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Cálculo ético

 ​Imagem retirada deste vídeo


Normalmente consideramos o sofrimento humano mais importante que o sofrimento dos animais não-humanos.

Mas se tentássemos calcular essa diferença, imaginemos que chegávamos à seguinte conclusão: a vida e o sofrimento humano são mil vezes mais importantes do que a vida e o sofrimento de animais não-humanos.

Quanto a esta relação, 1 para 1000, para não ficarmos entre aquele que diria “quanto mais conheço as pessoas, mais gosto dos animais” e aquele que diria “não me comparem a ostras, nem que seja a um milhão”, podemos pensar que o 1 pode ser uma pessoa qualquer (um genocida ou um altruísta eficaz) e os 1000 também podem ser quaisquer animais (inclusive as ostras ou todos os animais de estimação que já tivemos ou conhecemos).

Então, caso pensássemos que poderíamos ter um papel activo nessa equação, por cada 1000€ que doássemos para impedir o sofrimento e a morte de um ser humano, não deveríamos também doar pelo menos 1€ para impedir o mesmo relativamente a animais não-humanos?

Se assim fosse, considerando que por ano morrem cerca de 50 milhões de seres humanos (de todo o tipo de doenças, acidentes, etc.) e que por ano são mortos mais de 150 mil milhões de animais não-humanos (só na industria alimentar), portanto o equivalente a 3 mil animais para cada ser humano, não deveríamos então doar 3 vezes mais para causas que defendem os direitos dos animais?

E como seria esse cálculo aplicado aos insectos

Comentários

  1. Muito interessante que essa questão seja trazida à tona. Da minha parte, concordo com a tese de que, dada a quantidade gigantesca de animais não humanos mortos, em comparação às mortes de humanos, a luta pelos animais não humanos deveria receber prioridade em termos de doações (talvez não só de dinheiro, mas de tempo também). Acredito que a única maneira de não chegar a essa conclusão é adotar um ponto de vista especista (o qual há boas razões para rejeitar).

    Eu gostaria apenas de acrescentar que a situação dos animais não humanos se revela ainda mais agravante se levarmos em conta o sofrimento e morte do qual padecem no mundo selvagem. Normalmente, os trabalhos em ética animal centram-se na discussão em torno dos danos causados pelo uso dos animais não humanos enquanto recursos (uso como comida, por exemplo). É compreensível que esse seja o enfoque central, mas penso que isso se deva em parte à crença amplamente difundida de que a vida padrão dos animais na natureza esteja acima de um ponto onde vale a pena ser vivida (o que vem sendo conhecido como visão idílica da natureza).

    Recentemente, contudo, vários autores (Yew-Kwang Ng, Oscar Horta, Brian Tomasik e David Pearce, por exemplo), tem desafiado essa visão. Em dinâmica de populações, devido à predominância da estratégia reprodutiva conhecida como seleção-r, os processos naturais maximizam o número de seres sencientes que nasce apenas para morrer de inanição e nada mais (portanto, suas vidas contém uma alta predominância de desvalor, seja levando-se em conta o sofrimento extremo da morte por inanição e/ou a morte prematura). Isso é assim porque a maioria das espécies animais perdura ao longo de gerações por produzir um número gigantesco de crias (centenas, milhares, até milhões por gestação), sendo que, em média, apenas um descendente por indivíduo sobrevive até à maturidade sexual. Todo o restante morre antes, geralmente de inanição.

    Esse número é tão astronômico que faz com que os números do uso de animais (somando-se os número do uso como comida, experimentos, vestimenta, entretenimento, etc.) quase desapareçam, em comparação. E, isso é assim mesmo que fôssemos supor, para efeito de argumentação, que apenas 10% de todos esses animais que morrem por inanição devido à seleção-r chegam a ser sencientes. O mesmo vale para a questão dos insetos. O número de insetos é tão "astronômico" (estima-se que seja de 10^18 a 10^19) que mesmo que uma pequena porcentagem deles for senciente, ainda assim seria um número gigantesco de animais com que deveríamos nos preocupar.

    Geralmente esse cenário da maximização do sofrimento dos animais devido aos processos naturais é trazido à tona como uma redução ao absurdo da ética animal. Mas, há cada vez mais gente reconhecendo que esse alto grau de sofrimento levanta uma questão ética bem séria para nós. É nesse sentido que a menciono aqui, com vistas a mostrar que os males que os animais não humanos padecem é de uma escala maior ainda do que comumente costumamos considerar. Penso que deveríamos nos preocupar tanto com os males que advém do seu uso como recursos, quanto os males provocados pela natureza.

    Se alguém tiver interesse nessa questão da maximização do número de mortes e do sofrimento dos animais devido à predominância da seleção-r, um artigo que apresenta uma argumentação bastante clara é este do professor Oscar Horta ("Debunking the Idyllic View of Natural Processes"):

    http://masalladelaespecie.files.wordpress.com/2012/05/debunkingidyllicviewhorta.pdf

    Abraços e obrigado por trazerem o tema para discussão!

    Luciano Carlos Cunha

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  2. Se refletirmos honestamente, sem pormos a nossa espécie em primeiro lugar, todo o ser humano é um tirano, que mata, tortura, humilha, explora o outros seres vivos. Terá necessidade disso para sobreviver? Não sei.

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