30 de março de 2013

Todos numa mente única, Utopia ou Caos?

TAC ao cérebro (Imagem do autor)

O desenvolvimento da ciência faz crer que, no futuro, a nossa espécie passará a ser biotecnológica, evoluindo no sentido que a si própria designar. Essa transformação tornaria plausível que, a qualquer momento e em qualquer lugar, acedêssemos ao mais vasto depósito de conhecimento de sempre, disponibilizado na rede, bastando para tal apenas pensarmos nisso!

Agora imaginemos, pois a partir daqui o salto não será tão grande, que estaríamos todos no mundo ligados em rede e teríamos a possibilidade de aceder a outro banco de dados ainda mais fabuloso: a mente do outro (incluindo as diferentes espécies!).

Para além do sobressalto imediato com a hipótese do nosso cérebro ser um livro aberto e qualquer um poder ler os nossos pensamentos mais íntimos, o que significaria a total perda de privacidade? Consideremos uma possível atenuante: ao nascermos, o mundo já seria assim.

22 de março de 2013

50 Lições de filosofia


Está já disponível o blog de apoio do novo manual escolar de filosofia intitulado 50 Lições de Filosofia, da autoria de Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho. Trata-se de um manual para o 10.º ano de escolaridade português. No blog iremos dar apoio a professores e alunos que usarem o nosso manual, e disponibilizaremos também materiais complementares. Todas as críticas e sugestões são bem-vindas!

19 de março de 2013

O Mundo Muito Louco do Feminismo


Os departamentos em que se pratica a filosofia analítica, que é pautada pelo rigor argumentativo e pela procura constante de clareza conceitual, são supostamente lugares sérios para se fazer filosofia. Até há pouco tempo, se uma feminista como Luce Irigaray afirmasse que a mecânica dos fluidos é uma área subdesenvolvida da física porque ela é identificada com a feminilidade, isso seria encarado com incredulidade e descrédito. Afinal de contas, esse gênero de pensamento que vê a ideologia machista por trás da ciência é implausível demais para ser levado a sério. Mas em algum momento, as linhas que demarcam a seriedade acadêmica do fanatismo ideológico foram apagadas e manifestações ideológicas de feminismo encontraram espaço até mesmo dentro do ambiente analítico. Foram propostas áreas da filosofia como a metafísica feministaa epistemologia e a filosofia da ciência feministas, a ética feminista, a filosofia da linguagem feminista, a filosofia política feminista, etc. A metafísica feminista, por exemplo, parte da suposição de que as teorias metafísicas sobre a estrutura mais fundamental da realidade propostas por homens devem ser consideradas com cautela, pois podem ser distorcidas de modo a privilegiar a sua masculinidade – o que é pra lá de estranho dado o tipo de problemas que tem interessado quem trabalha com metafísica, por exemplo, o problema dos Universais, do Livre Arbítrio, da Causalidade, entre inúmeros outros. A suposição ideológica mais geral é a de que todas as áreas da filosofia estão contaminadas pelo gênero nos seus conceitos mais elementares. As feministas que me desculpem, mas isso é maluquice. E só para que fique bem claro: isso não é uma crítica às feministas (ou aos feministas, pois o feminismo não é uma prerrogativa das mulheres) genuína(o)s. Há feministas que apenas defendem de maneira sensata a igualdade de direitos a despeito do gênero, mas não se comprometem com o fanatismo ideológico, atitudes misândricas e não têm obsessão por achar  machismo em toda a parte. Se as feministas extremistas se auto-intitulassem de qualquer outra coisa, eu poderia denominá-las de modo diferente, mas como elas se autodenominam de feministas eu tenho que usar esse termo. 

18 de março de 2013

Os bastidores de uma editora universitária

Aqui. Jason Weidemann explica como se dá o árduo processo de uma revisão editorial séria em uma editora universitária norte-americana. As editoras universitárias brasileiras deveriam seguir o exemplo. Agradeço ao Desidério pela indicação desse texto!   

Entrevista com E.J. Lowe


















Veja aqui a entrevista de E.J. Lowe publicada na 3:AM Magazine.

Putnam: valores, factos e linguagem

http://www.prospectmagazine.co.uk/blog/philosophy/hilary-putnam-philosophy-in-the-age-of-science-kant-wittgenstein/

There is nothing inherent in symbols (like words) which gives them content.  An ant running in the sand could randomly trace out the sentence "I'm half sick of shadows" regardless of humans ever existing. Any content in those symbols, even symbols which are contextually dependent on a speaker's intentions, derives from a very complex network of information, metaphor, and history entirely external from our mental states.

(via Instapaper)

17 de março de 2013

A Síndrome do Macho Alfa


Eu já havia comentado neste blog sobre como a agressividade em discussões filosóficas torna o ambiente de cooperação acadêmica impossível. Eu penso que esse problema tem pelo menos duas causas. A primeira delas é a falta de civilidade. Um filósofo pode argumentar de maneira agressiva por falta de educação, pura e simples. A segunda causa é o complexo de querer se impor como melhor do que os outros em tudo, é a síndrome do macho alfa. A única diferença entre ele e alguns machos dominadores de outras espécies é que ao invés de demarcar o seu território com urina, ele o demarca com argumentos, erudição bibliográfica e comentários jocosos. Entre as duas causas, a síndrome do macho alfa me parece muito pior. Embora a grosseria também seja um problema, ela pode ser corrigida com bons modos e não causa tanto mal-estar quando a audiência reconhece que o filósofo não age de modo rude por mal. Até mesmo porque, em certas ocasiões, a atitude de ser curto e grosso não só é justificada como também é necessária. Se alguém pretende publicar um trabalho que não satisfaz exigências mínimas de rigor não temos outra denominação para esse trabalho que não seja a de lixo. Usar eufemismos para não ofender as pessoas nesses casos é desonesto e prejudicial, pois a crítica dura é imperativa para mantermos a salubridade da área. A síndrome do macho alfa, por outro lado, nunca traz benefícios para a área e não é corrigível. Não há qualquer manual de boas maneiras ou advertência ética que possam curar a falta de caráter. O macho alfa simplesmente toma como axiomática a suposição de que o objetivo maior na vida é pisar nos outros e se destacar como o superior. Não podemos fazê-lo mudar de idéia, pois ele pressupõe de maneira circular que todos aceitam o seu objetivo.  

Textilus



Os filósofos que têm o hábito de escrever rascunhos com símbolos lógicos poderão manter o seu hábito no iPad com o Textilus, um dos processadores de texto para iPad que mais se assemelham ao Word. Agradeço à Daniela Moura pela indicação desse App.

Phi2Phi


Os filósofos que tiverem um iPhone ou iPad podem se divertir com o Phi2Phi. Esse aplicativo contém seções de todas as áreas da filosofia nas quais podemos apresentar teses, experimentos mentais, contra-exemplos e pesquisas de opinião informais sobre tópicos de filosofia. O fato de que tudo isso é feito anonimamente, mas com certo grau de seriedade, mostra que há algo de profundamente errado com os espaços de “discussões” de redes sociais, nas quais o anonimato é muitas vezes apenas um disfarce covarde para agressões verbais e xingamentos.     

10 de março de 2013

A mediocridade acadêmica brasileira


Não é novidade que as universidades brasileiras pouco, ou quase nada, contribuem para o desenvolvimento acadêmico mundial. Vários podem ser os fatores que contribuem para tal coisa, como por exemplo, a falta de investimento nas universidades, a falta de incentivo à carreira acadêmica, etc. Mas há, certamente, um fator que é proeminente: a comodidade das carreiras de professores universitários nas instituições públicas (vale lembrar que a quase totalidade dos centros acadêmicos brasileiros está concentrada em instituições públicas). Grande parte dos professores universitários brasileiros não produz; e mesmo quando produzem, publicam em periódicos sem expressão alguma (e que mais parecem -- eu disse "parecem"! -- ter sido criados para que um grupo de pessoas possa encher seus currículos). Soma-se a isso ainda a grande vantagem de se continuar empregado ainda que se seja o mais medíocre dos profissionais. Não é de se espantar, portanto, que numa política em  que a fraude e a procrastinação acadêmicas sejam permitidas, a irrelevância frente a produção intelectual de qualidade surja. Adonai Sant'Anna, professor do departamento de matemática da UFPR, publicou na Scientific American Brasil de fevereiro deste ano, um interessante artigo, também reproduzido em seu blog, expondo claramente como a comodidade das carreiras acadêmicas brasileiras é em grande parte responsável pela  nossa irrelevância acadêmica. Além de também explicar grande parte dos mau-caratismos cometidos em nome dos vantajosos cargos. A solução, como aponta o autor, é a falta de competitividade gerada pela velha ideia de que a meritocracia é sempre errada. 

8 de março de 2013

Carnap, Tarski, and Quine at Harvard



During the academic year 1940-1941, several giants of analytic philosophy congregated at Harvard: Bertrand Russell, Alfred Tarski, Rudlof Carnap, W. V. Quine, Carl Hempel, and Nelson Goodman were all in residence. This group held regular private meetings, with Carnap, Tarski, and Quine being the most frequent attendees. Carnap, Tarski, and Quine at Harvard allows the reader to act as a fly on the wall for their conversations. Carnap took detailed notes during his year at Harvard. This book includes both a German transcription of these shorthand notes and an English translation in the appendix section. Carnap’s notes cover a wide range of topics, but surprisingly, the most prominent question is: if the number of physical items in the universe is finite (or possibly finite), what form should scientific discourse, and logic and mathematics in particular, take? This question is closely connected to an abiding philosophical problem, one that is of central philosophical importance to the logical empiricists: what is the relationship between the logico-mathematical realm and the material realm studied by natural science? Carnap, Tarski, and Quine’s attempts to answer this question involve a number of issues that remain central to philosophy of logic, mathematics, and science today. This book focuses on three such issues: nominalism, the unity of science, and analyticity. In short, the book reconstructs the lines of argument represented in these Harvard discussions, discusses their historical significance (especially Quine’s break from Carnap), and relates them when possible to contemporary treatments of these issues.

4 de março de 2013

A diferença entre mentir e dizer tretas

"É impossível para alguém mentir a menos que pense conhecer a verdade. Contar tretas não requer tal convicção. Uma pessoa que mente está, deste modo, a reagir à verdade e, nessa medida, respeita-a. Quando um homem honesto fala, ele diz apenas o que acredita ser verdade; e para o mentiroso é correspondentemente indispensável que acredite que as suas afirmações são falsas. Para o 'tretas', no entanto, todas estas questões estão ao lado: este não está do lado da verdade nem no lado da falsidade. Não tem em vista os factos, como têm o homem honesto e o mentiroso, excepto na medida em que pode ser pertinente ao seu interesse convencer os outros do que diz. Ele não se preocupa se as coisas que diz descrevem a realidade correctamente. Ele apenas as selecciona, ou inventa-as, para se ajustarem ao seu propósito."
Harry Frankfurt, On Bullshit.