30 de abril de 2013

Joseph Carroll

As vantagens profissionais da doutrina pós-estruturalista deveriam ser óbvias. Permite que os professores de literatura adoptem uma postura crítica pré-fabricada que de nenhum modo depende da validade empírica das suas descobertas. Ao ligar a afirmação de uma forma superior de perspicácia, que transcende a razão, com a afirmação de uma autoridade moral superior, o pós-estruturalismo concede aos seus aderentes o tipo de autoridade apropriada a uma classe sacerdotal. Os iniciados nesta ordem doutrinal têm de fazer votos de pobreza intelectual. Renunciam necessariamente ao conhecimento positivo, objectivo. Mas em compensação ocupam automaticamente uma perspectiva crítica que é sempre desde logo superior às descobertas objectivas da ciência e que é sempre desde logo moralmente superior à ordem social em que eles mesmos participam.

29 de abril de 2013

O problema da indução

Mais uma entrevista da série NO JARDIM DA FILOSOFIA, com António Zilhão (Universidade de Lisboa) sobre o problema da indução.

A lógica que se ensina

Eis mais uma entrevista da série NO JARDIM DA FILOSOFIA. Vale muito a pena ouvir o que Ricardo Santos, professor de lógica (e de Filosofia Antiga) da Universidade de Évora, tem a dizer sobre o assunto.

A. C. Grayling no Jardim da Filosofia

NO JARDIM DA FILOSOFIA é uma série de curtas entrevistas sobre tópicos filosóficos, com carácter elementar e introdutório. Os entrevistados são principalmente filósofos ou estudiosos das áreas sobre as quais são entrevistados. As entrevistas são realizadas por Aires Almeida, que conta com o apoio da Didáctica Editora. Novas entrevistas estão previstas e todas se destinam a ser publicadas neste canal do YouTube, de modo a que o seu acesso seja completamente livre.

Esta é a primeira das entrevistas, com o filósofo britânico A. C. Grayling. Há outras. E seguir-se-ão mais.

28 de abril de 2013

Estudos mostram que...

Nesta ótima crônica, Gary Gutting argumenta que a maior parte dos anúncios de descobertas científicas resulta de jornalismo mal feito, que publica como o que há de mais inovador na ciência o que muitas vezes são apenas estudos preliminares com poucas correlações. 

24 de abril de 2013

O que é a arte?

Já começa a chegar às livrarias o ensaio filosófico O Que é a Arte?, de Lev Tolstói. Trata-se do mais recente número da colecção Filosofia Aberta (Gradiva), com tradução directa do russo por Ekaterina Kucheruk. A revisão científica é minha e também a introdução à tradução portuguesa.

Que eu saiba, este ensaio é uma das primeiras tentativas de definir a arte. A ideia de que a arte é expressão de sentimentos não é uma inovação de Tolstói, mas foi ele quem procurou, pela primeira vez, definir a arte com base nessa ideia. Mas não é só a definição da arte que está em causa neste ensaio; é também o problema do valor e da avaliação da arte. É um livro, em muitos aspectos, tão desconcertante  (pelo que diz sobre Wagner, Beethoven, Baudelaire, Nietzsche e até sobre os seus próprios romances) quanto estimulante. Ainda hoje.






21 de abril de 2013

Educação, ineficiência e lavagem ao cérebro

O nosso leitor Paulo Santos teve a gentileza de responder a um breve comentário meu sobre o vídeo que o Luiz divulgou aqui, e a sua contribuição é preciosa. Contudo, o meu pensamento não é o que poderia parecer, dada a brevidade do meu comentário. Urge, pois, explicar um pouco melhor o que penso.

Para começar, não penso de modo algum que a escola serve apenas para formar taxistas ou banqueiros; pelo contrário, serve para formar seja o que for que as pessoas querem ser: pintores, filósofos, poetas, etc. Seria até estranho que eu, que sou professor de filosofia, fosse como aquelas pessoas muito provincianas que pensam que no mundo só há pessoas como elas: engenheiros, médicos, advogados e empresários. Felizmente, no mundo há muitas profissões, desde pintor abstracto a actor de teatro, passando por filósofo e cozinheiro, cientista e cineasta.

Ora, o problema é precisamente este: diferentes pessoas querem aprender diferentes coisas, querem ter diferentes competências porque têm diferentes interesses. As competências que eu quero adquirir dependem do que me apaixona: no meu caso, a filosofia. Estas competências são completamente diferentes das que precisa uma pessoa que tenha paixão por outra coisa qualquer.

Portanto, temos uma primeira dificuldade: é pura e simplesmente impossível que o PISA avalie competências relevantes para todas as pessoas. O que avalia são as competências que os pedagogos consideram relevantes que fizeram o PISA.

A segunda dificuldade é que mesmo que os pedagogos quisessem avaliar as competências relevantes para ser, por exemplo, filósofo, não conseguiriam fazê-lo. Porquê? Porque nem sequer sabem que competências são essas e, mesmo que saibam, eles próprios não as têm; portanto, não as podem avaliar. Os pedagogos têm exclusivamente as competências artificiosas alimentadas pelas escolas e universidades, sem qualquer relação com uma actividade que não seja autofágica, alimentada pelas próprias escolas e universidades. Um pedagogo é um metaprofessor. Um mecânico de automóveis ou um filósofo pode ensinar os outros a serem mecânicos de automóveis ou filósofos porque tem essas competências. Nas escolas contemporâneas, na maior parte dos casos, os professores dessas coisas não são essas coisas porque são professores profissionais e por isso na verdade não sabem reparar um automóvel nem escrever um livro de filosofia, e depois fingem que podem ensinar isso aos filhos dos outros. Mas o caso dos pedagogos é ainda mais engraçado (ou trágico), porque são metaprofessores, são professores de professores, especialistas na arte de ensinar quem não sabe X a ensinar X, sendo que eles mesmos não só não sabem X como nem sabem ensinar X. Se não fosse trágico, seria cómico.

Lendo os artigos que o Paulo generosamente me indicou, vejo que os autores têm consciência da dificuldade que é avaliar realidades que muitas vezes são abstractas recorrendo a indícios empíricos. Mas o problema de coisas como o PISA é mais elementar, mais pedestre: é que um sistema de ensino que dá excelentes competências de tipo A, medidas pelo PISA, pode ser péssimo a dar competências de tipo B, que o PISA não mede. E acontece que para muitas pessoas as competências de tipo A são relevantes, mas para muitas mais não são relevantes.

A dificuldade mais geral que está aqui em causa é o que me faz pensar que as escolas e universidades são hoje em dia o principal obstáculo ao desenvolvimento das sociedades, à criação de bem-estar e riqueza (e não me refiro apenas à riqueza material). É que as escolas e universidades vão no sentido contrário do que precisamos para desenvolver competências cada vez mais eficientes, compensadoras e ricas: a especialização. A fonte de toda a riqueza é a especialização, pois é daqui que surge a eficiência: uma sociedade A que produz bananas a metade do preço de outra sociedade B é imediatamente mais rica do que B (sendo tudo o resto igual), pela simples razão de que 1) toda a gente gasta menos dinheiro em bananas e por isso tem mais dinheiro para comprar outras coisas, o que por sua vez financia essas outras coisas e 2) quem faz bananas mais baratas é porque demora menos tempo a fazê-las e pode por isso usar o tempo que sobra a fazer outras coisas que não bananas, o que pode ir desde peças de teatro a automóveis. A eficiência e a especialização são as mães da riqueza, e as escolas e universidades insistem no contrário disso: querem que toda a gente tenha aproximadamente as mesmas competências, o que provoca um desperdício imenso de recursos humanos, que são a única riqueza que um país realmente tem (e não o petróleo ou os diamantes ou as bananas, como erradamente as pessoas tendem a pensar, pois de nada adianta ter petróleo se não tivermos pessoas que sabem extraí-lo de maneira eficiente).

Para terminar, há uma parte do vídeo em que o professor de Harvard que apresenta o suposto milagre educativo finlandês fica maravilhado com um projecto que os estudantes desenvolveram sobre energias renováveis. É quando se vê estas coisas que se percebe a marosca. O que o tal professor de Harvard quer, como muitas pessoas ligadas à educação, é usar a educação para fazer a cabeça dos jovens, para lhes meter na cabeça os preconceitos e ideias feitas e politicamente correctas do nosso tempo (e que daqui a 50 anos as pessoas vão achar horríveis e incorrectas). Um olhar desapaixonado sobre o tal projecto sobre energias renováveis mostra a ineficiência da coisa, de um ponto de vista cognitivo e humano: reduz-se, no máximo, a umas 4 proposições (do género: há energias que são renováveis e outras que não são, se usarmos energias que não são renováveis, as gerações futuras não poderão usá-las (duh), etc.). O que isto significa é que os alunos andaram semanas a fazer uma tolice que poderiam ter feito e aprendido em 10 minutos ou menos. É o máximo do mínimo da eficiência. Contudo, é muito eficiente para outra coisa: para calar o espírito crítico, para fazer a cabeça dos alunos, para os mergulhar em ideias que foram treinados como macacos para considerar que são indisputáveis porque foram mergulhados nelas. 

Agora compreende-se a paixão pelo suposto milagre educativo finlandês.

Bem-vindo ao admirável mundo novo. Nem é preciso a Soma.

20 de abril de 2013

Entrevista a Robert Stalnaker

Robert Stalnaker is the grandmaster flash of contemporary metaphysicals. He thinks that a language-first approach to philosophy is ludicrous, Paul Grice an inspiration and Saul Kripke very important to his early thinking. He broods on issues about internalist and externalist doctrines and approaches, on our knowledge of the external world, about the nature of phenomenal knowedge, about the view from nowhere, the opacity of transparency, contextualism, relativism, possible worlds, the entanglement of semantics with metaphysics, haecceitism and the beauty of metaphysical theories, amongst other things. He is currently on a phased retirement at MIT and becoming a Visiting Professor at Columbia. He is simply a modern daddy of the mac!Chillin’!
http://www.3ammagazine.com/3am/the-possible-worlds-hedgehog/

A educação que todos queríamos!

Eis um documentário sobre um dos melhores, senão o melhor, sistemas educacionais do mundo -- o sistema Finlandês. 


18 de abril de 2013

Especialistas em lógica

Um dos sinais inequívocos da confusão mental e académica em que muitas pessoas estão mergulhadas diz respeito a conhecimentos elementares de lógica. Imagine-se o que seria alguém argumentar que para saber o que é um verbo é preciso ser especialista em linguística. Isto trai não apenas um desconhecimento curioso do que faz um especialista em linguística (que está muito além de saber o que é um verbo), mas também uma concepção algo exótica do que se espera que sejam as competências básicas de um académico de qualquer área.

Ora, quando se fala de argumento, premissa, conclusão, validade ou proposição, argumenta-se por vezes que é preciso ser especialista em lógica para dominar estes conceitos. Isto é uma tolice. Estes são não apenas conceitos elementares que qualquer estudante de filosofia deveria dominar para ser minimamente competente, como ainda por cima é algo que qualquer pessoa que não tenha sofrido uma lobotomia profunda pode entender numa tarde de estudo tranquilo, nos intervalos do jogo de futebol e de mais uma fotografia enviada para o Facebook.

Era bom parar de usar argumentos ridículos para ocultar incompetências elementares, permitindo assim a continuação desse aflitivo desporto que consiste em simular competências académicas profundas que na verdade não temos. Incompetências todos temos, mas ficaremos todos melhor, e o ambiente mais desanuviado e honesto, se pararmos de simular competências académicas que não temos, passando ao invés a fazer um trabalho modesto, mas honesto.

Kripke sobre o naturalismo


I don’t have the prejudices many have today, I don’t believe in a naturalist world view. I don’t base my thinking on prejudices or a world view and do not believe in materialism. Kripke in an interview with Andreas Saugstad 

16 de abril de 2013

Seminário Internacional de Pensamento Crítico na Educação

Clicar na Imagem para melhor visualização. mais informações AQUI

Aposta Holandesa


Nas discussões filosóficas sobre probabilidades encontramos o famoso argumento da aposta holandesa (dutch book argument) a favor da ideia de que os graus de crença que atribuímos a um conjunto de proposições não devem violar os axiomas da probabilidade (ou axiomas de Kolmogorov, como também são chamados). A estratégia básica é mostrar que se violarmos esses axiomas, consequências ruins podem surgir. No caso da aposta holandesa, se o apostador fizer um conjunto de apostas (presumindo que há alguma conexão entre graus de crença e disposição para apostar) que violem os axiomas da probabilidade, ele certamente perderá dinheiro. Por exemplo, se eu apostar R$ 600 para ganhar R$ 1000 que amanhã vai chover, e também fizer a mesma aposta de que amanhã não vai chover, terei gastado R$ 1200 para ganhar apenas R$ 1000. De qualquer maneira perco R$ 200. Isso aconteceu porque atribuí 0,6 à  minha crença de que amanhã vai chover e também 0,6 à minha crença de que não vai chover amanhã. Somados os graus de crença -- 1,2 -- vemos que estou a violar um dos axiomas da probabilidade -- o de que a probabilidade de p ou ¬p é igual a 1. Infelizmente não há muitos recursos introdutórios que nos auxilie passo a passo nos detalhes de como funciona uma aposta holandesa. Há um verbete na SEP, mas é um pouco técnico e não ajuda muito a quem está dando seus primeiros passos nesse tema. Achei, porém, um pequeno texto no blog de William M. Briggs que pode ser de grande ajuda (embora trate apenas da construção das apostas). Uma ótima introdução filosófica foi disponibilizada por Alan Hájek em sua página pessoal. O cap. 7 do Philosophical Devices, de David Papineau, também oferece uma pequena e clara introdução ao argumento. 

15 de abril de 2013

Ensino da filosofia e avaliação

Estarei em Porto Alegre, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, nos próximos dias 26 e 27 de Abril, para dar uma palestra e uma aula. A palestra do dia 26 tem por título "Avaliação em Filosofia: Conteúdos e Competências" e tem como destinatários alunos da licenciatura em filosofia. A aula do dia seguinte integra o curso de formação continuada para professores de filosofia do estado de Rio Grande do Sul, promovido por aquela universidade, e será uma aplicação prática das ideias apresentadas na véspera. Mais informações...

4 de abril de 2013

"Tome-se, por exemplo, a afirmação de Keats: "A beleza é verdade, a verdade beleza". Este é um exemplo interessante da separação entre a beleza e a verdade (e portanto entre a estética e a semântica), embora a frase negue que isso seja possível. A frase é claramente falsa embora seja bela. Pelo que é um exemplo da sua própria falsidade!"
Nick Zangwill, "Aesthetics and Art"

3 de abril de 2013

Pesquisa em ensino da filosofia e em filosofia da educação, em Ouro Preto

É já daqui a oito dias que começa, na Universidade Federal de Ouro Preto (Brasil) o Encontro Nacional de Pesquisa em Ensino de Filosofa e Filosofia da Educação  — ENPFFE 2013 —, no qual participarei com um minicurso sobre a avaliação das aprendizagens em filosofia. 

O ENPEFFE é organizado pelo Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto

Os objectivos do  ENPEFFE  são, como se pode ler na página oficial, «a promoção, a pesquisa e a reflexão sobre Ensino de Filosofia e Filosofia da Educação. De maneira mais específica, seus objetivos são: (i) cultivar o diálogo entre professores e estudantes das diversas Instituições de Ensino Superior no país que pesquisam nas áreas de Ensino de Filosofia e Filosofia da Educação; (ii) criar um espaço institucional e inter-acadêmico para a apresentarão das pesquisas dos alunos de Licenciatura da Universidade Federal de Ouro Preto e de outras instituições de Ensino Superior no país; (iii) promover a pesquisa e a reflexão sobre o Ensino de Filosofia e a Filosofia da Educação na Universidade Federal de Ouro Preto (iv) contribuir para formação de docentes mais preparados para a atuação nas Escolas; (v) apresentar à sociedade a importância da Filosofia para a Educação de cidadãos mais conscientes.»

O programa completo do ENPEFFE pode ser consultado aqui.

O programa do minicurso que irei ministrar pode ser consultado aqui (as inscrições já estão encerradas).