10 de março de 2019 Blog

Escrever com inteligência

José Oliveira




O mote:

In a shocking finding, scientist discovered a herd of unicorns living in a remote, previously unexplored valley, in the Andes Mountains. Even more surprising to the researchers was the fact that the unicorns spoke perfect English.

Desenvolvimento do mote:

The scientist named the population, after their distinctive horn, Ovid’s Unicorn. These four-horned, silver-white unicorns were previously unknown to science.

Now, after almost two centuries, the mystery of what sparked this odd phenomenon is finally solved.

Dr. Jorge Pérez, an evolutionary biologist from the University of La Paz, and several companions, were exploring the Andes Mountains when they found a small valley, with no other animals or humans. Pérez noticed that the valley had what appeared to be a natural fountain, surrounded by two peaks of rock and silver snow.

Pérez and the others then ventured further into the valley. “By the time we reached the top of one peak, the water looked blue, with some crystals on top,” said Pérez.

Pérez and his friends were astonished to see the unicorn herd. These creatures could be seen from the air without having to move too much to see them – they were so close they could touch their horns.

While examining these bizarre creatures the scientists discovered that the creatures also spoke some fairly regular English. Pérez stated, “We can see, for example, that they have a common ‘language,’ something like a dialect or dialectic.”

Dr. Pérez believes that the unicorns may have originated in Argentina, where the animals were believed to be descendants of a lost race of people who lived there before the arrival of humans in those parts of South America.

While their origins are still unclear, some believe that perhaps the creatures were created when a human and a unicorn met each other in a time before human civilization. According to Pérez, “In South America, such incidents seem to be quite common.”

However, Pérez also pointed out that it is likely that the only way of knowing for sure if unicorns are indeed the descendants of a lost alien race is through DNA. “But they seem to be able to communicate in English quite well, which I believe is a sign of evolution, or at least a change in social organization,” said the scientist.



E se eu lhe dissesse que o mote foi escrito por cientistas e o desenvolvimento do mote foi escrito por uma inteligência artificial, teria passado no seu teste de Turing?

E se essa IA conseguisse argumentar eficazmente a plausibilidade de algo que geralmente acreditamos ser altamente contra-intuitivo? (Por exemplo: respondendo à pergunta “Porque será que a reciclagem é má para o mundo?”, ou divagando sobre o mote: “Os Judeus no Poder”.)

Há muito que se investigam geradores automáticos de texto e a IA já tem dado provas da sua capacidade em tarefas específicas, mas o que está a surpreender no caso do GPT-2 é: 1) a quantidade de informação que tem como base (o equivalente a 35 mil cópias do "Moby Dick") e 2) a sua capacidade de partir sem qualquer conhecimento específico sobre o que é a linguagem e ser suficientemente flexível para conseguir completar tarefas tão diversas como escrever um texto a partir de um tópico, fazer um resumo de um artigo, responder a perguntas de interpretação e fazer traduções -- obtendo resultados iguais ou melhores do que IAs concebidas propositadamente para cada uma dessas tarefas.

Devemos preocuparmo-nos com o facto de o GPT-2 ter aprendido a traduzir sozinho? O que mais terá aprendido a fazer que não sabemos?

Da forma como por vezes a informação falsa viraliza (e muda até o rumo a certos eventos), a que ponto nos devemos preocupar com sistemas com uma capacidade ilimitada de produzir conteúdos falsos, mas cogentes?

Há também a possibilidade desse recurso ser usado em serviços de atendimento para tirar dúvidas a utilizadores, na criação de ficção (criando novos mundos e personagens que até agora escaparam à imaginação humana), no atendimento médico (superando a falta de pessoal especializado e suplantando a capacidade humana de fazer diagnósticos). E o que mais? Parece que a imaginação é o limite, mas já não será só os limites da nossa imaginação...

Mais sobre o assunto aqui e aqui.

5 de janeiro de 2019 Blog

Dar palco ao Erro

José Oliveira
CC0 Creative Commons
Não só a crise da reprodutibilidade no mundo académico, como a crescente facilidade de criar e propagar notícias falsas no mundo digital, encontram neste projecto um desafio.


Trata-se do projecto da psicóloga Julia M. Rohrer – a que chamou Perda de Confiança – e que pretende mudar radicalmente a cultura científica. Para isso criou um espaço em que se publica exclusivamente artigos que coloquem em destaque e a descoberto o erro.

O tipo de estudos elegíveis para publicação terá então de acumular as seguintes características:
  1. O estudo em questão é um relatório empírico de uma nova descoberta;
  2. O autor responsável pela submissão perdeu a confiança no resultado original/central do artigo;
  3. A perda de confiança ocorreu principalmente como resultado de problemas teóricos ou metodológicos com a concepção do estudo ou com a análise de dados;
  4. O autor responsável pela submissão assume a responsabilidade pelos erros em questão.
Com a investigação que tem desenvolvido a autora do projecto refere que encontrou três grandes obstáculos no caminho para a humildade intelectual:
  1. Para que possamos adquirir mais humildade intelectual, todos nós, mesmo os mais inteligentes entre nós, precisamos avaliar melhor os nossos pontos cegos cognitivos. As nossas mentes são mais imperfeitas e imprecisas do que gostaríamos de admitir. A nossa ignorância pode ser invisível.
  2. Mesmo quando superamos esse imenso desafio e descobrimos os nossos erros, precisamos de nos lembrar que não seremos necessariamente punidos por dizer: "Eu estava errado". E precisamos ser mais corajosos a propósito de o dizer. Precisamos de uma cultura que celebre essas palavras.
  3. Nunca alcançaremos a humildade intelectual perfeita. Por isso precisamos escolher as nossas convicções de forma muito ponderada.

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