutibilista tem de aceitar a opção 1; mas sem a ilusão da redução da segunda via está longe de ser óbvio que o princípio seja verdadeiro (por que raio tenho o dever de promover a felicidade de todos os agentes morais relevantes, tenha eu ou não contacto moralmente relevante com tais agentes? Sou um mero ser humano, ou uma divindade?)

Considere-se agora a justificação contratualista: temos o dever de fazer o que vemos que deve ser feito sob o véu da ignorância. Só que há duas maneiras de conceber o véu da ignorância: ou tento decidir tendo sem ter em conta considerações morais, ou tendo-as em conta. No primeiro caso violamos a irredutibilidade do moral ao amoral, cometendo portanto uma versão da falácia naturalista. No segundo, é circular. No primeiro caso, decido que os mais ricos têm o dever de financiar os mais pobres, porque estou a pensar amoralmente: terei pouco a perder se for rico, mas muito a ganhar se for pobre. Mas o resultado é apenas uma decisão amoral, sem legitimidade moral se a moralidade for irredutível ao pensamento amoral. No segundo caso, que é a via de quem pensa que a moralidade é irredutível à moralidade, tomo decisões não tendo apenas em conta os meus interesses egoístas, mas tendo em conta o que é justo e injusto, de modo que não serve para descobrir quais são os princípios de justiça se eu não souber já o que é e o que não é moral fazer.

Considere-se agora a justificação kantiana: tenho sempre o dever de cumprir o imperativo categórico em cada situação. E o que é o imperativo categórico em cada caso? É apenas uma versão de raciocínio imparcial amoral, com a justificação adicional de que violar esta imparcialidade é irracional porque conduz a contradições lógicas ou incoerências. Em última análise, tenho o dever de fazer algo quando não o fazer envolve um certo tipo de irracionalidade. Como é evidente, isto é uma justificação amoral da moralidade, pois pressupõe que agir moralmente é apenas uma questão de agir racionalmente. Se a tese da irredutibilidade do pensamento moral estiver correcta, esta justificação está incorrecta porque comete uma vez mais uma versão da falácia naturalista. Uma maneira de não o fazer é declarar que tenho o dever de fazer algo não porque não o fazer seja irracional, mas exclusivamente porque não o fazer é imoral. Neste caso, ficamos sem maneira de estabelecer qual é o imperativo categórico em cada caso, ao passo que na versão original de Kant temos pelo menos um guia: a imparcialidade máxima.

Se eu tiver razão em algumas destas reflexões, considerar que o pensamento moral é irredutível a conceitos não morais tem efeitos mais radicais do que talvez pareça à primeira vista. Explorar esta opção parece-me um trabalho interessante. Intuicionistas como Moore fizeram-no, mas o pensamento deles é hoje pouco conhecido. O que mais se conhece é o utilitarismo, o kantismo e o contratualismo, teorias que me parecem pouquíssimo promissoras caso o pensamento moral seja irredutível. Isto não é dizer que estas três teorias estejam erradas; têm elementos de verdade, mas estão erradas enquanto teorias da fundamentação da moral. São antes teorias que, adequadamente entendidas, falam de alguns aspectos importantes do pensamento moral (como a imparcialidade), mas pecam por tornar condições necessárias da moralidade em condições suficientes.

E o que pensam os leitores?

14 comentários:

  1. Desidério,

    Se consegui entender bem, você está acusando as teorias de falácia naturalista por conta de elas derivarem uma conclusão moral de uma premissa amoral segundo a qual agir moralmente seria equivalente a agir racionalmente. Mas me parece que não há aí uma falácia naturalista, pois "agir racionalmente" pode ser considerado também como normativo, só que a normatividade em causa é epistêmica.

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    1. Não tinha pensado nisso. É defensável que existe um e um só tipo de normatividade, com diferentes aplicações em diferentes domínios. A alternativa parece menos atraente: diferentes tipos de normatividade em diferentes domínios. Afinal, o que há de comum a toda a normatividade é o conceito de dever, e tanto faz se é dever moral ou não.

      OK, é preciso reconstruir a compreensão das três teorias que delineei para ver como seguindo essa alternativa. Não sei como será, tenho de pensar nisso. Obrigado!

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    3. Mas acha que há alguma diferença relevante se adotarmos a tese de que há um só tipo de normatividade e a tese de que há diferentes tipos de normatividade para evitar a falácia naturalista que você apontou? Me parece que em ambos os casos a falácia é evitada: no primeiro diríamos que é normatividade (comum) aplicada ao domínio epistêmico. No segundo é que a normatividade é de uma categoria distinta, mas ainda é normatividade. Parece que para dizer que a falácia naturalista permanece você tem de ampliar o escopo da falácia e dizer que também é falacioso derivar uma conclusão normativa de uma premissa que estatui um tipo de normatividade diferente.
      É claro que essa conversa toda não responde a sua objeção mais central contra a irredutibilidade, mas apenas mostra que há uma saída para quem quer justificar a moralidade de modo amoral.

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    4. Eu não disse que há falácia naturalista, pois não disse que o pensamento moral é irredutível ao amoral; apenas considerei o que acontece se aceitarmos a tese da irredutibilidade. Agora, parece-me menos fácil defender a tese da irredutibilidade se aceitarmos que há diferentes tipos de normatividade. Neste caso, é mais difícil explicar por que razão o dever moral seria irredutível ao dever epistémico, por exemplo. Note-se que na verdade não faço ideia do que seja um dever epistémico, para lá da metáfora ou para lá do dever hipotético. Parece-me muito mais natural pensar que as normatividades não-morais são aplicações da normatividade moral a outros campos. Mas posso estar enganado. Não conheço sequer a área.

      A hipótese de o pensamento moral ser irredutível sempre me pareceu uma tese implausível, uma espécie de concepção para-religiosa da moralidade. Contudo, fui levado a pensar ao contrário vendo que em alguns casos o pensamento moral baseado no amoral tem resultados que me parece evidentemente imorais. Como nada vejo que esteja errado excepto o pressuposto da redução do moral ao amoral, comecei a pensar que se este pressuposto estiver errado é preciso uma reorganização incrível dos fundamentos do pensamento moral. Eu estava habituado a pensar (e escrevi-o algures, acho que no Filosofia em Directo) que a moralidade é apenas a coordenação imparcial de interesses conflituantes. Isto agora parece-me demonstravelmente errado, com exemplos muito simples.

      Como o Eunoch defende também o anti-reducionismo, lembrei-me de disparar estas ideias para ver como as pessoas reagem.

      Só mais uma nota: se o pensamento moral for irredutível, a circularidade será inevitável, mas virtuosa, se a teoria for bem feita. Teremos uma justificação moral última para algo, e nada haverá de não-moral que justifique tal justificação; teremos de apelar apenas há harmonia, coerência e coisas assim, relativamente a outros princípios morais. Ou então vamos pela via intuicionista, hoje pouco levada a sério, e defendemos que há intuições morais últimas, que não carecem de justificação porque são auto-evidentes.

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  2. Caro Desidério,

    Uma questão: de que modo a irredutibilidade da justificação moral está ligada à perspectiva realista que defende existirem factos morais?

    Parece-me que se assumirmos a existência de factos morais então, numa analogia matemática, existem axiomas que determinam (que são?) objetivamente as justificações morais e, desde que os saibamos, não há necessidade de justificações circulares ou que a delegam em outros tipos de premissas amorais. Mas se assumirmos o não-realismo, então não existem axiomas e necessitamos de encontrar fundamentos não morais, como a razão ou a imparcialidade, para justificar os nossos actos morais da melhor forma possível.

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    1. Não sei se Eunoch defende a existência de factos morais, pois não li coisa alguma dele, mas no excerto do livro fala apenas de verdades morais (o que não implica a existência de factos morais). Eu tive o cuidado de não dizer que do realismo moral robusto se segue a irredutibilidade da moralidade. Até porque me parece que as duas coisas são independentes, ainda que seja comum e natural defender ambas. Eu estava apenas a falar do aspecto anti-redutivista de Eunoch, que está também patente na apresentação do livro. Como Moore, ele parece defender que o pensamento moral é irredutível ao pensamento amoral. E é esta tese apenas que discuti brevemente na minha nota, e não a outra tese, a do realismo.

      Definamos “realismo moral” como a tese de que há verdades morais independentes do que nós pensamos. Isto é compatível com a tese de que as verdades morais são redutíveis a verdades amorais, e também com a tese de que não são redutíveis. Assim, nada do que eu disse é relevante para o realismo moral, pois o que eu disse só é relevante para a tese da irredutibilidade da moral ao amoral.

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  3. Considere-se o seguinte caso: tenho o desejo (não importa porquê) de que X seja verdade. Mas apercebo-me de fortes indícios de que não é verdade que X. Tenho assim uma *razão*, independente do meu desejo anterior, para acreditar que não é verdade que X.
    Mas suponhamos que alguém decide ignorar os indícios e defender que X (o que acontece frequentemente). Em que é que isto difere relevantemente dos casos mais obviamente morais? Será esta uma aplicação da normatividade moral ao domínio epistémico?
    Se o realismo acerca de qualquer domínio se define pela tese de que há verdades nesse domínio, parece que é a normatividade no exemplo anterior que se aplica a todos os outros domínios.
    Claro que isto não significa que as verdades morais são redutíveis a outro género de verdades; significa apenas que a normatividade é uma só. Do que não estou certo é que a normatividade no exemplo que dei seja um caso de aplicação metafórica do conceito de dever moral.

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    1. OK, acho que tornaste plausível a ideia de que a normatividade é um conceito independente, tendo depois aplicações morais ou não. Talvez eu tenha feito uma confusão, pois o que parece razoável agora é que a normatividade está analiticamente presa à acção: a normatividade parece sempre um conceito de racionalidade prática. Dado que nem toda a racionalidade prática é moral, eu teria caído numa ilusão. Isto é curioso, pois significaria que o mais fundamental é a normatividade, sendo o caso da norma moral apenas uma das suas aplicações. Isto parece tornar muito mais plausível a ideia de que a norma moral deriva de normas amorais, porque afinal de contas o central é a normatividade.

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    2. Eu também acho a observação do Vítor esclarecedora, mas não penso que ela é suficiente para reduzir a moral ao amoral. Repare, se os experimentos do acelerador de partículas se comportam de uma maneira que desafia os pressupostos teóricos do físico, ele tem uma razão para reavaliar os seus pressupostos, se a minha demonstração de um teorema enfrenta um contra-exemplo, eu tenho uma razão para pensar que o teorema é apenas uma conjectura falsa, se há boas razões para pensar que as minhas preferências não são únicas, eu tenho uma razão para pensar que as preferências devem ser consideradas de maneira imparcial. No terceiro caso em que falamos de moral, não é a constatação amoral de que as minhas preferências não são as únicas que me dão uma razão para considera-las de maneira imparcial, o egoísta não se importará com isso, mas sim o pressuposto moral de que se as minhas preferências não são as únicas, eu devo considera-las de maneira imparcial.

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    3. Sim, no caso da consideração de interesses alheios não é fácil ver que norma está sendo violada se o amoralista disser que reconhece evidentemente que as outras pessoas têm interesses, tal como ele tem interesses, mas que isso não é em si razão para ele os ter em consideração. Que norma amoral está a ser violada? A dificuldade é que parece que temos de aceitar desde o início que desconsiderar interesses alheios é imoral para que possamos dizer fazer tal coisa viola uma norma. Até porque muitos interesses alheios não são moralmente relevantes! Quando o João tem o interesse de ir ao cinema mas está com preguiça para ir comprar o bilhete porque teria de ir antes ao banco levantar dinheiro, isso não me dá qualquer razão moral para lhe emprestar dinheiro. Portanto, parece que temos desde o início de distinguir interesses moralmente relevantes de interesses moralmente irrelevantes, e isto parece sugerir que qualquer redução do moral ao amoral é pelo menos inicialmente implausível.

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    4. Em certo sentido essa discussão sobre se a moral pode ou não ser reduzida ao amoral confunde a questão, pois o que devemos realmente perguntar é se as verdades morais são verdadeiras em função de meros fatos ou quaisquer elementos amorais. A proposição de que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil é uma verdade histórica se Pedro Álvares Cabral de fato descobriu o Brasil no passado. Alguém poderia argumentar que a história é em última instância apenas um amontoado de partículas em campos de força e assim reduzir fatos históricos à eventos físicos, mas ainda que isso fosse verdade, não é essa mera constatação que tornaria a proposição acerca do descobrimento do Brasil verdadeira. Similarmente, ainda que toda a moral fosse reduzida à biologia, por exemplo, não é isso que tornaria uma crença moral uma verdade moral, mas sim as razões morais que podemos apresentar a favor dessa crença.

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    5. Parecem-me coisas distintas: a) haver uma só normatividade, que se aplica a toda a racionalidade prática, moral e amoral; b) as verdades morais serem irredutíveis a verdades amorais.
      Considerem o exemplo da estética. Se há normatividade estética, pelo menos alguns juízos estéticos são susceptíveis de serem V ou F. (Ajuizar esteticamente não é apenas um orgasmo mental). Mas isto é distinto de outro assunto, que é o de saber se uma afirmação com predicados estéticos pode ser substituída por uma afirmação com predicados não-estéticos. Por exemplo, Sibley defendia que as predicações estéticas são apenas negativamente regidas por condições, ou seja, a presença de certas propriedades não-estéticas pode ser suficiente para excluir a atribuição de uma propriedade estética, mas nenhum conjunto de propriedades não-estéticas seria suficiente para garantir a aplicação de um predicado estético.
      Se Sibley tinha razão, os predicados estéticos são irredutíveis a predicados não-estéticos, mas a ideia de haver uma normatividade especificamente estética, por contraste com outras normatividades, parece-me obscura.

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    6. A não ser talvez que a ideia de uma normatividade especial (ligada a um certo domínio, por contraste com outros domínios) esteja ligada a algo como a direcção de correspondência dos juízos. Por exemplo, para Kant o que fundamentava um juízo estético não era o facto de o objecto ajuizado exemplificar propriedades expressas pelos predicados que figuram no juízo (a beleza, nesta perspectiva, não seria uma propriedade de objectos, nem o predicado "belo" exprimiria o conceito de uma propriedade). Pelo que, neste modo de ver as coisas, a haver normatividade estética, a direcção de correspondência não seria mundo-mente.
      Analogamente, Hume também pensava que alguns juízos estéticos são melhores do que outros, mas fazia assentar a normatividade estética na ideia de um "apreciador ideal". Para Kant era a ideia do "livre jogo" das faculdades cognitivas, o "prazer desinteressado" e a "forma da finalidade". Diferentes perspectivas não realistas farão assentar a normatividade estética em aspectos diferentes.
      Para o realista, a direcção de correspondência é mundo-mente, tal como nos outros juízos que fazemos.

      Parece então que podemos enquadrar a ideia das "diversas normatividades" não em termos de *tipos* diferentes de normatividade (tal como há tipos diferentes de organismos), mas em termos de algo como a direcção de correspondência. A normatividade num domínio consiste apenas em os juízos nesse domínio serem melhores ou piores em função de algo. Diferentes teorias (e.g. realismo e anti-realismo) concebem diferentemente este "algo".

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