20 de setembro de 2009 Blog

Radicalidade, universalidade, historicidade e racionalidade

Aires Almeida

A radicalidade é uma característica de muitas ciências, entre as quais a física. Os físicos não se limitam a perguntar como se comporta um pedaço de matéria quando deixado em queda livre, por exemplo; eles procuram ir mais longe e mais fundo, perguntando "O que é a matéria?". Os biólogos não se limitam a querer saber como se reproduzem e se desenvolvem os seres vivos; eles procuram também responder à pergunta mais radical "Como surgiu a vida?".

A universalidade é uma característica da religião, pois as religiões não procuram explicar apenas alguns aspectos da realidade, mas a realidade como um todo, apresentando-se como uma saber universal e totalizante. Mas também é uma característica da ciência, pois se cada ciência estuda um aspecto da realidade, as ciências no seu conjunto procuram cobrir toda a realidade, exactamente como acontece com a filosofia e as diferentes disciplinas filosóficas.

A historicidade é uma característica da culinária. O modo como se preparam e cozinham os alimentos está fortemente ligado ao contexto histórico e cultural. A culinária é historicamente situada, tal como a sapataria e a ocupação dos tempos livres.

A racionalidade é uma característica do xadrez, pois o jogador de xadrez toma todas as suas decisões de forma racional, antecipando e avaliando de forma criteriosa cenários alternativos.

O que se conclui daqui?

Bom, a avaliar por aquilo que tenho visto em alguns manuais de filosofia e que se atira aos estudantes para papaguear, a filosofia é uma mistura de ciência, religião, culinária e xadrez.


12 comentários :

Desidério Murcho disse...

Em menos palavras, refutaste muito melhor estas inanidades que eu procurei também refutar neste artigo já antigo:

http://criticanarede.com/html/fil_especificidade.html

Hoje, penso que a insistência nestas inanidades não se deve a qualquer escolha consciente e ponderada, mas apenas a um aspecto central do ensino de que só recentemente me apercebi: a síndrome macacal. É esta síndrome que explica este tipo de inanidades. A síndrome consiste em o professor ou autor de livros escolares repetir sem pensar o que ouviu dizer há anos. Por causa desta síndrome, os conteúdos e bibliografias escolares ossificam-se, e mesmo que os livros sejam novos isso é irrelevante porque se limitam a repetir as inanidades dos velhos. Talvez num futuro próximo se descubra uma cura para esta síndrome, e talvez envolva choques eléctricos.

Rolando Almeida disse...

Pois, a síndrome macacal é coisa má em qualquer situação, mas creio que ainda se revela pior quando já não há desculpa para continuar com ela. Em todo o caso talvez seja melhor síndrome macacal a repetir coisas certas do que erros da caca. (síndrome macacal? o conceito soa bem!)

Rui Areal disse...

Excelente!

Anónimo disse...

Sim, muito bom, mas, e aí? Que fazer?

Desidério Murcho disse...

Apresentar a realidade do que é a filosofia. Em vez de procurar definir a filosofia, caracterizá-la, ou seja, apresentar de modo intuitivo e rápido algumas das suas características centrais, que sejam relevantes para o aluno. E passar logo à apresentação das matérias, pois a melhor prova do pudim é comê-lo.

Anónimo disse...

Caro Desidério,

Excelente. Acredito que essa deve ser a tônica e que isso deve ficar bem explícito em qualquer post que trate do assunto. Não adianta apenas elencar problemas, é preciso mostrar soluções, foi só o que faltou ao texto do Aires que é brilhante ao mostrar o defeito.

Abs

Aires Almeida disse...

D. Matos, vou escrever um novo post sobre o que refere. Estava programado fazê-lo, mas antes é importante deixar as pessoas com o problema nas mãos, para poderem pensar por si qual poderia ser o caminho a seguir. Não acha?

Rolando Almeida disse...

Há um primeiro passo decisivo a dar que consiste em abandonar a bibliografia de síndrome macacal. A bibliografia de síndrome macacal conduz a estratégias de ensino de síndrome macacal e à reprodução da síndrome macacal. Por isso, o primeiro passo recai no cuidado da escolha da bibliografia. Aplicado ao caso português, a escolha do manual de ensino é fundamental, já que a maioria dos manuais ainda estão concebidos segundo o estigma da síndrome macacal. O passo mais óbvio, além da escolha da bibliografia é estudá-la. Isto não é coisa do outro mundo.

Sérgio Lagoa disse...

Deixo um desafio: qual será o manual de Psicologia que ainda hoje tem os mesmos textos que uma outra edição do manual já utilizava em 1977?
Quanto à Filosofia, o panorama não é diferente.
E por aquilo que me dizem da Matemática, o mal é pandémico.

Anónimo disse...

Olá Aires,

É uma boa idéia sim, deixar as pessoas pensar acerca do problema é interessante. Vou aguardar seu novo texto.

Jaime Quintas disse...

Caro Aires,

Não quero de modo nenhum refutar a tua conclusão, nem as ilacções a respeito do ensino da filosofia que se estão a fazer com base no teu texto. Sei que o texto não pretendia ser um argumento puro, mas sim uma espécie de "manifesto".

Apenas quero referir que, chamando-se este blogue "Crítica" e sendo a argumentação e a lógica uma das bases de tudo o que aqui vai sendo feito, o teu argumento é no mínimo falacioso.

A brancura é uma característica do carro de meu vizinho.
A textura tipo creme é uma característica do creme da barba.
A doçura é uma característica do doce de morango.
Logo o chantili é uma mistura do carro do meu vizinho, do creme da barba e doce de morango.

Aires Almeida disse...

Boa, Jaime! Acredita que estava à espera de uma objecção do género quando escrevi o post, mas mesmo assim arrisquei ir pelo lado do manifesto porque tenho uma resposta para essa objecção, que é a seguinte: no contexto em causa essas características (radicalidade, historicidade, etc.) são apresentadas como características individuadoras da filosofia. O termo usado não é bem esse, mas diz-se que essas características definem "a especificidade da filosofia".

Ora, se definem a especificidade da filosofia, então é contraditório afirmar que partilham tais características com o que não é filosofia. O resto é brincadeira minha, claro.

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