30 de outubro de 2013

Cientistas provam a existência de deus

A notícia surge nos jornais deste modo e refere-se à formalização do teorema relativo à existência de deus desenvolvido por Kurt Gödel.



Gödel, amigo de Albert Einstein, e que goza entre a comunidade científica de reputação semelhante, desenvolveu o argumento que agora foi “provado automaticamente em poucos segundos” e que poderá ter aplicações em áreas como a Inteligência Artificial ou a verificação de software e hardware.

Pode ler-se uma descrição detalhada do argumento ontológico de Gödel a favor da existência de deus na Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos, segunda edição.



(agradecemos ao Pedro Lopes pela informação)

22 de outubro de 2013

Peter Singer ensina Ética Prática (grátis)

A partir de Março de 2014, Peter Singer irá apresentar on-line o seu famoso curso de Ética Prática. Neste curso gratuito apresentará de forma introdutória algumas das questões éticas com que nos podemos confrontar no dia-a-dia ou como cidadãos do mundo.



Alguns dos tópicos abordados serão:
  •  Morte cerebral e estado vegetativo persistente (como devemos tratar os indivíduos que estão em estado vegetativo persistente?);
  • Aborto e a condição moral dos embriões e dos fetos (quando, se alguma vez, se justifica o aborto?);
  • Tomando decisões finais sobre a vida (pode a eutanásia e o suicídio médico assistido justificar-se?); 
  • Altruísmo eficaz (qual é a nossa responsabilidade para com as pessoas mais pobres do que nós, qual é a melhor causa e quais são as melhores opções de carreira?); 
  • Alterações climáticas (em que princípios devem as nações acordar quanto à extensão das suas emissões de gases de efeito estufa?);
  • Animais (a igualdade só se aplica a seres humanos?);
  • Valores ambientais (pode alargar-se a ética para além da fronteira da nossa própria espécie, para algo que não sente nada, como plantas, ou a algo que nem sequer tem vida, como montanhas e riachos?);
  • Porquê agir eticamente? (qual é o significado da vida, e o que é levar uma vida boa?). 

19 de outubro de 2013

Neurociência Homunculista (Colin McGinn)

Imagem retirada daqui.

"Aqui eu preciso dizer algo sobre a linguagem padrão que a neurociência veio a assumir nos últimos cinquenta anos. Mesmo livros sóbrios de neurociência nos dizem, rotineiramente, que partes do cérebro “processam informação”, “enviam sinais” e “recebem mensagens” – como se isso fosse tão incontroverso quanto a ocorrência de processos elétricos e químicos no cérebro. Nós precisamos examinar esse linguajar com cuidado. Por que exatamente se pensa que o cérebro pode ser descrito desse modo? Ele é uma coleção de células biológicas como qualquer órgão do corpo, à maneira do fígado ou coração, os quais não são suscetíveis de ser descritos em termos de informação. Dificilmente se pode afirmar que nós observamos transmissão de informação no cérebro, como observamos processos químicos; essa é uma descrição puramente teórica do que está ocorrendo. Então qual é a base para a teoria?

A resposta deve ser certamente que o cérebro está causalmente conectado à mente e a mente contém e processa informação. Isto é, um sujeito consciente tem conhecimento, memória, percepção e o poder da razão – eu tenho vários tipos de informação à minha disposição. Sem dúvida eu tenho essa informação por causa da atividade em meu cérebro, mas daí não se segue que meu cérebro também possua tal informação, muito menos as partes microscópicas dele. Por que nós dizemos que linhas de telefone transmitem informações? Não porque elas sejam intrinsecamente informacionais, mas porque sujeitos conscientes estão em cada extremidade da linha, trocando informação no sentido ordinário. Sem os sujeitos conscientes e seus estados informacionais, fios e neurônios não seriam justificadamente descritos em termos de informações.

O erro é supor que fios e neurônios são homúnculos [pequenos homenzinhos] que de algum modo imitam indivíduos humanos em seus poderes de processamento-de-informação; em vez disso eles são simplesmente o background causal para as transações genuinamente informacionais. O cérebro considerado em si mesmo, independentemente da mente, não processa informação ou manda sinais ou recebe mensagens, não mais do que o coração o faz; pessoas processam informação, e o cérebro é o mecanismo subjacente que as torna capazes disso. É simplesmente falso dizer que um neurônio literalmente “envia um sinal” para outro; o que ele faz é se envolver em certas atividades químicas e elétricas que estão causalmente conectadas às genuínas atividades informacionais.

A ciência contemporânea do cérebro está assim repleta de um injustificado linguajar homunculista, apresentado como se fosse ciência sóbria e estabelecida. Nós descobrimos que fibras nervosas transmitem eletricidade. Nós não descobrimos, no mesmo sentido, que elas transmitem informação. Nós simplesmente postulamos essa conclusão através de falsamente modelar neurônios sobre pessoas. Para colocar a questão um pouco mais formalmente: estados neuronais não têm conteúdo proposicional da maneira que estados mentais têm conteúdo proposicional. A crença de que Londres é chuvosa literal e intrinsecamente contém o conteúdo proposicional de que Londres é chuvosa, mas nenhum estado neuronal contém esse conteúdo desse modo – em oposição a contê-lo metafórica ou derivativamente (John Searle por muito tempo tem defendido com vigor esse tipo de ponto).

E há um perigo teórico nesse linguajar relaxado, porque ele promove a ilusão de que nós entendemos como o cérebro pode dar origem à mente. Um dos atributos centrais da mente é a informação (conteúdo proposicional) e há uma difícil questão sobre como estados informacionais podem vir a existir em organismos físicos. Nós estamos iludidos se pensamos que podemos fazer progresso nessa questão ao atribuir estados informacionais ao cérebro. Para ser justo, se o cérebro processasse informação, no sentido pleno da palavra, então ele seria capaz de produzir estados como crenças; mas simplesmente não é literalmente verdade que ele processa informação. Assim, nós ficamos devidamente nos perguntando como atividade eletroquímica pode gerar estados genuinamente informacionais como conhecimento, memória e percepção. Como tantas vezes, o linguajar homunculista dissimulado gera uma ilusão de compreensão teórica."

Colin McGinn, Homunculism
Resenha de “How to Create a Mind: The Secret of Human Thought Revealed” de Ray Kurzweil (21 de Março 2013)
(Agradecemos a tradução de Lauro Edison)

9 de outubro de 2013

Democracia à venda é o fim da Democracia?

Nesta palestra Michael Sandel refere-se à passagem de uma economia de mercado para uma sociedade de mercado, em que tudo vai estando à venda e depende do nosso poder de compra: a saúde, a justiça, a educação, a política, etc.




Numa mudança desta natureza, para além da óbvia acentuação da desigualdade, Michael Sandel aponta motivos para não se colocar um preço em certos bens morais e cívicos. E o nosso leitor, o que pensa?

8 de outubro de 2013

Teoria do conhecimento



Publicado recentemente, a Introdução à Teoria do Conhecimento, de Dan O'Brien, é um livro acessível,  informado, rigoroso e actual. O autor começa por apresentá-lo assim:


Ao longo do livro usei vários exemplos retirados da literatura e, em especial, do cinema. As histórias dos filmes e dos livros são frequentemente do conhecimento geral, o que pode dar origem a animadas discussões nas aulas acerca dos aspectos filosóficos do enredo ou da caracterização das personagens de uma obra em particular. Este tipo de interdisciplinaridade deve ser incentivado. A filosofia não deve ser vista como uma disciplina árida e académica divorciada da vida quotidiana. Tempos houve ao longo da sua história em que tal aconteceu: ocorre-nos imediatamente o estereótipo dos filósofos medievais esgrimindo argumentos enigmáticos para determinar quantos anjos caberiam numa cabeça de alfinete. Ainda hoje, se atentarmos em certas revistas filosóficas, podemos observar que muitos artigos de investigação são igualmente idiossincráticos e inacessíveis. Existe o perigo de a filosofia se tornar inacessível e desinteressante para as pessoas que vivem fora dos departamentos de filosofia das universidades. Os problemas filosóficos que iremos examinar neste livro são aqueles que dizem respeito ao conhecimento — uma noção que faz parte do nosso dia a dia. Esses problemas vêm sendo debatidos há milhares de anos e podem ser iluminados quer pela leitura de grandes filósofos do passado como Platão, Descartes e Hume, quer pela interpretação das obras de escritores e cineastas que são eles próprios confrontados, ainda que indirectamente, pelas mesmíssimas questões.