25 de setembro de 2013

Ensinar bem e mal filosofia

Especialmente para professores de filosofia, vale a pena ocasionalmente espiar o blogue de Adonai Sant` Anna, onde já publiquei este artigo sobre educação. A realidade apontada pelo autor do blogue no artigo que aqui destaco não é muito diferente do contexto científico de produção da filosofia em Portugal. Para bom entendedor escusado será dizer que em Portugal, como no Brasil como em qualquer parte do mundo, há casos isolados de excepção, mas que não traduzem o funcionamento geral dos cursos de filosofia. Creio que em Portugal será até um pouco pior. No artigo que aqui se destaca, Adonai reproduz uma parte de um mail recebido de um estudante de filosofia brasileiro que ingressou numa universidade americana.

"[s]into uma diferença imensa no método americano em relação ao qual fui ensinado no Brasil. Apesar de sempre ter gostado de filosofia analítica, o que era exigido de mim na graduação era simplesmente interpretação de textos; nunca me pediram para escrever se algo era certo ou errado. Nunca interessou se eu poderia construir um argumento a favor ou contra um problema filosófico. Sou Teaching Assistant de Intro to Philosophy e exijo de meus alunos (mesmo quem está no primeiro semestre) que argumentem a favor e contra o fundacionalismo de Descartes, por exemplo, e que mostrem alternativas."


Ler o artigo todo clicando AQUI

27 comentários:

  1. Pelo menos no que toca à situação portuguesa, nestes traços espreita bastante maniqueísmo, com caricatura à mistura.

    O que talvez não seja muito abonatório para uma abordagem que se supõe no âmbito da filosofia.

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  2. Afonso, dá pra traduzir?

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  3. Tradução graciosa para o Anónimo:

    - Maniqueísmo: "boa filosofia" (a "analítica" e respectiva metodologia)/"má filosofia" (a "continental"(?) e a sua suposta metodologia).

    Caricatura: exagerar os traços de uma realidade (o ensino da Filosofia nas instituições superiores em Portugal), distorcendo-a propositadamente e operando no mesmo passo uma generalização abusiva.

    Tradução agora, não tanto da letra, mas do espírito do post:
    O autor do mesmo já veio aqui declarar que não valia a pena estudar/analisar Heidegger porque não lhe encontrava ou reconhecia qualquer conteúdo filosófico.

    Em vez de se questionar, apresenta-se o preconceito cultural (não digo "preconceito filosófico" senão incorreria numa contradição dos termos), a indigência ou preguiça mental, senão as insuficiências próprias, como critério de demarcação entre a "boa e verdadeira filosofia" (a minha, a da minha preferência) e a "má filosofia" (ou "não-filosofia", o "lixo filosófico", de que eu não gosto).

    Tudo muito conforme, como se depreende, ao "espírito filosófico"...

    PS - O Habermas vem a Lisboa, no próximo dia 28 de Outubro, falar sobre a "Democracia na Europa", mas como o tema não interessa a ninguém, e não incide sobre a palpitante área da "redescoberta" Metafísica (principalmente se for "modal"), deixemo-lo passar.

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  4. Caro Afonso,
    Por acaso acabei por concluir que o título do post não é feliz, mas não pelas razões que parece indicar. E digo "parece", pois além de ofender não sei bem se sequer apresenta razões para discutir. E isto por uma razão: é que não sei qual o seu problema com eu não considerar Heidegger uma filósofo interessante para estudo se o o próprio Afonso acusa aquilo que considera a filosofia analítica de maniqueísta e chama à minha ideia de preconceito cultural. No entanto cabe-me defender-me como posso e na verdade não me parece de todo que considere a filosofia continental como lixo filosófico já que a esmagadora maioria dos filósofos que estudo são continentais e não analíticos, vá lá e muitos deles até foram alemães e franceses. Ou será que eu não tenho legitimidade em acusá-lo de preconceito anti analítico? Depois a discussão de filosofias é corrente na história da filosofia. E não só.
    Não percebi a do Habermas. O que não faltam são blogs a falar dessa visita e o Afonso preocupa-se que não tenhamos referido a sua vinda a Portugal? Da minha parte não fiz qualquer referência pois o Habermas não veio a POrtugal dar qualquer aula de filosofia. Em todo o caso são às dezenas os filósofos analíticos que vem a Portugal e não falamos deles aqui. Em relação a filosofia que se ensina maioritariamente nas nossas universidades, sim, de acordo, não acho que tenha ainda a qualidade que a filosofia merece. Mas não pelas razões que indica. Aliás, nem são tanto razões. São acusações. Mas enfim. Confesso que também precisei da tradução pois não entendi sequer uma frase do que escreveu no primeiro post. Talvez seja isso que eu vejo em Heidegger quando pego nos textos dele para ler.

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  5. Rolando,

    - A conclusão de que "o título do post não é feliz" se calhar não é "por acaso". Ele é mesmo redutor e maniqueísta. (Já percebe isto?...). O que revela uma atitude de fundo.

    - Não ofendo; apenas me confronto com as consequências que ressaltam das atitudes preconceituosas que se tomam perante algumas filosofias e filósofos, atitudes que são pouco conformes ao espírito aberto que deve ser apanágio do filosofar. Citei Heidegger por constituir um caso típico de um filósofo alvo (em sentido literal, nalguns posts e comentários aqui publicados) de atitudes preconceituosas, quando se trata de um filósofo que pode ou deve ser estudado como outro qualquer (não é nenhum guru para ser reverenciado, tal como não é nenhum pária para ser ostracizado) ; se se ultrapassar o preconceito e a preguiça mental, ele pode ser estudado de forma sistemática, e, como notava com alguma ironia o professor Fernando Gil, se "retiramos o entulho interpretativo" (referia-se à linguagem empolada que era apanágio da fenomenologia, visível mormente em O Ser e o Tempo), até se compreende com alguma "facilidade"; não tem nada de "exotérico" ou de "luminosamente obscuro", como lhe imputam alguns "apaniguados" e muitos dos seus detratores (que, talvez não por acaso, ignoram as obras mais "técnicas" do pensador, onde ele discute a argumenta com problemas e autores clássicos/"sistemáticos" da filosofia).

    - Nos estabelecimentos de ensino superior em que se ensina filosofia no nosso país, pelo que se sabe, e de um modo geral, não se discriminam ou desencorajam as pessoas que, para usar a formulação do Adonai, queiram produzir argumentação ou juízos críticos a propósito de qualquer obra filosófica. O que acontece com alguma frequência é (e.g., como sucede com o mencionado Heidegger) que não atende bem a isto: primeiro, deve-se analisar e compreender bem o que um filósofo defende ou argumenta para, depois, se poder, fundamentadamente, contra-argumentar criticamente - mas isso dá trabalho, é mais fácil desistir ou refugiarmo-nos em atitudes preconceituosas que "eliminam" o problema à partida(o que presumivelmente lhe sucedeu quando teve que pegar nos textos de Heidegger para ler).

    - A referência ao Habermas foi uma "provocação", para fazer ressaltar o efeito ideológico (para ser mais preciso e não precisar de tradução: no sentido gramsciano do termo) da corrente que domina a filosofia dita "analítica" quando esta se mostra pouco permeável ao debate das grandes questões políticas e sociais que atravessam a actualidade.
    Não sei se será por acaso, mas um dos autores "não continentais" sem dúvida mais reconhecidos e estimulantes no domínio da filosofia política, o já clássico Rawls, apresenta uma obra avessa aos maneirismos escolásticos e preciosismos técnicos que aparecem ligados à designada "filosofia analítica" (não se trata de uma apreciação preconceituosa, porquanto alguns autores desta corrente já o reconheceram (auto)criticamente, como de resto neste blogue já se fez eco) . E já agora, destaco também, nesse domínio, o extraordinário rigor, clareza e, ao mesmo tempo, despojamento da escrita e da argumentação que patenteiam a obra e o magistério de Sandel, onde a actualidade política e social é dilucidada com o rigor conceptual da filosofia e dos seus autores clássicos.




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  6. Caro Afonso,
    Para ser sincero estou um pouco fatigado destas discussões. Sou livre de pensar o que acho melhor e pior na filosofia e sou livre de publicamente expor as minhas ideias. Mesmo que sejam baseadas em crenças falsas. Quem não as tem? Mas a discussão não me atrapalha, bem pelo contrário. O que me atrapalha são as acusações feitas. Por que raio de razão alguém que não considera o modo de apresentar a filosofia X como uma boa filosofia tem de ser preconceituoso? Tudo aquilo que não é directamente visível para nós terá forçosamente de ser um preconceito? Creio que não. Não aprecio a filosofia de Heidegger porque não a acho relevante, mas aceito que alguém me faça ver que estou errado. Não será certamente acusando-me de preconceituoso que verei o meu erro, pois no meu entendimento não encontro preconceito algum. E o mesmo seria que eu acusar de preconceito considerar Heidegger uma boa filosofia. Simplesmente não leu nem lerá em algum texto meu esse tipo de acusação.
    Em relação ao título do post de facto considero-o infeliz, mas talvez por preguiça mental e filosófica, o Afonso não percebe por que o considerei infeliz. É verdade que também não expliquei porque considero que envolve outro tópico diferente do que aquele que nos move aos dois aqui. No entanto o Afonso não teve qualquer reserva em atribuir razões á minha afirmação que são pura e simplesmente presumidas por si e não coincide em um ponto sequer no que eu estava a pensar quando considerei o título infeliz. Mas eu explico para desfazer equívocos. O título pressupõe “ensinar bem e mal filosofia” e pelo conteúdo percebe-se que ensinar mal filosofia é uma coisa a evitar. Ora, isso era o que eu tinha em mente, isto é, que ensinar mal é ensinar erradamente. Acontece que podemos ensinar o heliocentrismo correctamente mas fazê-lo de um modo didáctico desadequado, isto é, ensinar mal um conteúdo que até está correcto. E se assim for é perfeitamente possível que se ensine correctamente, mas mal, já que não escolhemos a melhor forma de o fazer. É que ensinar pressupõe que as pessoas que nos ouvem, aprendam. E se elas não aprendem, podemos estar a ensinar mal, algo que até ensinamos com correcção. Portanto, as ilações que tirou são fruto do seu preconceito e precipitação e talvez, mania de ler nos outros, acusando-os, de aquilo que eles próprios nem sonham. Isso tem um nome: maniqueísmo.
    CONTINUA

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    1. CONTINUAÇÂO
      Depois eu nem sequer me entendo muito bem com a ideia de omitir a filosofia do filósofo X ou Y, já que a história da filosofia tem tantos filósofos e a nossa vida e disponibilidade mental e física é tão curta que não podemos citá-los a todos. Portanto, nem sequer percebo a acusação que faz de não mencionarmos a vinda a Portugal de Habermas. Deve ser preconceito seu, não sei. Se reparar o que mais se faz na vida é omitir pela razão simples que não podemos estudar e interessar-nos por tudo. Recordo uma frase de Almada Negreiros que uma vez li sobre quando ele uma vez entrou numa biblioteca e revelou a sua angústia de ter tanto para ler e o tempo da sua vida nem dava para um terço. Quem não entende isto e usa isto para acusar os outros só o pode fazer por dois motivos: ou é preconceituoso ou desconhece as regras mais elementares da vida intelectual. Com isto não quero dizer que se deva desconhecer por completo aquilo que hoje em dia se faz e pratica numa determinada área. E nesse sentido não me pode acusar de nada, pois eu tive a minha dose intensa de Heidegger que me foi sempre apresentado como o filósofo mais relevante do sec. xx. De resto, como sabe, acho a filosofia de Heidegger uma charlatanice sem qualquer interesse científico.
      Finalmente em relação ao que diz dos cursos de filosofia em Portugal e da experiência de estímulo ao pensamento crítico, lamento desapontá-lo, mas considero que é totalmente falso que tal seja generalizável, nem foi essa a experiência que tive no curso. Aliás, fiz ontologia a estudar Heidegger, sem compreender pitada de Heidegger, mesmo com o esforço de tentar ouvir os melhores alunos e ler os comentadores que na altura me foram recomentados, como Oto Poggeler e, muito sinceramente, não me estimulou, mesmo tendo feito a disciplina com nota razoável e tendo concluído o curso sem qualquer experiência de reprovação.
      O problema dos cursos de filosofia em Portugal não tem que ver com o ensino de Heoddeger. Tem que ver com a omissão de quase tudo o resto. Não sei se por preconceito maniqueísta e ideológico ou por pura ignorância. Não sei mesmo.

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    2. Rolando,
      De modo muito sintético:

      - A minha interpretação de "bem" e "mal" - relativo ao ensino da filosofia - do "infeliz" título do poste como sendo "maniqueísta", no que toca ao modo como se aborda e compreende a filosofia, é legítima, uma vez que decorre da circunstância relevante de você, citando um mail publicitado pelo Donai, subscrever implicitamente que o ensino da filosofia nos EUA é que corresponde a ensinar "bem" (ao contrário do que acontece no Brasil e em Portugal) - e todos sabemos que esse "ensinar bem" remete para a "metodologia analítica".

      - Desculpe lá, mas não entendo (e não serei o único...) que quem afirma que fez "ontologia a estudar Heidegger, sem compreender pitada de Heidegger" possa depois sustentar que "a filosofia de Heidegger (é) uma charlatanice sem qualquer interesse científico". Se isto não indica preconceito...
      (Nem sequer sou um "heideggeriano, apenas o citei por ele ser aqui muitas vezes "o bombo da festa" (passe a expressão) de postes e comentários que exibem mais preconceito e ignorância do que competência "científica").

      - Se estamos de acordo em que há uma "escolástica" heideggeriana (que tem, nomeadamente, raízes nalguma fenomenologia datada), também tenho que salientar que há uma "escolástica" analítica (ambas comungando do sentido pejorativo - de ensimesmamento e de tecnicismo inane - que adquiriu aquele termo). Apresentei exemplos de filósofos "não continentais" que se destacam, pelo contrário, pela simplicidade (o mais difícil em filosofia, que é o inverso do simplismo, muitas vezes mascarado de "sofisticação formal/intelectual") de um espírito filosófico aberto e por uma escrita rigorosa sem concessões a quaisquer maneirismos.

      - Sobre o ensino da filosofia em Portugal, não vou insistir na discussão, porque ela parte de experiências e perspectivas muito diferentes, e ameaça redundar no "achismo".


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    3. A sua interpretação do título do post é completamente legítima. É mesmo isso que eu quis referir e percebeu-o bem. O que é ilegítimo é a sua interpretação da razão pela qual inicialmente considerei infeliz, pois não considerei infeliz pelas razões que pensou que fiz essa consideração.
      No meu achismo pessoal, considero que tem todo o direito em “achar” que no nosso trabalho reduzimos a filosofia de Heidegger a uma caricatura. Tudo o que deve fazer com Heidegger é exactamente o que nós fazemos com a filosofia que mais consideramos: faz um blog, traduz livros de e sobre Heidegger, expõe a filosofia de Heidegger a quem não a compreende ou não a entende. Repare que da nossa parte não vamos para os blogues dos nossos colegas que gostam da filosofia de Heidegger fazer caricaturas do seu trabalho, ao contrário do que o Afonso nos faz aqui. Simplesmente “achamos” que há lugar para todos e também “achamos” que há pouco lugar para determinada filosofia que aqui divulgamos.
      Em todo o caso não sei que espanto lhe causa reduzir Heidegger a uma caricatura, pois o Afonso acaba por fazer o mesmo com a filosofia que diz ser analítica. E reduz a caricatura o nosso trabalho ou o que por vezes defendemos.
      Finalmente o que aqui escrevo faço-o em nome pessoal. Não tenho a certeza que os meus colegas de trabalho partilhem das minhas ideias e se é leitor do nosso trabalho que é feito desde há muitos anos, deve estar familiarizado com as nossas discordâncias internas.

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  7. Rolando,
    Você, como toda a gente, deve ter a liberdade de estudar - ou divulgar - as filosofias ou os filósofos que quiser. E tem todo o direito de só gastar o seu tempo, limitado como o de todos nós, com os que considera (mais) interessantes. Isso é pacífico.

    Coisa diferente é, por preconceito, por desconhecimento, ou até por simples falta de interesse, rotular uma determinada filosofia de "charlatanice sem interesse científico".
    Heidegger não lhe suscita interesse intelectual ou não lhe parece relevante do ponto de vista filosófico? Tem toda a legitimidade para pensar e exprimir isso. Agora, daí a afirmar que, por essa razão, a sua obra é "charlatanice" vai um passo que - revelando um espírito pouco aberto e limitado - não deveria ser dado na discussão filosófica, tanto mais que você reconhece que não "compreende pitada de Heidegger".

    Não caricaturo a filosofia dita "analítica", e não chamo "charlatães" ao filósofos que a praticam ou seguem.
    Digo e reafirmo (como há filósofos "analíticos" que o reconhecem, como de resto foi já aqui referido num poste pelo menos) é que também há uma "escolástica analítica", fenómeno que atinge essa ou a qualquer outra filosofia quando ela se torna auto-complacente, vítima das rotinas do academismo e dos seus próprios vícios formalistas (obnubilados por uma "sofisticação intelectual" ilusória), e perde a capacidade de se colocar em causa e questionar o seu sentido.
    Para explicitar melhor, lembro-me, quando a obra do Sandel "Justiça - Fazemos o que devemos?" foi traduzida para português, vir um de vocês, aqui do blogue (não me lembro qual), dizer com admiração: "não sabia que se podia escrever filosofia daquela maneira...", exactamente por Sandel escapar ao cânone analítico, escrevendo de uma maneira em que a precisão argumentativa e o rigor filosófico têm uma clareza que não faz concessões a quaisquer maneirismos técnicos ou pseudo "sofisticações intelectuais".

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    1. Caro Afonso, se conhecer os críticos da filosofia de Heidegger, certamente conhecerá alguns que o consideram um charlatão e não é por ignorância, nem desconhecimento, nem falta de rigor. Assim de repente recordo-me de ter lido isso no pequeno livro de Michael Inwood de introdução ao pensamento de Heidegger. Se conhece os resultados do embuste preparado por Sokal e Bricmont sabe de certeza que o que não falta no mundo académico e em particular nas chamadas ciências sociais, são charlatães. E já agora fui pegar no livro que começa assim: "Ele é (com a possível excepção de Wittgenstein) o maior filósofo do seculo xx. Ele é (com a possível excepção de Hegel), o grande charalatão que reclama o título de filósofo, um mestre do discurso eloquente disfarçado de profundidade"(tradução minha). Como vê, Michael Winwood, um conhecedor de Heidegger com livros publicados com a chancela de oxford por exemplo, considera as duas facetas do alemão: o maior filósofo e maior charlatão. Ao contrário do que pensa, não é por preconceito. É mesmo por falta de rigor científico que considero Heidegger um mau filósofo ou nem sequer um filósofo. Talvez o preconceito resida em presumir que não se deve colocar em causa uma filosofia como a de Heidegger.

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    2. O Afonso está a cometer a falácia do falso dilema: ou se conhece a filosofia de Heidegger e se fica rendido à mesma, ou se tal não acontece é porque se desconhece a filosofia de Heidegger. Curiosamente isso foi o que ouvi durante toda a minha vida de estudante de Heidegger. Sempre que alguém tinha uma dúvida, a resposta passava sempre por um: "não compreendes bem o que Heidegger quer dizer", mas sem nunca explicarem o que é que não se compreende bem. A obra de Heidegger é um amontoado de pensamentos vagos e dispersos, com relações infundadas, sem qualquer interesse metodológico. E no mesmo saco pode meter Walter Benjamin, Zizeck, etc. De todos eles tenho obras que li, ou tentei ler. Os trabalhos de Deleuze são igualmente ininteligiveis. Mais interessante parece-me Derrida, mesmo que me pareça que os argumentos dele são hoje pouco ou nada relevantes. E dentro de uma análise mais social que filosófica, creio que merece o nosso tempo a obra de Foucault. No curso também levei com todo o tipo de autores católicos, como Levinas, Ricoeur, entre muitos outros. Alguns deles nunca mais li. E li muitos da teoria da suspeita, percursores de Zizeck, desde Aganben, Sloterdick, Beck entre outros... Não discuto o valor destes autores para outras andanças. Filosoficamente são zero.

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    3. Rolando,
      Você tresleu o que eu disse. Nunca afirmei que quem conhece a filosofia heideggeriana fica rendido a ela (você parece ter ficado "traumatizado" por um contacto persistente com "beatos heideggerianos"). Longe disso, a começar por mim, que não sou propriamente um "heideggeriano"; e tenho tanta mais legitimidade para dizê-lo quanto procurei - como um desfio que me impus, sem subserviências ou reservas mentais - estudá-la, analisá-la e compreendê-la, e no fim encontro-me com alguma distância crítica em relação a ela.
      A mim faz-me é confusão que quem reconhece que não "compreende pitada" dela se sinta abalizado a afirmar que a considera uma "charlatanice".

      Do que conheço de Winwood, ele leva Heidegger como um "filósofo a sério", longe de considerar que a " obra de Heidegger é um amontoado de pensamentos vagos e dispersos, com relações infundadas, sem qualquer interesse metodológico" - e exactamente porque a estudou e conhece. Teria que investigar em que sentido preciso ele considera Heidegger também um "charlatão" e o significado de tal ambivalência interpretativa. Em qualquer caso, não nos devemos impressionar com sound bites.

      Uma pequena nota para Ricoeur, que aparece avulsamente nesse role de "filósofos desprezáveis". Trata-se de um filósofo de um enorme rigor e exigência intelectual, e que, além do mais, também lecionou em universidades americanas, travando na sua obra um persistente diálogo com diversos autores ditos "analíticos".
      Valerá a pena cotejar a sua abordagem à questão da "metáfora" e aquela a que se propõe Searle; pode ser edificante...

      Afirmar de forma tão perentória que alguns filósofos, do pouco que deles se conhece, "filosoficamente são zero" é uma temeridade que se deve à irreflexão ou a uma qualquer pulsão dogmática.

      Por último, faço apenas notar que, se é um facto que cada um só deve ler e investigar o que gosta ou lhe interessa, também se deve compreender que as nossas ideias, quando se tornam limitativas e redutoras sobre o que seja "filosofia" ou "boa filosofia", empobrecem-nos mais do que aos autores excluídos...

      (Nem vale a pena invocar o "caso Sokal", porque isso não passou de um irónico "tiro pela culatra").







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    4. Creio que temos tudo dito. Só um alerta final: atenção que considerar o estudo do caso Sokal um tiro pela culatra, pode ser apenas o reflexo de um sound bite. E "é uma temeridade que se deve à irreflexão ou a uma qualquer pulsão dogmática." Tudo o resto do que me tem dito cai em circularidade.

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  8. "He was (with the possible exception of Wittgenstein) the greatest philosopher of the twentieth century. He was (with the possible exception of Hegel) the greatest charlatan ever to claim the title of ‘philosopher’, a master of hollow verbiage masquerading as profundity. He was an irredeemable German redneck, and, for a time, a gullible and self-important Nazi. He was a pungent, if inevitably covert, critic of Nazism, a discerning analyst of the ills of our age and our best hope of a cure for them. Each of these claims has been advanced, with greater or lesser plausibility, on Heidegger’s behalf. Who was the man who provokes these contrasting reactions?"
    O nome é Michael Inwood, não Winwood (acertou à primeira) e, como será fácil de perceber para alguém minimamente versado na interpretação de texto, refere-se ao que dizem de Heidegger e não à sua própria opinião a respeito do autor. Se tem outra referência onde Inwood chama charlatão a Heidegger, agradecia que a disponibilizasse. O mesmo para qualquer artigo ou livro que se refira a Lévinas como pensador católico. É por estas e por outras que os "maus" professores de filosofia se preocupam mais em pôr os alunos a interpretar textos e menos a apresentar argumentos. Como dizia o sr. Kant, há que saber soletrar antes de ler.

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    1. Só mais uma observação: se queremos criticar alguém, o mínimo que nos é pedido é que saibamos escrever o seu nome. Chamar "zero filosófico" à obra de autores dos quais não sabe nem o nome é um atestado passado por si mesmo à qualidade da sua opinião.

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    2. Isto é que a pessoa sem nome refere:
      "O nome é Michael Inwood, não Winwood (acertou à primeira) e, como será fácil de perceber para alguém minimamente versado na interpretação de texto, refere-se ao que dizem de Heidegger e não à sua própria opinião a respeito do autor. "
      e eu escrevi isto:
      ""Ele é (com a possível excepção de Wittgenstein) o maior filósofo do seculo xx. Ele é (com a possível excepção de Hegel), o grande charalatão que reclama o título de filósofo, um mestre do discurso eloquente disfarçado de profundidade"(tradução minha). Como vê, Michael Winwood, um conhecedor de Heidegger com livros publicados com a chancela de oxford por exemplo, considera as duas facetas do alemão: o maior filósofo e maior charlatão."

      Ou seja, o que eu digo (já que não conseguiu ler à primeira) é que Inwood considera as duas facetas do alemão no seu livro. Tal acontece porque não omite qualquer uma delas, o Heidegger como o mais influente filósofo e o Heidegger como um charlatão. Ou seja, eu explico-lhe como se lhe estivesse a explicar Heiddeger: o que o autor refere é que Heidegger é visto na filosofia destes dois modos, não que ele (o Inwood) o considera dos dois modos ou de um dos dois modos. Se lê a arrojada filosofia de Heiddeger e a compreende não me diga agora que não compreende o que referi, por muito pouco clara até que pudesse ter sido a minha escrita? Um pedido de desculpas e o uso de um nome seria no mínimo respeitável.

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  9. Gostei muito do blog. Vocês conhecem Aline, da Cidade das Pirâmides, que em seu programa De Olho No Mundo(www.deolhonomundo.com) analisa a essência humana, o mundo, astrologia, fenômenos ocultos..., em sua plenitude. Tenho certeza que vocês gostarão. Abraços.

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  10. Também me parece que "está tudo dito".
    E quem teve a paciência de nos acompanhar já deverá ter percebido de que lado existe um espírito mais aberto e de que lado os preconceitos predominam.

    Essa invocada "circularidade" deve ser a do grau 0 da filosofia, rótulo que colou a tanta gente.



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  11. Para o Rolando, que não "compreende pitada de Heidegger", e cuja obra, por isso, ele supõe ser "um amontoado de pensamentos vagos e dispersos", aqui vai uma brevíssima introdução ao projecto ontológico do Heidegger - articulado em "ser" e "tempo" -, colocada em termos inteligíveis e simples.

    1 (Introdução mesmo introdutória). Cada um de nós, espontaneamente, se se lhe perguntar o que é um ser, dirá que são as pessoas, os animais e as plantas, as coisas; cada um tem o seu ‘ser. Foi a ideia que Platão e outros depois nos transmitiram, e foi contra ela que Heidegger se levantou. Não há nada de nada, coisa nenhuma, que seja, subsista, só por si: não apenas porque tudo resulta de outras coisas anteriores (seres vivos que vêm de outros seres vivos, coisas feitas a partir de matérias primas, etc.), mas também porque há já um Universo, e, mais perto, a Terra, em que tudo é, subsiste no seu tempo de duração e aonde depois se vai (morre, estraga-se, etc.). O ser é o que garante, ‘sustenta’ todas as existências (e isso não se ‘vê’, não se ‘dá por tal"), mas sem ele próprio ser um ser’, um ‘ente, uma ‘coisa’. E tudo se dá no tempo: emerge, dura, desaparece. Ora, também nunca a filosofia tradicional pensou o tempo senão como algo de acessório. A essência de algo é o que desse algo permanece ‘idêntico, fixo, invariável, igual aos outros algos da mesma essência: o que sobra da essência é o que é acidental; como o próprio termo indica, trata-se de algo que ‘acontece e podia não acontecer, algo que é. por definição, temporal; o acidental, oposto à essência permanente, é o acessório, casual, que se dá no tempo.

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  12. 2. (Desenvolvimento, mas também inteligivelmente contido). Falar de “ser e tempo” significa partir do ser para o tempo, pensando o tempo a partir do ser, ou seja, procurando, através de uma analítica preparatória do ente (ia acrescentar, cuja essência consiste numa abertura ao próprio ser - ser-aí, o Da-sein-, mas isto já é um passo talvez mais complicado), e através do reconhecimento da temporalidade como sua constituição fundamental, como o ser deste mesmo ente, o desvelamento de uma temporalidade originária como sentido do próprio ser. (Isto será mesmo ininteligível?).
    Pensando o ser do ente que coloca a questão do ser como temporalidade, Heidegger permite a compreensão deste ente como ontologicamente distinto. Tal distinção ontológica
    pode, para simplificar, resumir-se da seguinte forma: marcado pela sua temporalidade,
    o ser-aí é, na ex-sistência que constitui o seu ser, o seu passado e o seu futuro. Por um lado, o seu passado não é um “já não”, algo que passou e já não está presente, mas, pelo contrário, um ter-sido que continua ainda presente. Por outro lado, o seu futuro não é um “ainda não”, algo que ainda não está presente, mas as possibilidades que, como um ad-vir, que são já presentes e actuantes. O aí-ser é constituído na temporalidade própria da sua essência, pela herança do seu sido e pelas possibilidades que nele estão como advenientes. (Já ficou mais claro?).
    Deste modo, a descoberta da temporalidade como ser da existência, como ser do ser-aí tem duas consequências fundamentais. Em primeiro lugar, pensado à luz da temporalidade do ser-aí, o tempo não é já uma sucessão de momentos presentes, o ritmo da progressão de um anterior para um posterior. O tempo compreendido vulgar e correntemente como o ritmo monótono de uma passagem ininterrupta de um “ainda não” para um “já não”, como o espaço onde todos os entes se encontram na sua intratemporalidade, (ups!, esta escapou-me!) é agora diferenciado de uma temporalidade originária, de uma temporalidade que constitui um ente específico (o ente que se interroga pelo ser, o ente que pensa) como o único que no seu ser
    é temporal.

    3. (Conclusão - hélàs!- do intento). As secções publicadas de Ser e Tempo podem ser caracterizadas como a execução de um projecto filosófico preciso: a tentativa de libertar o ser-aí das malhas da substancialidade e da subjectividade. A meta principal de Ser e Tempo consiste justamente em superar o carácter de sujeito e de substância do ente que coloca a questão do ser, através da referência da temporalidade própria do seu ser.

    Ora vê como isto afinal não é assim tão difícil e tão desprovido de sentido, Rolando?

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    1. Rui, agora fez-me rir. Chego a acreditar que os amantes de Heidegger devem levar a sério o que escreveu.

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    2. o mais engraçado é que até li a primeira vez o texto a pensar que era a sério.

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  13. Ai como saíram alguns parágrafos! Sorry, se calhar devia ter pré-visualizado.
    Mas como o que conta é a (boa) intenção...

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  14. Duas ou três coisas:
    1º é verdade que é Inwood e não Winwood, lapso meu (que até serviu de ataque filosófico, enfim)
    2º Talvez não ficasse claro, ou a interpretação fosse preconceituosa, mas quando citei o texto referi que Inwood refere que Heidegger é considerado o mais influente filósofo do sec xx, ora é considerado um charlatão. Não sei onde leram que eu coloquei isso na boca do próprio Inwood.
    3º O José Afonso não abona muito em favor de Heidegger ou seja em quem for, já que mais não fez do que atacar-me, mesmo não me conhecendo pessoalmente. Fez demasiadas leituras do que penso, do que digo, do que sou. E isso seria, para pessoas civilizadas, dispensável.

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  15. O meu texto pretendeu ser, digamos, irónico em duas direcções. Por um lado, mostrar àqueles que consideram Heidegger é um filósofo "ininteligível" que ele, desde que consigamos ultrapassar os primeiros embates - que são complicados, lá isso são -, que consigamos "descodificar" a sua linguagem, e percebamos as articulações das ideias e categorias e, por fim, a sua "armadura" global, não é nenhuma "Esfinge". Pode compreender-se, então, que o que Heidegger postula não é nada assim de tão "extraordinário" ou "revolucionário" (o que não significa banal ou de todo irrelevante, bem entendido).

    Com efeito, e isto já se prende com a outra direcção a que apontava a minha ironia, a da pretensão heideggeriana (ou talvez mais de alguns dos seus "discípulos"...) de ter operado uma "destruição" ou mesmo "ultrapassagem" da metafísica, da onto-teologia, da determinação do ser como presença. Ora, todo esse discurso "destruidor" e todos os seus análogos estão reféns de uma espécie de círculo. Este círculo é único e descreve a forma da relação entre a história da metafísica e a da destruição da história da metafísica: não tem nenhum sentido não passar pelos conceitos da metafísica para abalar a metafísica; não dispomos de nenhuma linguagem – de nenhuma sintaxe nem de nenhum léxico — que seja estrangeira em relação a esta história; não podemos enunciar nenhuma proposição destruidora que não tenha tido já que transparecer na forma, na lógica e nas postulações implícitas disso mesmo que se quereria contestar ou "abandonar".
    É por isso que os "destruidores" acabam de certo modo por destruir-se reciprocamente, como por exemplo quando Heidegger considera Nietzsche (acaso com bastante lucidez e precisão) como o "último metafísico", o último ‘platónico’, acaba por produzir também uma involuntária "autocrítica" (de que não estou certo de que ele não tenha tido consciência - e daí talvez então aquilo que se denomina como a sua "segunda fase").

    Diria, para terminar, que analisar sem complacências o "falhanço" heideggeriano, o sentido de tal "falhanço", é algo que talvez deva merecer a atenção dos que gostam ou pretendem fazer filosofia. Seja de que lado do Atlântico for...


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    1. Concordo Rui. E até concordo que o que costumo dizer em relação a Heidegger seja um exagero. Mas só o considero porque acabo logo a levar com um mar de gente a afirmar taxativamente que eu sou um Zé nabo. Mas isto não passa de um ad populum, pois embora seja verdade que já não perco tempo com Heidegger, também é verdade que ocasionalmente me lembro de fazer umas investidas no autor para ver se lá vejo aquilo que me dizem lá existir. Até hoje a minha relação com Heiddeger passa por dois momentos. Momento 1, o da licenciatura. Momento 2, o da pós licenciatura. O momento 1 caracteriza-se por me achar estúpido por não entender o Heidegger (por mais que me falassem dele e da sua filosofia). O momento 2, já mais crescidinho, passa por passar a estar convencido que eu não sou estúpido, mas que nada há a entender na suposta filosofia de Heidegger, a não ser umas exegeses muito pessoais e pouco filosóficas da própria história da filosofia, mesmo com muitas omissões. Se entretanto for ganhando boas razões para mudar a posição 2, tudo bem. No problem!!! Mas para já estou mesmo no ponto 2.

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