27 de agosto de 2013

Boa nova



Acaba de sair pela Loyola, os dois volumes (I e II) de Apt Belief and Reflective Knowledge (2007; 2009, Oxford UP), de Ernest Sosa. Boa oportunidade para os leitores lusófonos entrarem em contato com a epistemologia contemporânea, mais especificamente com a epistemologia das virtudes. O leitor encontrá aqui uma resenha do primeiro volume, e aqui uma do segundo. 

23 de agosto de 2013

Filosofia em Directo... e ao vivo


Acabo de receber a agradável notícia de que o meu livro Filosofia em Directo continua a merecer a preferência dos leitores portugueses, tendo já ultrapassado o bonito número de 21 500 exemplares vendidos. A todos os leitores do meu livro, o meu muito obrigado. Espero não desmerecer a vossa confiança, e espero que discordem do que escrevi, mas que o livro vos dê instrumentos para discordar de uma maneira mais sofisticada, reflectida e cuidada.

A edição brasileira do meu livro tem por título Filosofia ao Vivo e está à venda nas livrarias brasileiras. Em caso de dificuldade, pode ser comprado no site do editor.

Os leitores poderão gostar também do meu livro Sete Ideias Filosóficas Que Toda a Gente Deveria Conhecer, que é um complemento ao Filosofia em Directo. O Sete Ideias vende-se em Portugal em todas as livrarias, como é o caso da Wook, e no Brasil na Livraria Cultura.

Uma vez mais, muito obrigado a todos os leitores que fazem de Filosofia em Directo um inesperado sucesso de vendas. Espero não desmerecer a vossa confiança.

16 de agosto de 2013

Mais uma do mercado editorial underground brasileiro



Acabo de descobrir a tradução de Consciousness (Cambridge University Press, 2009), de Christopher Hill, publicada em 2011 pela Editora Unesp. Eis a descrição das costas do livro:


Este livro apresenta uma nova e compreensiva teoria da consciência. O capítulo inicial distingue seis principais formas de consciência e delineia um tratamento para cada uma. Os capítulos posteriores focam-se na consciência fenomênica, na consciência de, e na consciência introspectiva. Ao discutir a consciência fenomênica, Hill desenvolve a teoria representacional da mente em novas direções argumentando que estar ciente de algo sempre envolve representações, até mesmo dos estados qualitativos como a dor. Ele então usa essa perspectiva para enfraquecer as abordagens dualistas dos estados qualitativos. Os outros tópicos envolvem o estar ciente visual, as aparências visuais, os qualia emocionais e o processamento metacognitivo. Esta importante obra interessará a um amplo público de alunos e especialistas em filosofia da mente e ciência cognitiva. 

12 de agosto de 2013

E se o pensamento moral for irredutível ao pensamento amoral?

A propósito da nota do Lucas, considere-se o seguinte: imagine-se que a justificação moral é irredutível a outras justificações (penso que algo como isto faz parte da concepção de Enoch). Uma razão para isso seria que os conceitos morais são primitivos, irredutíveis a conceitos não-morais.

Agora considere-se três tipos de justificação última da moralidade: a utilitarista, a contratualista e a kantiana. Estas são as justificações mais influentes. Todas estão erradas, parece-me, se a justificação moral for irredutível a outros tipos de justificação. Vejamos porquê.

O utilitarismo defende que o princípio moral último é a maior felicidade para o maior número de agentes morais relevantes. Ou este princípio é circular ou comete uma versão da falácia naturalista, violando a irredutibilidade da moralidade. É circular caso não se explique de modo não-moral o que é um agente moral relevante e por que razão cada agente moral tem o dever de promover a felicidade máxima de todos os outros agentes morais. Se escaparmos da circularidade, dando uma prova naturalista do princípio, como Mill, viola-se a irredutibilidade da moralidade, cometendo uma versão da falácia naturalista. O realista moral irredutibilista tem de aceitar a opção 1; mas sem a ilusão da redução da segunda via está longe de ser óbvio que o princípio seja verdadeiro (por que raio tenho o dever de promover a felicidade de todos os agentes morais relevantes, tenha eu ou não contacto moralmente relevante com tais agentes? Sou um mero ser humano, ou uma divindade?)

Considere-se agora a justificação contratualista: temos o dever de fazer o que vemos que deve ser feito sob o véu da ignorância. Só que há duas maneiras de conceber o véu da ignorância: ou tento decidir tendo sem ter em conta considerações morais, ou tendo-as em conta. No primeiro caso violamos a irredutibilidade do moral ao amoral, cometendo portanto uma versão da falácia naturalista. No segundo, é circular. No primeiro caso, decido que os mais ricos têm o dever de financiar os mais pobres, porque estou a pensar amoralmente: terei pouco a perder se for rico, mas muito a ganhar se for pobre. Mas o resultado é apenas uma decisão amoral, sem legitimidade moral se a moralidade for irredutível ao pensamento amoral. No segundo caso, que é a via de quem pensa que a moralidade é irredutível à moralidade, tomo decisões não tendo apenas em conta os meus interesses egoístas, mas tendo em conta o que é justo e injusto, de modo que não serve para descobrir quais são os princípios de justiça se eu não souber já o que é e o que não é moral fazer.

Considere-se agora a justificação kantiana: tenho sempre o dever de cumprir o imperativo categórico em cada situação. E o que é o imperativo categórico em cada caso? É apenas uma versão de raciocínio imparcial amoral, com a justificação adicional de que violar esta imparcialidade é irracional porque conduz a contradições lógicas ou incoerências. Em última análise, tenho o dever de fazer algo quando não o fazer envolve um certo tipo de irracionalidade. Como é evidente, isto é uma justificação amoral da moralidade, pois pressupõe que agir moralmente é apenas uma questão de agir racionalmente. Se a tese da irredutibilidade do pensamento moral estiver correcta, esta justificação está incorrecta porque comete uma vez mais uma versão da falácia naturalista. Uma maneira de não o fazer é declarar que tenho o dever de fazer algo não porque não o fazer seja irracional, mas exclusivamente porque não o fazer é imoral. Neste caso, ficamos sem maneira de estabelecer qual é o imperativo categórico em cada caso, ao passo que na versão original de Kant temos pelo menos um guia: a imparcialidade máxima.

Se eu tiver razão em algumas destas reflexões, considerar que o pensamento moral é irredutível a conceitos não morais tem efeitos mais radicais do que talvez pareça à primeira vista. Explorar esta opção parece-me um trabalho interessante. Intuicionistas como Moore fizeram-no, mas o pensamento deles é hoje pouco conhecido. O que mais se conhece é o utilitarismo, o kantismo e o contratualismo, teorias que me parecem pouquíssimo promissoras caso o pensamento moral seja irredutível. Isto não é dizer que estas três teorias estejam erradas; têm elementos de verdade, mas estão erradas enquanto teorias da fundamentação da moral. São antes teorias que, adequadamente entendidas, falam de alguns aspectos importantes do pensamento moral (como a imparcialidade), mas pecam por tornar condições necessárias da moralidade em condições suficientes.

E o que pensam os leitores?

Realismo Moral Não Naturalista




Acabo de saber do lançamento do livro Taking Morality Seriously: A defense of Robust Realism, escrito por David Enoch. Essa é uma ótima surpresa dada a onda irracional de naturalismo e cientificismo que tem atingido a filosofia. Um excerto sobre o livro disponibilizado pela editora diz o seguinte: 

"Em Taking Morality Seriously: A Defense of Robust Realism, David Enoch desenvolve, argumenta e defende uma posição realista e objetivista forte da ética e da normatividade em geral. Essa posição – segundo a qual há verdades morais e outras verdades normativas perfeitamente objetivas e universais que não podem de maneira alguma ser reduzidas a outras verdades naturais – é familiar, porém esse livro é o primeiro desenvolvimento detalhado das motivações positivas a favor dessa posição colocada em argumentos razoavelmente precisos. E quando o livro se torna defensivo – defendendo o Realismo Robusto contra as objeções tradicionais – ele mobiliza os argumentos originais positivos a favor dessa posição para ajudar com a defesa contra as objeções. 
A principal motivação subjacente a favor do Realismo Robusto desenvolvida no livro é a de que nenhuma outra posição metaética pode justificar a nossa consideração séria pela moralidade. Os argumentos positivos desenvolvidos aqui – o argumento da indispensabilidade deliberativa de verdades normativas, e o argumento das implicações morais da objetividade metaética (ou da sua ausência) – são, portanto, argumentos a favor do Realismo Robusto que são sensíveis às motivações pré-teóricas subjacentes a favor dessa posição."

David Enoch vem se destacando na defesa do realismo moral não naturalista (veja a sua entrevista de 2012 feita pela revista 3.AM) e recentemente disponibilizou um artigo chamado Why I am an Objectivist about Ethics (And Why You Are, Too) no qual explicita e defende as motivações de ser um realista moral, bem como tenta mostrar que rejeitar o objetivismo moral não é uma tarefa muito convincente. 

Para aqueles interessados em ética e metaética, ou curiosos sobre o Realismo Moral, vale a pena conferir.

7 de agosto de 2013

A Crítica a blogar há 5 anos


Exactamente há cinco anos atrás Desidério Murcho dava as boas-vindas
a este espaço de divulgação e discussão.


Que memórias têm daquilo que aqui se divulgou e discutiu?

O que foi para si o melhor e o pior?

3 de agosto de 2013

Naturalismo



Eis outra boa nova editorial: Naturalismo, de Jack Ritchie. É a tradução, feita por Fábio Creder, e publicada pela Vozes, de Understandig Naturalism, Acumen, 2008. Embora não faça um levantamento completo do naturalismo filosófico,  Ritchie apresenta algumas posições naturalistas centrais em epistemologia, metafísica e filosofia da linguagem (deixando de fora a ética, infelizmente) -- a epistemologia naturalizada de Quine, o fiabilismo, o fisicismo, o deflacionismo quanto a verdade, a atitude ontológica naturalista, etc. Acessível e de leitura fácil, Naturalismo é uma boa introdução ao tema. Pode-se encontrar aqui uma resenha publicada na Notre Dame Philosophical Reviews

Sumário
Introdução
1- A filosofia primeira
2- Quine e a epistemologia naturalizada
3- O confiabilismo
4- A filosofia da ciência naturalizada
5- Naturalizando a metafísica
6- Naturalismo sem fisicalismo?
7- Significado e verdade
Conclusão