25 de novembro de 2015

Kit para detecção de disparates

Carl Sagan




"Na ciência é possível começar com resultados experimentais, dados, observações, medidas e «factos». Inventamos, se isso for possível, uma lista interminável de explicações plausíveis e confrontamos sistematicamente cada uma delas com os factos. No decurso da sua formação, os cientistas recebem um kit para detecção de disparates, a que recorrem sempre que se confrontam com novas ideias. Se a nova ideia resiste à análise com os instrumentos do kit, recebemo-la de braços abertos, embora com cautela. Se uma pessoa estiver na disposição de não engolir disparates, ainda que seja tranquilizador fazê-lo, há precauções que pode tomar; há um método comprovado pela experiência.

Que contém o kit? Instrumentos para o pensamento céptico. O pensamento céptico é o meio de construir e compreender um argumento racional e — o que é particularmente importante — de reconhecer um argumento fraudulento ou falacioso.

A questão não é se gostamos da conclusão que resulta de uma série de raciocínios, mas se decorre de uma premissa e se esta é verdadeira.

Alguns dos instrumentos referidos são os seguintes:

· Sempre que possível deve haver uma confirmação independente dos «factos».

· Encorajar o debate substantivo das provas por parte dos proponentes de todos os pontos de vista.

· Os argumentos apresentados por autoridades na matéria têm pouco peso — as «autoridades» cometeram erros no passado e voltarão a cometê-los no futuro. Talvez uma maneira melhor de dizer isto seja afirmar que em ciência não há autoridades quando muito há «especialistas».

· Pense em mais de uma hipótese. Se há qualquer coisa a explicar, pense em todas as maneiras diferentes de o fazer. Depois pense em testes através dos quais possa refutar sistematicamente cada uma das alternativas. O que subsiste, a hipótese que resiste à refutação nesta selecção darwiniana entre «hipóteses de trabalho múltiplas», tem uma probabilidade muito maior de ser a resposta certa do que se se tivesse simplesmente aceitado a primeira ideia que nos agradou.

· Tente não ficar muito preso a uma hipótese só porque é sua, ela não passa de uma estação de paragem no caminho da procura do conhecimento. Pergunte a si mesmo porque lhe agrada. Compare-a com as alternativas. Veja se consegue encontrar motivos para a rejeitar. Se não consegue, outros conseguirão.

· Quantifique. Se o que está a explicar tem alguma medida, se envolve alguma grandeza numérica, estará muito mais bem equipado para escolher entre as várias hipóteses possíveis. O que é vago e qualitativo está aberto a muitas explicações. Claro que há verdades a ser procuradas nas muitas interpretações qualitativas que somos obrigados a confrontar, mas encontrá-las ainda é mais estimulante.

· Se há uma cadeia de argumentos, todos os seus elos têm de funcionar (incluindo a premissa) — e não apenas a maior parte.

· A navalha de Occam. Esta excelente regra prática incita-nos, quando confrontados com duas hipóteses que explicam dados igualmente bem, a escolher a mais simples.

· Pergunte sempre se a hipótese pode ser, pelo menos em princípio, refutada. As proposições impossíveis de verificar e refutar não valem grande coisa. Considere a ideia grandiosa de o nosso universo e tudo o que este contém serem apenas uma partícula elementar — por exemplo um electrão — num cosmos muito maior. Mas, se é possível que nunca venhamos a obter informações exteriores ao nosso universo, será a ideia susceptível de refutação? Temos de ser capazes de verificar a validade das afirmações. Os cépticos inveterados têm de ter oportunidade de seguir o seu raciocínio, de repetir as suas experiências e de ver se estas obtêm sempre o mesmo resultado."



Carl Sagan, “Um Mundo Infestado de Demónios”, pp. 266 a 268

Sobre este assunto a Crítica também já publicou dois artigos de Michael Shermer (aqui e aqui), bem como 1 excerto deste livro (Excerto 1).

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