17 de novembro de 2008 Blog

Popper e a verdade

Aires Almeida

Há dias estava eu de viagem quando apanhei alguém na rádio a dizer o seguinte: «como Popper mostrou, uma teoria científica é verdadeira até se provar que é falsa». Não é primeira vez que ouço alguém atribuir isto a Popper.

Trata-se, contudo, de uma grande incompreensão daquilo que Popper defende e Popper não poderia ter afirmado uma coisa tão manifestamente falsa. É daqueles comentários que revelam falta de subtileza filosófica e que consiste em tratar uma questão epistémica como se fosse uma questão metafísica. O que Popper defende é que temos boas razões para acreditar que uma teoria é verdadeira enquanto não se provar que ela é falsa, caso o tentemos fazer seriamente. Ora, ter boas razões para acreditar que P não é o mesmo que P ser verdadeiro. Popper nunca diria que a teoria geocêntrica foi verdadeira enquanto não se provou que era falsa. A teoria geocêntrica sempre foi falsa, mesmo quando acreditávamos justificadamente que era verdadeira.

Custa entender por que razão este tipo de confusão é assim tão persistente.


10 comentários :

Peter of Pan disse...

Aliás, porque Popper até nunca fala em "verdade" nesse contexto. Fala, isso sim, em verosimilhança.

Eduardo Dayrell disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eduardo Dayrell disse...

Interessante essa distinção entre epistemologia e metafísica na maioria das vezes não ser percebida!

Não só nesta questão popperiana, mas principalmente nas questões que envolvem algum tipo de relação entre epistemologia e metafísica.
Por exemplo, na discussão de conceitos vagos é equivocado raciocinar dizendo que não há limites definidos das extensões dos conceitos vagos porque somos incapazes de conhecer esses limites nesses conceitos.
Ora, o fato de não identificarmos ou conhecermos algum objeto não justifica a crença metafísica de que esse mesmo objeto não exista.

Esse é um equívoco muito recorrente na filosofia.

Vitor Guerreiro disse...

As pessoas tendem a não ser capazes de separar aquilo que pensam das coisas e as próprias coisas. Talvez seja por isso que o relativismo é tão popular e ubíquo e que o pós-modernismo tem um sex-appeal tão desgraçadamente forte.

Qualquer tese que nos diga que sem o nosso pensamento a realidade não pode existir ou pelo menos não sem grandes prejuízos para a realidade, é muito atraente... talvez tenha uma raiz biológica, não sei. Uma consequência lateral do instinto de preservação? Queremos tanto preservar-nos que vemos o nosso pensamento atrás de todas as coisas?

Pedro disse...

aires, apontas bem a incompreensão, mas tenho reservas quanto à tua interpretação de popper. o que popper defende realmente, parece-me, é que nunca temos razões para acreditar que uma teoria seja verdadeira. podemos, claro, encontrar razões para acreditar que uma teoria é falsa. e se, apesar dos esforços feitos para refutar uma teoria, permanecermos sem razões para crer na sua falsidade, tudo bem, podemos continuar com a esperança de que ela seja verdadeira. mas ainda assim não teremos razões (nem mesmo razões inconclusivas) para acreditar que é verdadeira. eu acho que isto é um enorme disparate, mas é o que popper defende -- de forma pouco clara, talvez -- e é o que ele tem de defender, dado que rejeita a indução e a confirmação.

abraço,
pedro

Aires Almeida disse...

Sim, Pedro, o que dizes faz sentido. Obrigado pela precisão. Reconheço que o meu comentário é demasiado caridoso com Popper, que se deixa embrulhar de forma pouco clara nesta questão. Até porque, como refere o Peter of Pan, ele não fala mesmo de verdade, mas de verosimilhança. Só não vejo por que razão ele teria de defender isso, mesmo rejeitando a indução e a confirmação. Não podemos rejeitar a indução e, mesmo assim, ter boas razões para acreditar que uma dada teoria é verdadeira? Podemos, por exemplo, não ter qualquer razão de tipo indutivo para acreditar que P e ainda assim ter boas razões para acreditar que P é verdadeiro; podemos justificar a nossa crença na verdade de P argumentando a favor da melhor escolha, por exemplo. Não achas?

Vitor Guerreiro disse...

É que ter boas razões para acreditar que P é verdadeira não exclui a possibilidade ou o facto de haver razões para acreditar que P não é verdadeiro. E nem todas as razões tÊm de ser excelentes razões. Podem ser apenas indícios, melhores ou piores.

Isto faz confusão, normalmente, porque as pessoas tendem a pensar que ter razões para acreditar que P é exactamente o mesmo que P ser verdade. É por isto que a nossa falibilidade é tão mal compreendida. (o que em si é mais um indício da nossa falibilidade).

Há uma diferença entre ter razões para acreditar que P e decretar veementemente que P. Normalmente há confusão porque não nos libertamos da mania dos decretos.

Outra razão porque o PROCESSO da discussão racional, que não tem fim à vista, o da confrontação de razões e teste permanente das crenças, afirmações, indícios, argumentos, métodos...

Tudo variações de uma confusão básica: entre a verdade, o mundo, e o que pensamos acerca de ambos.

Pedro disse...

olá, aires!

«Não podemos rejeitar a indução e, mesmo assim, ter boas razões para acreditar que uma dada teoria é verdadeira?»

Repara: estamos a falar de teorias (portanto, de afirmações estritamente universais) das ciências empíricas. Se rejeitas a indução, dizes que nenhuma afirmação observacional poderá alguma vez apoiar, por pouco que seja, uma teoria científica. E não vejo como podes ter razões suficientemente fortes para acreditar que uma teoria científica é verdadeira se não te baseares minimamente em dados empíricos. (A mera consistência lógica de uma teoria, por exemplo, nunca é razão suficientemente forte para acreditar na sua verdade.) Portanto responderia negativamente à tua pergunta -- mantendo o corolário de que o falsificacionismo de Popper é um disparate neste aspecto crucial, que é o seu aspecto mais distintivo. Abraço,
Pedro

Philip s2 Yasmin disse...

Então,em uma breve resposta...
o que seria a verdade para Popper ??

kelly santos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.

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