8 de dezembro de 2016

(Cont.) O Tesouro perdido de Wittgenstein?



  LUDWIG WITTGENSTEIN | NCMallory Flickr

Como alguns dos leitores terão reparado a notícia do último post é de 2011. Por essa altura foram também publicadas estas duas notícias:

Em 2013 o Boletim Philosophy at Cambridge (pág. 6 e 7) e depois o Boletim British Wittgenstein Society, detalhavam assim os nove manuscritos que constituem o arquivo encontrado:
  1. O próprio Livro Castanho original, com frases novas nas suas páginas introdutórias, até então desconhecidas na escrita de Wittgenstein. (Também exibe um número significativo de parágrafos ou frases alemãs escritas à mão por Wittgenstein, nas páginas que estão de frente para o texto em inglês. Estas são muitas vezes traduções variadas, ou, às vezes, estendem a noção aí expressa em inglês.)
  2. Um Livro Cor-de-Rosa, intitulado Livro I e Livro II (composto de 14 200 palavras, bem como muitas ilustrações visuais). Parece ser uma cópia exacta, com revisões e parágrafos ocasionais adicionados por Wittgenstein. É muito diferente dos fragmentos do Livro Amarelo que Alice Ambrose publicou, com apenas algumas sugestões ocasionais de justaposição superior. Há motivos para supor que é o que Wittgenstein desejava escrever em vez do Livro Amarelo ou para o substituir.
  3. "Comunicação de Experiência Pessoal" (com 12 000 palavras, isto compreende a extensão até então desconhecida após o término da versão publicada do Livro Castanho), em forma de cópia exacta, com uma revisão finamente matizada de detalhes escritos à mão por Wittgenstein, e com referências cruzadas com o Livro Castanho.
  4. "Palestras sobre Filosofia" (este manuscrito tem 20 352 palavras, está repleto de datas de conferências, a primeira das quais é declarada como "4.ª f., 17 de Jan." [1934]). É uma série de notas cuidadosamente elaboradas com argumentos e estratégias contínuas que não correspondem a qualquer narrativa publicada.
  5. "Imagem Visual no seu Cérebro" (composto de 3 600 palavras, era provavelmente um ditado particular para Skinner). Observações refinadas em forma de notas de conferência.
  6. "Lições sobre auto-evidência e lógica" (20 544 palavras). Notas de aula com algum detalhe, com evidências de revisão antes da sua forma final. Compreende as palestras de um semestre, com evidências de que o manuscrito foi trabalhado e re-formatado no sentido de se transformar num manuscrito unificado. Embora volte à questão da auto-evidência no Tractatus e esteja preocupado em desafiar as visões de Russell sobre lógica e matemática pura, mesmo assim não é uma repetição de pontos de vista anteriores. Em vez disso, ele desenvolve novamente a negação da auto-evidência.
  7. «Caderno Norueguês» (4 400 palavras) em forma de projecto. Isto foi ditado talvez a Skinner na sua visita a Wittgenstein na Noruega, embora terminado em Cambridge.
  8. "Uma Investigação Matemática". Este manuscrito é inteiramente constituído de formas precisas e incomuns de cálculos. Uma vez que não tem a mão de Wittgenstein expressa nele de forma óbvia, há um problema de atribuição. No entanto, dado que faz parte de um Arquivo que o próprio Wittgenstein reuniu como uma expressão do seu trabalho em conjunto com Skinner, devemos pelo menos deixar espaço para que seja veiculado. Compreende 12 353 símbolos matemáticos — sem qualquer narrativa. Explora questões envolvendo o pequeno teorema de Fermat. O seu desvio das rotas usuais de cálculo complementa explicitamente como a própria filosofia de Wittgenstein expõe possibilidades inesperadas no uso de "regras".
  9. Uma cópia incompleta do Livro Azul. É o único texto dactilografado no Arquivo. Significativamente, termina de forma prematura, aproximadamente no mesmo ponto que uma cópia posterior manuscrita por Skinner.

Numa entrevista em Setembro de 2016, aquele a que chamam o homem mais inteligente do Reino Unido, Arthur Gibson, e que estava responsável pelo conteúdo deste arquivo, disse:
   
"Fiquei impressionado, porque é um arquivo inteiro nunca visto antes e, a maior parte, inteiramente nova. Fornece uma visão dos seus processos de pensamento – é quase como se espiássemos a sua mente".

Mas aparentemente ainda persistem algumas dúvidas sobre o material descoberto, para além das novidades:
"Isto pode ou não ser o item ausente chamado o livro cor-de-rosa ou livro amarelo que os académicos esperam há muito tempo. Há também uma série de milhares de cálculos matemáticos nos quais Wittgenstein examina o pequeno teorema de Fermat. É uma série de cálculos extraordinária, até mesmo bizarra, e ainda assim original"
 E dá a entender que uma avaliação definitiva ainda está por fazer:

"O arquivo mostra que questões revolucionárias imprevistas e novas ainda nos esperam na filosofia de Wittgenstein e no conhecimento científico que nós pensamos incorrectamente que já entendemos."

Em 2013 a nota biográfica de Arthur Gibson no Boletim Philosophy at Cambridge já referia que o arquivo estava preparado para ser convertido num livro cujo título seria "Ludwig Wittgenstein Dictating Philosophy: to Francis Skinner", mas aparentemente este livro ainda não foi publicado.

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