28 de fevereiro de 2013

Prémio SPF 2012 atribuído a José Gusmão Rodrigues


Acaba de ser anunciado o vencedor do Prémio de Filosofia da SPF de 2012, no valor de 3500 €, que vai para o colaborador deste blog, José Gusmão Rodrigues. Muitos parabéns, José.

O ensaio premiado é uma resposta à questão lançada a concurso pela Sociedade Portuguesa de Filosofia, que perguntava o seguinte: O relativismo acerca da verdade refuta-se a si mesmo?

O júri avaliou os ensaios desconhecendo os seus autores. Já agora, o José responde que não à pergunta, como se pode confirmar no resumo divulgado:


No seu ensaio, José Gusmão Rodrigues, com o objectivo de avaliar «a acusação de auto-refutação levantada por Platão e retomada por tantos outros filósofos contra o relativismo», começa por esclarecer o que se entende por relativismo, como é que o relativismo acerca da verdade se distingue de outros tipos de relativismo e de que maneiras é que, em geral, uma tese ou teoria filosófica pode ser auto-refutante. A objecção da auto-refutação é dirigida, não às diversas formas de relativismo local (como, por exemplo, o que é defendido por alguém que é relativista somente a respeito das normas morais, ou somente a respeito dos gostos), mas ao relativismo global acerca da verdade, segundo o qual nenhuma proposição pode ser absolutamente verdadeira. A auto-refutação semântica é diferente de outros tipos de auto-refutação, entre os quais se destaca a auto-refutação pragmática: enquanto nesta é a forma de apresentação da tese que implica que ela não seja verdadeira, naquela é a própria suposição de que a tese é verdadeira que implica a sua negação. José Gusmão Rodrigues defende que o relativismo global acerca da verdade consegue escapar a ambas. O aspecto semântico é analisado à luz de um sistema formal proposto por Mark Ressler (corrigindo e desenvolvendo uma analogia feita por Steven Hales entre a lógica modal e uma lógica relativista). Neste sistema é possível elaborar uma prova da consistência do relativismo, quer dizer, pode-se provar que há um modelo (ou uma interpretação da linguagem) com duas perspectivas opostas, uma das quais é tal que todas as frases do sistema recebem um valor de verdade relativamente a ela que não é o que recebem relativamente à outra, constituindo esse modelo uma representação daquilo que a tese relativista afirma. Na discussão do aspecto pragmático, José Gusmão Rodrigues argumenta que as tentativas de mostrar que o relativismo é pragmaticamente auto-refutante falham, porque «fazem grandes suposições teóricas controversas nas suas premissas», suposições essas que o relativista, de maneira consistente com a sua perspectiva, naturalmente rejeitaria.

20 de fevereiro de 2013

Neuro-Mito




Os anúncios nas manchetes de jornais da descoberta de um novo centro do cérebro já se tornaram rotina. Supostamente já descobriram até mesmo a área do cérebro responsável pelo amor. Esses estudos são realizados por meio de escaneamento cerebral, ressonância magnética e análises de neuro-imagens. O entusiasmo de alguns especialistas da área é recebido com credulidade pela sociedade, incluindo leigos em geral ou especialistas de outras áreas, que geralmente partilham do preconceito cientificista de que as ciências experimentais podem explicar praticamente tudo. Filósofos falam de neuro-filosofia, economistas falam de neuro-economia, juristas falam de neuro-jurisprudência e publicitários falam de neuro-marketing. A expectativa da nossa cultura cientificista é que deve haver uma neuro-disciplina correspondente a qualquer outra área de especialidade que irá informá-la ou (de preferência) substituí-la de vez.

O problema é que esse oba oba resulta de exagero, credulidade e falta de rigor. Como lembra Vaughan Bell, por meio desses mesmos métodos, cientistas chegaram a conclusões absurdas como a de que um salmão morto tem atividade cerebral ou de que há atividade cerebral sem qualquer atividade correlacionada. Matthew Crawford observa que no final dos anos 90 e início dos anos 2000 alguns neurocientistas cognitivos mais críticos já apontavam o que muitos pesquisadores ainda têm feito: sem qualquer teoria em mãos, colocam as pessoas em máquinas de ressonância magnética para ver qual área do cérebro acende e em seguida publicam seus resultados em periódicos de prestígio. Até mesmo Russell Poldrack, um dos pesquisadores líderes na área de interpretação de neuro-imagens, aponta que há muita confusão na área, falsos positivos e erros elementares de lógica na interpretação dos dados que são publicados em periódicos de especialidade e utilizados comercialmente. Outro problema é o retorno do cientismo político, como argumenta Raymond Tallis. Alguns políticos já estão exigindo que as neuro-imagens sejam utilizadas como indícios em tribunais para determinar a culpabilidade de um réu. Tudo isso exige cautela e precisa ser repensado.

18 de fevereiro de 2013

It's For Your Own Good!

It's For Your Own Good!
http://www.nybooks.com/articles/archives/2013/mar/07/its-your-own-good/

Until now, we have lacked a serious philosophical discussion of whether and how recent behavioral findings undermine Mill's harm principle and thus open the way toward paternalism. Sarah Conly's illuminating book Against Autonomy provides such a discussion.

(via Instapaper)

16 de fevereiro de 2013

A arte de empurrar com a barriga


John Perry é conhecido por suas inúmeras contribuições à lógica, filosofia da linguagem, metafísica, filosofia da mente e o seu competente trabalho de divulgação no Philosophy Talk. Trata-se de um filósofo sólido, um modelo de perfeição para todos nós. Ele só tem um defeito: é um procrastinador incorrigível. No seu novo livro, The Art of Procrastination, ele explica como aprendeu a conviver com essa falha e ainda assim ser produtivo. Os interessados que não puderem comprar o livro podem encontrar um ensaio do mesmo autor com algumas técnicas para empurrar com a barriga aqui. Uma entrevista sobre o livro também está disponível gratuitamente aqui.
   

14 de fevereiro de 2013

Morre Ronald Dworkin



É com pesar que anuncio o falecimento de Ronald Dworkin, um dos mais influentes filósofos do direito das últimas décadas. Dworkin não só era um eminente filósofo do direito, como também um importante filósofo político, tendo contribuições substanciais nos debates sobre o liberalismo, o direito à igualdade e o direito à vida. Na filosofia do direito o seu trabalho mais influente e mais discutido foi o seu livro Taking Rights Seriously onde ele apresentou a objeção de que a teoria positivista de H.L.A. Hart não é capaz de incluir aquilo que chamou de "princípios". Essa tese ganhou muitos adeptos na época e outros a defendem até hoje, a despeito de o próprio Dworkin a ter abandonado no seu livro posterior Law´s Empire no qual defende uma teoria acerca da interpretação do direito a qual - supostamente - revelaria algo importante sobre a natureza do direito. Um dos maiores méritos do autor era o de reconhecer as falhas das suas teorias e oferecer reformulações a elas. Isso foi recentemente feito no seu livro Justice for Hedgehogs onde Dworkin tenta unificar o seu pensamento moral com o seu pensamento político e jurídico. A maioria dos seus livros foram traduzidos para o português e há até um post sobre isso aqui na Crítica. Outros livros traduzidos que não estão nesse link são: A Justiça de Toga e Justiça para Ouriços.
Alguns obituários estão sendo feitos em homenagem a Dworkin. Alguns podem ser encontrados aqui e aqui.

11 de fevereiro de 2013

Se as paredes de Cambridge pudessem falar

 

Eis uma deliciosa biografia do Clube das Ciências Morais, de Cambridge. O clube dedicado à investigação e debate filosóficos foi fundado em 1874 e continua as suas atividades até hoje. Aqui aconteceu de tudo. Reza a lenda que ocorreu uma briga entre Wittgenstein e Popper na qual o primeiro argumentava ferozmente com um atiçador em mãos. Outra história lendária é a de um conferencista que apresentou o seu paper mesmo depois do alarme de incêncio ter disparado. 

Os bastidores de Harvard e a pressão de Kripke sobre Quine

During the time I was teaching at Harvard as an Instructor in Philosophy and General Education, the wunderkind Saul Kripke showed up as a Freshman at Harvard, having already had an article accepted for publication in The Journal of Symbolic Logic, the leading professional journal in the field. Saul was a piece of work but there was no denying his brilliance, and Quine treated him as an equal, in what I have always considered a manifestation of real academic class.

In 1960, Quine published what was to become perhaps his most influential book, Word and Object. Saul read it, and made an appointment with Quine to talk about it. When the day of the appointment arrived, Saul stood Quine up. Now, the morés of the Academy have changed in the past half century, and students these days [if I may speak with a crustiness befitting my age] no longer exhibit an appropriate respect for their elders and betters. But in those days, it was unheard of for a student -- any student -- to make an appointment with a professor and then simply not show up. Saul came slouching around a while later with some excuse, and Quine agreed to another appointment, at Eliot House, where Quine had an affiliation. Marshal Cohen, then a young Assistant Professor, told me that he walked by just as Saul and Quine were saying goodby, and swears that he heard Quine mumbling to himself, "Maybe I am all wrong. Maybe I have got it all wrong." (Robert Paul Wolff, A Life in The Academy, p. 81-82)

3 de fevereiro de 2013

Dicionário de Filosofia do Direito


Uma ferramenta extremamente útil para quem estuda filosofia do direito é o "Legal Theory Lexicon" disponível online no blog do filósofo Lawrence Solum. Há atualmente 70 entradas abrangendo termos centrais da filosofia do direito, como, por exemplo, "natureza do direito", "regras primárias e secundárias" e "formalismo", e também termos não propriamente exclusivos da filosofia do direito, mas que muitas vezes aparecem nos artigos e livros dessa área, tais como "metaética", "vaguidade", "necessidade" e "dilema do prisioneiro". As entradas além de serem uma boa e rápida introdução ao termo, oferecem ao final indicações bibliográficas para o aprofundamento.