30 de janeiro de 2013

28 de janeiro de 2013

Wittgenstein’s master

Wittgenstein's master
http://www.prospectmagazine.co.uk/magazine/frank-ramsey-keynes-wittgenstein-grayling/

Frank Ramsey was 26 years old when he died after an operation at Guy's Hospital in January 1930. In his short life, he had made lasting contributions to mathematics, economics and philosophy, and to the thinking of a number of his contemporaries, including Ludwig Wittgenstein.

(via Instapaper)

Há mesmo uma moral kantiana?


Quem não ouviu já falar da moral kantiana? Bom, andei empenhadamente à procura dela e acho que não a consegui encontrar. Estou mesmo tentado a concluir que não existe tal coisa. Mas ainda estou a tactear, pelo que posso estar redondamente enganado. Se o estiver, agradeço sinceramente que me esclareçam.

Antes de avançar, tenho de deixar claro que não estou a falar da filosofia moral kantiana. Esta é fácil de encontrar. Basta consultar obras como Fundamentação da Metafísica dos Costumes ou a Crítica da Razão Prática. É principalmente nestes dois livros que Kant expõe a sua filosofia moral.

Ora, filosofia moral é o mesmo que ética. Penso que ninguém contesta isto. Mas há quem diga que a ética (ou filosofia moral) e a moral são coisas distintas. Diz-se frequentemente que a ética ou filosofia moral é a reflexão filosófica sobre a própria moral. Neste sentido, a ética trata dos princípios gerais, fundamentos ou justificação da moral, isto é, da fundamentação e justificação das regras e normas concretas de conduta e do comportamento social (a que começou por se chamar «costumes»). Estas regras, normas ou códigos de conduta (a moral), indicam o que é correcto ou incorrecto fazer numa dada circunstância. A ética ou filosofia moral seria, então, a reflexão filosófica sobre tais normas e códigos. Daí que a ética tenha, alegadamente, um carácter mais geral, abstracto e fundamental do que a moral.

Não sei se esta distinção é adequada. Há quem pense que é e quem pense que não é. Pessoalmente, começo a inclinar-me cada vez mais para o lado de quem faz a distinção mais ou menos nos termos atrás expostos. 

Faria todo o sentido falar de uma moral kantiana, caso defendesse não haver qualquer distinção entre ética e moral. Mas fará sentido falar de uma moral kantiana caso se defenda que ética e moral são coisas distintas, sendo a moral apenas o objecto da ética (tal como a política é o objecto da filosofia política, a arte é o objecto da filosofia da arte, a ciência é o objecto da filosofia da ciência ou a religião é o objecto da filosofia da religião)? 

Talvez sim e talvez não. Sim, num sentido não substancial. Não, num sentido literal. Vejamos. 

A expressão «moral kantiana» pode ter dois significados diferentes. Podemos usá-la num sentido análogo ao de expressões como «disciplina espartana» ou «pobreza franciscana». Em nenhum destes casos estamos a falar directamente dos espartanos nem de S. Francisco, mas de algo que se inspira numa concepção de disciplina à maneira de Esparta ou de uma pobreza em linha com a atitude de S. Francisco. Assim, também podemos dizer que uma moral kantiana é um conjunto de preceitos e normas inspirados na ética kantiana, ou que encontram nela o seu fundamento. Neste caso, não custa aceitar que haja morais kantianas. Digo bem, «morais» no plural. 

Mas, continuando a supor que ética e moral são coisas distintas, não parece haver, num sentido literal e substancial, algo como a moral kantiana, pois em lado algum Kant apresenta tal coisa, limitando-se a reflectir sobre os chamados «costumes» e a procurar os seus fundamentos. Não é, pois, por acaso que Kant inclui no título das obras atrás referidas as palavras «fundamentação» e «crítica». 

Pergunto, então, aos que acham que ética e moral são coisas distintas: em que obras de Kant posso encontrar uma exposição da dita moral kantiana?   

Mentir e ser sincero


Aqui está um caso divertido, encontrado no blog de Alexander Pruss (um excelente filósofo da religião): 
"Sam é um político que está a falar para uma grande audiência multilingue, e está a planear utilizar slogans que funcionem com cada grupo linguístico. Por coincidência, há algo, s, que ele pode dizer que é tal que em Elbônio significa que ele ama caçar, enquanto em Baratanio s significa que ele é um ávido ciclista. Sam de facto adora caçar apesar de odiar fazer ciclismo, mas sabe que dizer que adora caçar vai tender a ser apelativo para falantes elbonianos, que ele tende a respeitar e não deseja enganar, e que dizer que ele é um ciclista ávido vai tender a ser apelativo a falantes de Baratanio. Por isso, Sam diz s.
Ao fazê-lo, Sam é sincero na sua asserção a falantes de Elbônio que ele ama caçar e mente a falantes de Baratanio que é um ciclista ávido. Mas encontra-se Jane na audiência que é uma falante completamente bilingue de Elbônio e Baratanio. Será que Sam mentiu a Jane?"

26 de janeiro de 2013

O legado do Aufbau


O amigo Paulo Andrade acabou de me dar esta bela notícia: o novo (lançado em outubro do ano passado pela Oxford University Press) e empolgante livro de Davild Chalmers, Constructing the World. Como o nome sugere, o livro é influenciado pelo  Der Logische Aufbau Der Welt (Logical Construction of the World) de Carnap, um dos projetos mais ambiciosos do fundacionismo no século XX -- tentava reduzir a base de todo nosso conhecimento a impressões sensíveis assumindo uma tese controversa, conhecida como fenomenismo, de que o mundo nada mais é do que a construção lógica de nossas impressões sensíveis. Embora a motivação de Carnap fosse primariamente epistemológica, a de Chalmers parece ser primariamente metafísica (e não fenomenista). Eis a descrição das costas do livro:

David Chalmers desenvolve uma imagem da realidade na qual todas as verdades podem ser derivadas de uma classe limitada de verdades. Essa imagem é inspirada pela construção do mundo de Rudolf Carnap em Der Logische Aufbau Der Welt. O Aufbau de Carnap é geralmente visto como um notável malogro, mas Chalmers argumenta que a versão do projeto pode ser bem sucedida. Com os elementos básicos corretos e com a relação de derivação correta, podemos de fato construir o mundo. O ponto central do projeto de Chalmers é a escrutabilidade: a tese de que o raciocínio ideal de uma classe limitada de verdades básicas leva a todas as verdades sobre o mundo. Chalmers argumenta primeiro a favor da tese da escrutabilidade e, depois, considera o quão pequena essa base pode ser. O resultado é um enquadramento na "epistemologia metafísica": a epistemologia a serviço da imagem geral do mundo. O enquadramento da escrutabilidade tem ramificações por toda a filosofia. Usando-o, Chalmers defende uma abordagem amplamente fregiana ao significado, argumenta a favor da abordagem internista aos conteúdos do pensamento, e rebate os argumentos de W. V. Quine contra o analítico e o a priori. Ele também usa a escrutabilidade para analisar a unidade da ciência, para defender um tipo de metafísica conceitual, e prepara uma resposta estruturalista ao cético. Baseado nas conferências John Lock de Chalmers em 2010, Constructing the World abre debate a questões filosóficas centrais sobre o conhecimento, a linguagem, a mente, e a realidade. 

Eis a introdução. E aqui alguns capítulos (talvez um pouco desatualizados). Vale muito a pena conferir! 

25 de janeiro de 2013

Já somos mil no Facebook




Num meio como o Facebook, que parece ser resistente a conteúdos de maior complexidade, atingir estes números, apenas através da divulgação da Filosofia, é certamente um feito meritório e que se justifica na qualidade dos diversos conteúdos da CRÍTICA. 
Mas esse mérito também deve ser partilhado com todos aqueles que, ao interagirem com a página no Facebook, ajudam a divulgar a Filosofia.
Obrigado a todos!

22 de janeiro de 2013

Condições necessárias e suficientes



Acaba de sair a minha tradução, com revisão de Sérgio Miranda, do verbete Necessary and Sufficient Conditions da SEP.
Mais traduções de outros verbetes da SEP encontram-se disponíveis aqui

21 de janeiro de 2013

O golpe de estado ortográfico

Diz-se que o Acordo Ortográfico tem como objectivo unificar a ortografia dos diferentes países de língua portuguesa. Mas o que se verifica é que ele afasta mais do que unifica. Sendo assim, qual teria sido a verdadeira razão subjacente ao acordo? Deixo esta pergunta para os leitores pensarem. E deixo também aqui um artigo da autoria de Maria Regina Rocha (professora e consultora do Ciberdúvidas), publicado no jornal Público do passado dia 19 de Janeiro, com dados objectivos que confirmam que o acordo serve mais para desunir do que para unir. O artigo intitula-se A falsa unidade ortográfica.
     O acordo Ortográfico está em causa. Instituições e publicações há que o aplicam; outras, que o rejeitam. O grande público contesta-o, e a esmagadora maioria dos cidadãos não consegue compreender o que se está a tentar fazer à Língua Portuguesa.
   Efectivamente, embora genericamente as pessoas estejam contra esse acordo, infelizmente a forma como se extremaram posições levou a que, num determinado momento, quem tinha o poder político lhe conferisse força de lei, sem uma atenta e lúcida reflexão sobre o mesmo e as suas gravíssimas implicações, sobretudo de natureza linguística e cultural, com repercussão no ensino e no domínio da língua.
     Como ainda estamos em fase de transição e as leis são os homens que as fazem, esperemos que as razões serenas e lúcidas se imponham e façam com que aqueles que representam o povo legislem de acordo com o supremo interesse do país e da língua portuguesa, seja ela falada onde for.
      Lembro apenas, como precedente, que o Acordo Ortográfico de 1945 foi nessa data assinado por Portugal e pelo Brasil, que o Brasil o tentou aplicar durante dez anos e que, em 1955, rendido à especificidade do registo ortográfico da variante do Português do Brasil, revogou esse acordo. Assim, se Portugal tomar a iniciativa de reflectir e, com razões ponderosas, reformular o texto do Acordo actual, não fará nada de inédito nem beliscará as relações entre os países envolvidos. Aliás, será de referir, ainda, que, recentemente, o próprio Governo brasileiro anunciou que vai adiar a obrigatoriedade da aplicação do acordo para 2016...
      Focando, então, o Acordo actual, em primeiro lugar, deverei dizer que uma pessoa com formação linguística naturalmente que não estaria, à partida, contra um acordo ortográfico. E deverei dizer, ainda, que houve, neste acordo, tentativas (embora não totalmente eficazes) de resolver algumas questões ortográficas relativamente à grafia de novas palavras, concretamente no que diz respeito à utilização do hífen.
   No entanto, este acordo enferma de um grande pecado original: não alcança minimamente o apregoado objectivo da unidade na ortografia.
       Para que serve um "acordo ortográfico"? Para unificar a ortografia de povos que falam a mesma língua. Ora, com este acordo, a ortografia da Língua Portuguesa não se unificou. Tentei obter resposta a uma pergunta simples: quantas palavras se escreviam de forma diferente no Brasil em comparação com a forma como as mesmas palavras se escreviam em Portugal e nos restantes Países de Língua Oficial Portuguesa antes do Acordo e depois do Acordo? Não consegui obter uma resposta objectiva da parte dos defensores do Acordo Ortográfico. Pergunto: parte-se para a tentativa de aplicação de um acordo ortográfico sem se saber claramente quantas palavras é que mudam na ortografia?
    Assim, procurei eu a resposta, consultando o "Vocabulário de Mudança" disponibilizado no Portal da Língua Portuguesa (http://www.portaldalinguaportuguesa.org/).
     E, considerando a informação aí veiculada, a resposta é a seguinte (contagem feita manualmente): antes do Acordo -- e exceptuando as palavras com alteração do hífen, as palavras graves acentuadas no Brasil e não em Portugal (como idéia - ideia) e as palavras com trema (pelo seu número residual e por tais situações afectarem sobretudo a ortografia brasileira) --, havia 2691 palavras que se escreviam  de forma diferente e que se mantêm diferentes (por exemplo facto - fato), havia 569 palavras diferentes que se tornam iguais (por exemplo, abstracto e abstrato resultam em abstrato), e havia 1235 palavras iguais que se tornam diferentes. 
     Está a ler bem: com o Acordo Ortográfico, aumenta o número de palavras que se escrevem de forma diferente!
       Isto é, havia 1235 palavras que se escreviam da mesma forma em Portugal e no Brasil que, com o Acordo, mudam, a saber: 190 ficam com dupla grafia em ambos os países (por exemplo circunspecto e circunspeto); 57 ficam com dupla grafia mas só em Portugal (por exemplo, conceptual e concetual, que no Brasil se escreve conceptual, mantendo a consoante "p"); 788 mudam para uma das variantes que existem no Brasil, por vezes a menos utilizada ou a considerada mais afastada da norma padrão (por exemplo, perspetiva: em Portugal, só se admite esta forma -- sem "c" --, mas no Brasil admitem-se duas, perpectiva e perspetiva, sendo esta última preferencial); finalmente, 200 mudam para uma até ao momento inexistente e que passa a existir apenas em Portugal (por exemplo, receção, que no Brasil só admite a forma recepção, que passa a não ser possível em Portugal).
      Esta última situação é a mais aberrante: são 200 palavras inventadas, que não existiam e passam a ser exclusivas da norma ortográfica em Portugal. Alguns exemplos: em Portugal, com o Acordo, passa obrigatoriamente a escrever-se aceção, anticoncetivo, conceção, confeção, contraceção, deceção, deteção, impercetível.
   O problema diz, pois, respeito sobretudo à grafia das palavras que contêm as vulgarmente chamadas "consoantes mudas". Segundo os referidos dados do Portal da Língua Portuguesa, com o Acordo Ortográfico, no que diz respeito às palavras que mudam, no Brasil continuam a escrever-se 1235 palavras com essa consoante etimológica (978 de dupla grafia e 257 que se escrevem só com a manutenção da consoante), enquanto em Portugal e nos restantes Países de Língua Oficial Portuguesa são apenas 247!
     Em Portugal, altera-se a ortografia fazendo desaparecer as respectivas consoantes e, afinal, no Brasil, essa ortografia de cariz etimológico mantém-se!
    Não vou aqui falar da questão da dupla ortografia e de fragilidades e incorrecções presentes nos textos referentes ao Acordo Ortográfico, que têm um efeito negativo no ensino, na aprendizagem e no domínio da Língua Portuguesa (tal poderá ser objecto de outro artigo). Aqui apenas estou a referir como falsa a propalada unidade ortográfica!
     Chegou a hora decisiva de nos pronunciarmos eficazmente pela suspensão da aplicação deste Acordo que tanto prejuízo causa à Língua Portuguesa. Tal é possível subscrevendo a Iniciativa Legislativa de Cidadãos (em http://ilcao.cedilha.net/), que visa, democraticamente, levar ao Parlamento, de novo, esta discussão.
     E faço um apelo aos decisores políticos para que analisem cuidadosamente a situação: ninguém se pode escudar na ignorância dos assuntos sobre os quais toma decisões, pois a História não lhes perdoará.



12 de janeiro de 2013

A Ética do Voto


Há pelo menos três teses sobre o voto que são bastante aceitas:

  1.  Há uma obrigação moral em votar.
  2. O voto deve ser estendido a todos a despeito da capacidade intelectual, virtudes morais ou crenças.
  3. É moralmente incorreto comprar e vender votos.

Essas três teses muitas vezes são tomadas como garantidas e relacionadas com a democracia. Diz-se por vezes que elas são condições necessárias para o bom funcionamento de um estado democrático e que o voto tem valor independentemente de suas consequências, isto é, votar em um candidato que traga prejuízo para o Estado é tão valioso quanto votar em um candidato que não traga prejuízo para o Estado.

Felizmente, há quem coloque em causa essas teses de modo rigoroso e interessante. É o que faz o filósofo Jason Brennan no seu "The Ethics of Voting". Brennan argumenta que não só não há o dever de votar, como também há o dever de não votar quando se é um eleitor ruim. Os eleitores têm o dever de não causar prejuízo ao bem comum e, por essa razão, não devem votar, por exemplo, quando estão desinformados sobre as propostas dos candidatos, ou sobre o próprio mérito dos candidatos. Nesses casos, argumenta Brennan, não seria errado o eleitor vender o seu voto para um melhor eleitor, isto é, um eleitor mais bem informado e preocupado com o bem comum, pois no fim das contas a venda do voto contribuiria para o bem comum.
 As ideias de Brennan são, por vezes, bastante provocativas e dão muito a pensar. Ainda que não se concorde com as ideias, o livro vale a pena para colocar em causa alguns aspectos do voto e da democracia que muitas vezes se toma por garantido sem qualquer reflexão. Para aqueles que quiserem saber um pouco mais sobre as ideias discutidas no livro há uma boa resenha (mas que se atrapalha um pouco ao tentar responder aos argumentos de Brennan).

Agora, o que pensam os leitores da Crítica sobre essas teses? Há um dever moral de votar? O voto deve mesmo ser estendido a todos, inclusive àqueles totalmente despreocupados com o bem comum, ou incapazes de avaliar o mérito dos candidatos e os problemas da sociedade? O voto é mesmo um tipo de coisa que não se deve vender ou comprar? 

O Nomear e a Necessidade, apresentado por João Branquinho

É já no próximo sábado, dia 19, às 18:30, na FNAC Chiado, em Lisboa. Estão todos convidados. (Clicar na imagem para ampliar)


8 de janeiro de 2013

Hanslick sobre apreciação musical

     Nada impediu tanto o desenvolvimento científico da estética musical como o valor excessivo que se atribuiu aos efeitos da música sobre os sentimentos. [...] O elementar da música, o som, e o movimento é o que acorrenta os sentimentos indefesos de tantos afeiçoados da música, cadeias que eles de bom grado fazem retinir. [...] É muito significativo o número dos que ouvem ou, em rigor, sentem deste modo a música. Ao permitir que o elementar da música actue neles em passiva receptividade, ficam enredados numa vaga agitação, imperceptivamente sensível, determinada apenas pelo carácter da peça musical. O seu comportamento perante a música não é contemplativo, mas patológico; um contínuo crepúsculo, sentir, entusiasmar-se, uma grande ansiedade no nada sonoro. [...]
     Aninhados e semidespertos no seu sofá, aqueles entusiastas deixam-se levar e embalar pelas vibrações de sons, em vez de os examinarem com olhar agudo. Quando eles crescem e aumentam cada vez mais, quando diminuem, irrompem em júbilo ou trémulos se apagam, transportam esses entusiastas para um estado sensitivo indeterminado que eles, ingénuos, julgam puramente espiritual. Constituem o público mais "agradecido" e apropriado para desacreditar com maior segurança a dignidade da música. O seu ouvido é desprovido do indício estético da fruição espiritual; um bom cigarro, um pitéu picante, um banho morno fornecem-lhes inconscientemente o mesmo que uma sinfonia. Desde que fique tranquilamente sentado sem pensar seja no que for até ao arrebatamento hilariante, o princípio é o mesmo: o prazer do elementar da música. A época actual trouxe, além disso, uma descoberta magnífica que supera de longe a música para os ouvintes que, sem qualquer actividade espiritual, apenas buscam nela a sublimação sentimental. Referimo-nos ao éter sulfúrico. A narcose do éter provoca em nós um inebriamento agradabilíssimo, progressivo, que vibra como um sonho doce através do organismo -- sem a a vulgaridade do consumo de vinho, que também não deixa de ter o seu efeito musical.
     Perante semelhante concepção, as obras de arte sonora contam-se entre os produtos naturais cuja fruição nos pode arrebatar, mas não obrigar-nos a pensar, a pensar segundo um espírito conscientemente criador. O doce aroma de uma acácia pode inalar-se mesmo com olhos fechados, sonhando. Mas recusam-se a tal os produtos do espírito humano, a não ser que tenham de descer ao nível de estímulos naturais sensíveis.
                                                                       Do Belo Musical
                                                                     

2 de janeiro de 2013

Novos Livros de Jeremy Waldron




                          

Jeremy Waldron, mais conhecido pelo seu trabalho em filosofia política e filosofia do direito lançou dois livros em 2012: The Harm in Hate Speech e Dignity, Rank and Rights. O primeiro deles trata do problema de se o discurso de ódio deve ser liberado ou não. Como o título sugere, Waldron defende que o discurso de ódio causa dano e, portanto, não deve ser liberado com base na liberdade de expressão. Uma resenha sobre o livro pode ser encontrada aqui. O segundo livro é uma compilação de duas palestras proferidas por Waldron sobre o conceito de dignidade seguida de três comentários e uma resposta do autor aos comentários.