14 de maio de 2014

12 de maio de 2014

Mais um Clássico em Português



Depois da publicação do excelente Representar e Intervir, de Ian Hacking, a EDUERJ lança um clássico da filosofia da ciência, A teoria física: seu objeto e sua estrutura, do físico, historiador e filósofo da ciência, Pierre Duhem (1861-1916). É nesta obra, de 1906, que Duhem apresenta a tese da subdeterminação (que mais tarde foi popularizada e fortalecida por Quine): para qualquer teoria que dê conta das nossas experiências (ou dos fenômenos), sempre haverá outra teoria (possivelmente incompatível) que igualmente dá conta das mesmas experiências. Essa tese provém da ideia de que as previsões feitas por uma teoria são consequências da conjunção dos enunciados dessa mesma teoria mais um conjunto de hipóteses auxiliares. Assim, se a previsão for verdadeira, não podemos saber exatamente qual parte da conjunção é confirmada; do mesmo modo, se for falsa, não podemos saber exatamente quais enunciados são falsos. A subdeterminação surge justamente porque é sempre possível alterar alguns enunciados da teoria (ou rejeitar algumas hipóteses auxiliares) de modo a serem compatíveis com as nossas experiências.  
Outra ideia defendida por Duhem é o instrumentalismo sintático não-eliminativista. Ele sustenta que o objetivo da ciência não é fornecer explicações da realidade observável. É, antes, fornecer uma estrutura matemática, ou modelo, que organize e classifique as nossas experiências; ou seja, salvar os fenômenos. A razão disso é que ele pensa que explicar um fenômeno envolve sempre o apelo à realidade por trás dos fenômenos, algo que está fora do alcance do nosso poder de observação. Os enunciados teóricos (sobre inobserváveis), como não podem ser confirmados pela experiência, têm um papel apenas instrumental: são convenientes ou não para a construção de um modelo. Esse instrumentalismo é não-eliminativista porque Duhem rejeita a ideia de que poderíamos eliminar os enunciados teóricos fazendo-se paráfrases contendo apenas termos observáveis. Em suma, tudo o que importa para uma teoria é a sua adequação empírica, i.e., a verdade dos enunciados observacionais. 
O livro é muito bem argumentado e recheado de exemplos históricos. Leitura obrigatória. 

O último livro de Peter Singer





Depois da recente tradução para português da obra principal de Henry Sidgwick ("Os Métodos da Ética", por Pedro Galvão), Peter Singer apresenta-nos esta nova contribuição para o entendimento da filosofia moral. Este livro pretende mostrar que o utilitarismo deste filósofo do século XIX se mantém apelativo e vigoroso mesmo nos nossos dias, destacando-se alguns pontos: 


O que é que a ideia de tomar em consideração “o ponto de vista do universo” nos pode dizer sobre a ética? Henry Sidgwick usou esta metáfora para apresentar aquilo que acreditava ser uma verdade moral auto-evidente: o bem de um indivíduo não tem mais importância do que o bem de qualquer outro. Defendeu que os julgamentos éticos são verdades objectivas que podemos conhecer pela razão. Os axiomas éticos que ele considerou serem auto-evidentes fornecem uma base para o utilitarismo. Ele complementa esta justificação com um argumento que nada, excepto os estados de consciência, tem valor definitivo, o que o levou a afirmar que o prazer é a única coisa que é intrinsecamente boa.

Serão estas reivindicações defensáveis​​? Katarzyna de Lazari-Radek e Peter Singer testam-nas contra uma variedade de pontos de vista defendidos por escritores contemporâneos em ética, e concluem que são. Este livro é, portanto, uma defesa do objectivismo na ética, e do utilitarismo hedonista. Os autores também exploram, e na maior parte dos casos apoiam, as visões de Sidgwick sobre muitas outras questões fundamentais da ética: como justificar uma teoria ética, a importância de uma explicação evolutiva dos nossos juízos morais, a escolha entre o utilitarismo das preferências e o utilitarismo hedonista, o conflito entre o interesse próprio e a benevolência universal, se algo que seria errado fazer abertamente pode estar certo, se for mantido em segredo, quão exigente é o utilitarismo, se devemos desconsiderar o futuro, ou favorecer aqueles que estão em pior situação, o estatuto moral dos animais, e o que é a população ideal.


(Informação retirada daqui)

Adenda: pode ler-se aqui o prefácio desta obra (via Domingos Faria)