30 de maio de 2013

Robert C. Bishop em Lisboa

Nos próximos dias 12 e 14 de Junho, Robert C. Bishop, físico e filósofo da ciência norte-americano, especialista nas questões da complexidade, não-linearidade, determinismo e emergência, fará duas conferências na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, a convite do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa. Mais informações:

20 de maio de 2013

Altruísmo eficaz: porquê e como


 

Nesta palestra TED, Peter Singer defende a tese do seu livro A Vida Que Podemos Salvar - Agir agora para pôr fim à pobreza no mundo. Neste contexto refere-se a um movimento em expansão, liderado por filósofos, economistas e matemáticos, o altruísmo eficaz.   

Apresenta algumas experiências mentais que nos questionam sobre como podemos equilibrar a emoção e a razão para ter o maior impacto possível ao agir segundo o que afirma ser uma obrigação moral: ajudar aqueles que se encontram na pobreza extrema. 

Será isto uma chantagem moral?
Ou será esta uma regra de ouro do comportamento ético?

18 de maio de 2013

Bondade e lucidez







"Desde a puberdade, acreditei no valor de duas coisas: a bondade e a lucidez. Inicialmente, estes dois permaneceram mais ou menos distintos; quando me sentia triunfante acreditava mais na lucidez e com a disposição oposta acreditava mais na bondade. Gradualmente, os dois se uniram cada vez mais nos meus sentimentos. Julgo que muito pensamento obscuro existe como uma desculpa para a crueldade e que muita crueldade é motivada por crenças supersticiosas."

Bertrand Russell


Texto retirado daqui.

15 de maio de 2013

12 de maio de 2013

Filosofia da educação de Locke

Acaba de ser publicado o livro Educar Para a Verdade e a Virtude (Edições Afrontamento), de Rui Cunha, baseado na sua tese de doutoramento sobre a filosofia da educação de John Locke. O livro tem, aliás, o subtítulo A Emergência da Modernidade Pedagógica no Pensamento Educacional de John Locke


Este livro exibe as excelentes qualidades que todos os que conheceram Rui Cunha lhe reconheciam quando com ele conversavam ou liam o que escrevia: a sua enorme bagagem filosófica, o seu rigor conceptual, bem como o profundo conhecimento das fontes directas e da bibliografia de referência. Tendo como fonte principal a obra de Locke, em particular Some Thoughts Concerning Education (livro entretanto traduzido para português pela Almedina, com o título Alguns Pensamentos Sobre Educação), facilmente se percebe que Rui Cunha não deixa um único detalhe por estudar nem por esclarecer, ao estilo do melhor scholarship

Tratando-se de um livro póstumo, o Rui não teve, infelizmente, oportunidade de fazer a última revisão do texto nem de tomar algumas decisões de pormenor para publicação. A bibliografia consultada, por exemplo, foi muitíssimo mais extensa do que a indicada no fim do livro. Mas isso são apenas pormenores. 

O mais importante é que se trata de um rigoroso e informativo estudo de um autor português (penso que o primeiro) totalmente dedicado ao pensamento educacional de Locke, devidamente contextualizado em termos filosóficos. Eis, em resumo, o que Rui Cunha, nas suas próprias palavras, nos propõe neste estudo:

   «Locke é um pensador da máxima importância quando se trata da Epistemologia, creditando-se-lhe a paternidade da teoria empirista do conhecimento, maximamente relevante até ao presente; Locke é também um pensador da máxima importância no tocante à Filosofia Política, tendo cunhado a teoria contratualista da origem do Estado, igualmente relevante ainda hoje; então, porque é que, no que toca à Filosofia da Educação, onde também produziu obra, Locke é quase ignorado e considerado irrelevante hoje em dia? Como é que um génio filosófico na Epistemologia ou na Filosofia Política se metamorfoseia num pensador supostamente menor em Filosofia da Educação?
     Ou será que a produção educacional de John Locke não tem sido suficientemente lida e menos ainda bem compreendida a sua relevância filosófica? Se é assim, torna-se necessário recolocá-lo na primeira linha de debate entre os filósofos da educação. Justamente, é a hipótese da grandeza do pensamento de Locke, também nesta área, que subjaz a este trabalho e se configura como o nosso objectivo último: mostrar a importância do pensamento de Locke para o debate filosófico acerca da educação. 
   O fundamento desta nossa tese radica no que designamos como a Emergência da Modernidade Pedagógica. Que pretendemos dizer com isto? Entre o que, à falta de melhor, poderíamos chamar o modelo tradicional de educação e o modelo progressivo, operou-se, em nosso entender, uma mudança de paradigma, uma revolução pedagógica, mais complexa do que supõe o uso da expressão revolução copernicana, aplicada à proposta pedagógica de Rousseau. Em nosso entender, operou-se uma ruptura na história da filosofia da educação. A concepção de educação própria do período anterior a esse corte, que vem desde os Gregos, com particular realce para Platão, Aristóteles, Santo Agostinho e S. Tomás, cede lugar a uma nova concepção de educação que se constrói gradualmente a partir desse novo paradigma. Na hipótese que apresentamos, esse novo paradigma inicia-se no século XVII com Locke (embora tenha tido precursores como Coménio, ou até Montaigne, no século anterior) e conclui-se — nas suas linhas filosóficas gerais, que não na sua implementação generalizada na prática educativa — no século XVIII com Rousseau, cujo Émile servirá de porta-estandarte para esta nova visão da educação.
    A nossa hipótese não é, contudo, universalmente aceite.» (pp. 40-1)

O índice de conteúdos (abreviado) é o seguinte:

Prefácio
Abertura
Capítulo 1: Vida e obra de John Locke
Capítulo 2: Locke e a emergência da modernidade pedagógica
Capítulo 3: A recepção da filosofia da educação de Locke
Capítulo 4: Teoria geral da educação
Capítulo 5: Teoria da educação moral e cívica
Capítulo 6: O currículo do young gentleman
Referências bibliográficas

3 de maio de 2013

Teorias da Correcção: Nível Factorial e Fundamental

Muitos filósofos que trabalham em Ética procuram descobrir critérios para distinguir as acções certas das erradas, e, habitualmente, também fazer distinções mais apuradas entre vários tipos de acções certas (entre acções permíssiveis e obrigatórias e acções permissíveis mas não obrigatórias, por exemplo), construindo para isso teorias que possuem um conjunto de principios que especificam o que é certo e errado (teorias da correcção). O utilitarismo e a ética kantiana são os exemplos mais bem conhecidos de teorias da correcção, apesar de estritamente falando o utilitarismo não ser uma teoria da correcção de acção, mas uma combinação de uma teoria de correcção da acção com um tipo de teorias do bem, especificamente as que obedecem à restricção de que os únicos estados de coisas que vale a pena promover por si mesmos são aqueles que envolvem o bem-estar de um certo conjunto de seres vivos. Uma teoria do bem seria assim uma teoria sobre que estados de coisas são intrinsecamente valiosos ou que vale a pena promover por si. Que coisas são boas em si mesmas? Apenas estados mentais prazerosos ou a satisfação de desejos? E que dizer da amizade, conhecimento e beleza?
Uma distinção introduzida por Kagan (1997) e que bem merecia mais popularidade e reconhecimento, por clarificar as coisas, tanto dentro como fora da filosofia - daí estar a escrever este post- , é entre dois níveis que uma teoria da correcção completa tem de possuir: um nível factorial e um nível fundamental. 
No nível factorial, pretende-se especificar quais os factores moralmente relevantes, numa dada situação, e como estes interagem de modo a determinar o estatuto deôntico de uma acção (isto é, se ela é obrigatória, permissível, superrogatória, impermissível...). Assim sendo, neste nível factorial teriamos dois tipos de teorias, as consequencialistas e as deontológicas. As primeiras caracterizam-se pelo facto de acharem que para determinar se uma dada acção é correcta ou não devemos apenas atender à promoção de estados de coisas impessoalmente valiosos ou, mais simplesmente, a aumentar a quantidade de bem no universo - vários tipos de teorias sobre o bem, como o hedonismo que identifica o bem com o prazer, vão dar origem a vários tipos de consequencialismo. As segundas, acham que há outros factores a ter em conta para além da promoção do bem, nomeadamente introduzem  restricções à acção, ou seja, admitem a existência de limites na nossa procura de aumentar o bem no universo como matar uma pessoa inocente para salvar duas e também podem aceitar a existência de opções, isto é que há habitualmente um leque de acções que é permíssivel fazer, na medida em que não somos obrigados a fazer acções que traga mais bem para o universo o tempo todo. Já agora, pode-se entender a ética das virtudes no nível factorial como a tese de que as restricções à promoção do bem e opções são formuladas recorrendo ao vocabulário de virtudes e vícios, contrastando com outro tipo de deontologia que formula as suas restricções e opções com base em direitos e obrigações.
No nível fundamental, o objectivo é que a teoria explique porque é que são aqueles factores e não outros os moralmente relevantes, e porque é que interagem daquela maneira e não de outra. Em suma, pretende-se dar uma justificativa teórica do mecanismo para determinação da correcção de uma acção que foi dado no nível anterior.  Tipos de teorias que temos aqui seriam, para dar apenas alguns exemplos: Consequencialismo fundamental, Egoismo psicológico, Contratualistas.
O Consequencialismo fundamental é a tese de que a promoção impessoal do bem é o padrão moral fundamental (ao contrário do Egoismo psicológico que nos diz que a promoção do bem do próprio agente é que é o padrão moral fundamental). Poder-se-ia perguntar em que é que isto difere do Consequencialismo factorial apresentado há pouco, sendo a resposta que este não implica aquele nem vice-versa (embora seja obviamente possível defender os dois).  Alguém pode achar que a melhor maneira de promover a obtenção de estados de coisas intrinsecamente valiosos não é só ter em conta essa promoção, por exemplo porque é incompatível com o funcionamento da psicologia humana fazer sempre o melhor a cada momento, mas fazer acções que sejam permitidas por um sistema de regras que se fosse adoptado traria as melhores consequências, sendo que esse sistema de regras terá restrições e opções. Deste modo, teriamos um consequencialismo fundamental e uma deontologia factorial.
Para mostrar como o oposto também é possível, isto é, sermos consequencialistas no nível factorial e justificar essa perspectiva sendo não consequencialistas no nível fundamental basta tomarmos o contratualismo. O contratualismo é a perspectiva no nível fundamental de que a lista dos factores moralmente relevantes é obtida através de um acordo de partes contratantes, dadas certas motivações e a informação disponível a esses intervenientes. Ora, não há nenhuma contradição em supor que as partes contratantes chegariam a um acordo em que só sancionassem uma única regra moral: Promoção impessoal do bem. Se assim fosse, o consequencialismo factorial seria justificado por um contratualismo no nível fundamental.
A recomendação está feita. Leia o Normative Ethics de Shelly Kagan se quiser perceber o que é uma teoria acerca do que é certo e errado. Pessoalmente, acho limitador a ética reduzir-se a Mill e Kant no secundário, achando que uma abordagem sistemática faz mais sentido do que uma histórica, especialmente quando isso é feito à custa de um obscurecimento da diferença entre teorias do bem e teorias do correcto e, relativamente a estas últimas, a existência de dois níveis diferentes de que é preciso dar conta (e, no caso de Kant, ainda muita metaética à mistura com ética normativa). Mas isso é um tópico para outra ocasião.

2 de maio de 2013

Água, H2O, tipos químicos e essencialismo

"Uma molécula individual de H2O não tem quaisquer das propriedades observáveis que associamos com a água. Um copo de água, tão puro como a água pode ser, é melhor entendido como contendo H2O, OH-, H3O+ e outros iões relacionados mas menos comuns, e mesmo isto é uma vasta e excessiva simplificação (se pudéssemos obter água verdadeiramente pura, que não podemos). O nosso melhor entendimento actual das transferências de electrões que dão à água as propriedades que observamos é uma média estatística de interacções, sempre a mudar, que é tão complexa que chega a ser literalmente impensável. De facto, o problema é que "não é que nós estejamos incertos de quais (das distribuições de tipos de) microestruturas é a correcta. O ponto é que não há microestrutura correcta, porque a microestrutura depende tanto do contexto e da função como qualquer outra essência nominal" (van Brakel, 2000b, 80–81). [...] É por isto que os químicos usam o modelo de ‘mistura de iões’ para descrever o comportamento macroscópico da água. A única coisa que podemos dizer sobre um copo de água que não é, estritamente falando, um erro é que a razão média de átomos no copo é 2H : 1O e que tem as propriedades macroscópicas da água. Se existem outros tipos de átomos no copo, ou se a razão é outra, então não temos água pura. Se o raio for o mesmo, mas não tiver as propriedades macroscópicas (pH, ponto de ebulição) da água então não temos água mas apenas uma mistura de oxigénio e hidrogénio nas suas formas elementais. A análise química e os experimentos tratam a água não como uma molécula individuada mas em quantidades macroscópicas. Todas as propriedades típicas observáveis da água – o seu pH, a sua densidade, o seu ponto de ebulição e fusão, a sua utilidade como solvente, são dependentes não apenas da sua razão atómica mas das interacções entre iões dissociados. Filósofos da química têm argumentado este ponto por, pelo menos, 25 anos… [...] Definirmos H2O e D2O como membros do mesmo tipo natural depende de quais são as propriedades das moléculas que nós queremos investigar. Químicos orgânicos, examinando as interacções entre biliões de moléculas numa solução aquosa, vão definir as propriedades essenciais da água como um tipo natural de um modo bastante diferente de um químico físico a estudar moléculas de H2O em estruturas cristalinas, e ambos diferiram do físico a estudar que tipos de quark compõem o protão."
'Why Water Is Not H2O, and Other Critiques of Essentialist Ontology from the Philosophy of Chemistry', em Philosophy of Science vol. 74, no. 5 (December 2007) por Holly VandeWall.

Filosofia no Kindle



A partir de amanhã, e durante alguns dias apenas, a versão Kindle dos meus livros Essencialismo Naturalizado e Pensar Outra Vez, estarão em promoção na Amazon (incluindo a brasileira), sendo oferecidos gratuitamente. O meu livro A Natureza da Filosofia e o seu Ensino deverá ficar disponível em Kindle dentro de alguns dias.

Mais epistemologia...


Aqui uma ótima edição da Veritas só com artigos sobre epistemologia. O volume foi publicado com o título Perspectives in Contemporary Epistemology (2005). 

1 de maio de 2013

Filosofia e Conhecimento

É mais por seu método do que por seu objeto que a filosofia deve ser distinguida das  outras artes e ciências. Os filósofos fazem afirmações com a pretensão de que sejam  verdadeiras, e geralmente se baseiam em argumentos tanto para apoiar suas próprias teorias como para refutar as teorias dos outros; mas os argumentos que  empregam são de caráter especial. A prova de uma proposição filosófica não é, ou muito raro é, semelhante à prova de uma proposição matemática; normalmente não consiste em demonstração formal, nem se parece com a prova de uma proposição em qualquer ciência descritiva. Teorias filosóficas não são verificadas por meio de observação. Elas são neutras com respeito a questões de fato particulares.
Pode-se ler aqui Filosofia e Conhecimento, retirado do memorável The Problem of Knowledge, de A. J. Ayer. Excerto traduzido por Jaimir Conte.