28 de janeiro de 2021 Blog

Investigações Estéticas: Ensaios de Filosofia da Arte, Jerrold Levinson

Aires Almeida


Acabou de ser publicado pelas Edições Afrontamento o livro Investigações Estéticas: Ensaios de Filosofia da Arte, de Jerrold Levinson, um dos mais destacados filósofos da arte contemporâneos. 

Não se trata da tradução de algum livro pré-existente, mas antes de uma antologia de ensaios do autor, publicados em diferentes volumes. Os sete ensaios reunidos neste volume foram seleccionados por Aires Almeida e Vítor Guerreiro (que foi também o tradutor) e visam dar uma ideia aproximada dos principais contributos do autor para o debate contemporâneo nas diferentes áreas da estética e da filosofia da arte. 

O livro inclui uma introdução dos dois organizadores, na qual procuram esclarecer o leitor sobre a importância do autor e em que apresentam brevemente as teses centrais de cada um dos artigos seleccionados. O próprio Jerrold Levinson, que acompanhou a preparação desta edição, escreveu também uma curta introdução sobre o contexto filosófico e a origem dos ensaios em causa.

Quase todos os ensaios publicados nesta antologia têm sido amplamente citados e debatidos. O mais influente é talvez "Definir historicamente a arte", no qual Levinson propõe uma definição de arte diferente de todas as que até então foram apresentadas. Esta proposta de definição, geralmente referida como definição histórica, é inclusivamente estudada e discutida pelos alunos de Filosofia do 11.º ano, pelo que a sua tradução será certamente muito útil para professores e alunos.

Outro ensaio que está no centro de um debate filosófico muito interessante é "Intenção e interpretação na literatura", no qual se discute se a intenção do autor ao escrever uma dada obra é ou não importante para uma interpretação adequada da obra em causa, de modo a determinar o seu significado. Levinson rejeita o intencionalismo extremo, mas também o anti-intencionalismo (incluindo as perspectivas construtivistas do significado e as da morte do autor), argumentando a favor de uma perspectiva original, designada intencionalismo hipotético. 

O ensaio "Concatenacionismo, arquitectonicismo e a apreciação da música" constitui, por sua vez, uma resposta a várias objecções sobre a tese anteriormente defendida no seu livro Music in The Moment de que a apreciação musical básica de composições musicais extensas não requer uma compreensão da sua estrutura ou arquitectura sonora subjacente, ocorrendo antes de modo não-analítico, por meio de uma concatenação de momentos ou uma espécie de elos que unem pedaços sequenciais de música. Ao contrário do que alguns sugerem, não é preciso ser um musicólogo ou algo parecido para se apreciar adequadamente uma uma sinfonia ou uma sonata.

Igualmente controversa é a sua tese, defendida em "Arte erótica e imagens pornográficas", de que se uma imagem é pornográfica, então não é arte (e, já agora, da sua conversa: se é arte, então não é pornográfica). Está é uma tese que não inclui sequer um pingo de moralismo, pois em nenhum dos seus argumentos Levinson recorre a premissas de carácter moral. Não tem, de resto, problema algum em admitir que há arte que imita imagens pornográficas. Mas sublinha que daí não se infere que se trate de pornografia, procurando esclarecer a diferença entre pornografia e arte erótica. 

Por sua vez, os ensaios "O conceito de humor" e "Reagir com emoção à música" procuram sobretudo mostrar o que está em causa em ambos os casos. Assim, no primeiro caso, Levinson apresenta as principais abordagens à questão da natureza do humor, mostrando que não se trata exactamente de determinar as causas das nossas reacções a situações humorísticas, coisas subtilmente diferentes embora interligadas. Faz ainda um balanço e apreciação crítica das principais respostas à questão da natureza do humor: as teorias da incongruência, da superioridade e da libertação. No segundo destes ensaios faz algo semelhante a propósito da muito debatida questão da relação entre a arte e emoção, abordando os problemas conhecidos como "paradoxo da ficção" e "paradoxo da tragédia", além de apresentar um esboço da sua célebre teoria da persona musical hipotética, que visa explicar em que sentido a música é expressiva. 

No último artigo, intitulado "O valor intrínseco e a noção de uma vida", Levinson parece sair do domínio estrito da estética para esclarecer a noção de valor intrínseco e acabar por defender, de forma muito persuasiva, que não há objectos (pessoas incluídas) nem experiências que tenham valor intrínseco, mas apenas vidas vividas de certas maneiras. 

Bem vindos à estética e filosofia da arte contemporâneas.  

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