17 de maio de 2022 Blog

Regras de Diálogo Cívico

José Oliveira
Foto: Pixabay

A School of Thought, depois do sucesso da divulgação das falácias lógicas e dos vieses cognitivos que minam o raciocínio, o discurso público e o entendimento entre as pessoas, lança agora as Regras de Diálogo Cívico




Assim, antes de se iniciar (ou continuar) um debate de ideias mais ou menos controversas, ambas as partes deveriam comprometer-se às seguintes regras:

  1. Tentar chegar a um entendimento comum, mais do que "ganhar a discussão".
  2. Procurar que os outros me esclareçam para ter a certeza de que compreendo verdadeiramente a sua perspectiva.
  3. Esforçar-me por evitar cometer falácias lógicas ao defender as minhas posições.
  4. Tentar ter em conta os meus próprios vieses e tentar ser intelectualmente humilde.
  5. Tentar ser razoável, racional e criar argumentos coerentes.
  6. Evitar ataques pessoais, sarcasmo e mesquinhez.
  7. Usar o "Princípio da Caridade" para ver o mérito dos pontos de vista dos outros de uma forma tão favorável quanto possível.
  8. Permanecer genuinamente receptivo a mudar de ideias se me forem apresentados argumentos ou provas convincentes.
Será esta uma ideia que vale a pena partilhar?

5 de março de 2022 Blog

Filosofia e a Guerra na Ucrânia

José Oliveira

 

"Campo de Trigo com Corvos" de Van Gogh (Wikipédia)

 

24 de Fevereiro ficará para a História como a data mais terrível das nossas vidas? 

Será o princípio do fim? 

Será que a pena é mais poderosa do que a espada

Pelo menos esta última questão parece fazer sentido para algumas personalidades que têm escrito sobre este momento único. 

Eis então aquilo que escreveram algumas personalidade como Peter Singer, Steven Pinker, Yuval Noa Harari, em breves resumos.

 

Peter Singer

Peter Singer traça um paralelo entre as invasões de Hitler e as de Putin. Para além desse texto, divulgou também nas redes sociais um apelo de um filósofo ucraniano, para que outros filósofos publiquem no site criado para esse efeito: Filósofos pela Ucrânia (conta já, entre outros, com um texto de Martha C. Nussbaum).  

 

De Munique a Moscovo

Por Peter Singer

 

Resumo: Nos prenúncios da Segunda Grande Guerra, Hitler invadiu a Checoslováquia, violando de seguida o Acordo de Munique, Putin fez o mesmo, começando com a anexação da Crimeia e violando de seguida o Memorando de Budapeste. A inacção do mundo outrora face à Checoslováquia, foi também semelhante à que se verificou na actualidade face à Crimeia. Depois seguiu-se o resto da Ucrânia e fica no ar a questão se outros estados com minorias que falam russo se irão seguir, como no caso das sucessivas invasões de Hitler. Mas com uma agravante, Putin detém um vasto armamento nuclear. 

Como se pode então parar Putin? Medidas como sanções económicas e boicotes irão afectar todos os russos, inclusive aqueles que se opõem à guerra. 

Haverá outra maneira de parar Putin? Os especialistas acreditam que uma vitória militar russa é inevitável. 

Perante isto fez-se o apelo aos russos para que parem a guerra (e tem-se assistido por parte dos russos a inúmeros protestos, petições e até apelos à insurgência).   

A seguir é necessário que os soldados russos parem de combater uma guerra injusta. Matar intencionalmente pessoas sem causa suficiente é homicídio e obedecer a ordens não é desculpa, tal como não era desculpa para os que estavam sob o comando de Hitler.

Tornar a Rússia numa pária internacional e implementar sanções suficientemente fortes é especialmente injusto para aqueles que se têm oposto publicamente à guerra. Mas de que outra forma poderão estes esperar substituir Putin por alguém que esteja preparado para cumprir os princípios morais e o direito internacional? 

 

*

Daily Nous

Respondendo ao apelo do Daily Nous, algumas filósofas e filósofos que têm trabalhado no âmbito da ética da guerra escreveram breves ensaios sobre a invasão da Ucrânia por parte da Rússia (via Pedro Galvão): 

 

Ética de Guerra e a Invasão Russa da Ucrânia” 

por Saba Bazargan-Forward

 

Resumo: A Ucrânia pode estar a violar um princípio basilar da ética da guerra: como não se rende, está a provocar derramamento de sangue ineficaz e desnecessário. 

Este texto defende três razões que contrariam esta ideia: 

  1. Ao impor um custo elevado à parte agressora, perante uma agressão internacional injusta, torna menos prováveis agressões do mesmo tipo no futuro.
  2. A decisão de não se render não viola os direitos dos civis que poderão vir a ser mortos, caso esses civis indiquem previamente estarem dispostos a aceitar esse risco (o que parece ser o caso). 
  3. Ao enfrentar adversidades esmagadoras, o povo ucraniano estaria a servir outro propósito útil e moralmente importante: preservar o seu amor-próprio

Assim, mesmo que não se acredite que a resistência ucraniana venha a ser bem sucedida, esta não viola o princípio do derramamento de sangue desnecessário e pode valer a pena. 

Aponta também outras questões no âmbito da ética da guerra: 

  • Será que os combatentes russos, ao empreenderem uma guerra injusta, estão a violar os direitos dos soldados ucranianos? 
  • Será que os EUA têm legitimidade moral para criticar a agressão da Rússia, dada a base duvidosa para a guerra no Iraque, liderada pelos EUA em 2003?
  • Que deveres de ajuda têm outros países em relação à Ucrânia -- especialmente os países que enriqueceram a Rússia e assim financiaram indirectamente as suas forças armadas através da compra de petróleo e gás russo?

 

Por Que Devem os Soldados Russos Baixar as Suas Armas” 

por Jovana Davidovic

 

Resumo: Há quem defenda que não se pode responsabilizar os soldados por lutarem em guerras injustas, seja com base no consentimento, na ignorância ou na estabilidade institucional. Poderíamos apenas responsabilizá-los pela maneira como lutam nas guerras. Ou seja, são responsáveis por aquilo que está sob o seu controlo, mas não simplesmente por lutarem em guerras injustas.

No entanto, face à invasão russa da Ucrânia, os argumentos do consentimento e da ignorância e o argumento da importância da obediência, falham. Assim, em vez de se defender a responsabilização legal dos soldados que lutam em guerras injustas, sugere-se algo mais imaginativo: a objecção de consciência selectiva. Isto também para se mudar as normas sociais de como elogiamos os nossos soldados e para parar de se encorajar que lutem em guerras injustas. 

 

O Armamento de Rebeldes Democráticos no Estrangeiro” 

por Christopher J. Finlay

 

Resumo: Caso as coisas fossem mais simples, o que seria correcto fazer seria óbvio: as democracias deveriam defender os direitos de um estado soberano sob ataque, enviando as suas forças militares para ajudar na defesa nacional. 

Mas face a uma potência que já demonstrou estar pronta a usar armas nucleares, é necessário considerar o perigo de intensificação e alargamento do conflito. 

No entanto, tendo em conta os vários cenários possíveis, disponibilizar armas para que um estado sob ataque se possa defender, sem dúvida acarreta uma série de riscos, mas a não intervenção também acarreta riscos. 

Assim, essa ajuda deve vir o mais breve possível, aproveitando a força democrática ainda presente no terreno.      

 

Ucrânia e a Ética da Guerra” 

por Helen Frowe

 

Resumo: Em geral devemos resistir à distinção entre mortes de civis e de combatentes: não é moralmente melhor matar combatentes que promovam fins injustos do que civis. E há até uma aspecto importante em que matar combatentes é moralmente pior do que matar civis, pois matar combatentes não é apenas errado em si, mas também é um meio de atingir males maiores. 

O facto de neste caso a defesa ser travada em larga medida por pessoal recrutado e civis torna ainda mais perniciosa a natureza desta distinção. 

Ao condenar as mortes, enfatizando que se tratam de civis, damos um ar de legitimidade aos alvos militares. Mas devemos ser categóricos: a Rússia não tem alvos legítimos nesta guerra. 

Ninguém nas forças armadas ucranianas, constituídas por recrutas e civis que se alistaram por causa da ameaça Russa, abdicou dos seus direitos comuns contra agressões por estar a defender o seu país e os seus concidadãos, portanto as suas mortes não contam menos do que as mortes de civis desarmados.  

Travar uma guerra não é moralmente independente do facto de ser justa ou não. Em geral,

 também devemos resistir à ideia de que a guerra responde a princípios morais diferentes daqueles que nos governam normalmente na vida quotidiana, em que não é permissível usar a força para tentarmos obter algo a que, desde logo, não temos direito e nada muda quando essa força é empregue por estados ou colectivos políticos.

 

*

Steven Pinker

Num artigo que pretende responder à pergunta: Será que a guerra Russa com a Ucrânia é o fim da Longa Paz? Steven Pinker começa por referir a amarga ironia do seu livro “Os Anjos Bons da Nossa Natureza -- Porque tem declinado a violência” estar agora a ser impresso na sua tradução ucraniana. Numa outra publicação faz também referência ao valioso contributo do Our World in Data ao providenciar todo o tipo de dados para contextualizar a guerra da Ucrânia. 

 

Será que a guerra Russa com a Ucrânia é o fim da Longa Paz?

Por Steven Pinker

 

Resumo: A Longa Paz (o declínio das guerras entre estados desenvolvidos desde a Segunda Guerra Mundial) não é inevitável. Dos cinco contributos para a paz referidos nos “Bons Anjos”, três aplicam-se à Rússia (o comércio inter-estatal, a participação em organizações globais e a ilegalização das guerras de agressão por parte das Nações Unidas), mas duas não (a Democracia, pois a Rússia é uma "autocracia eleitoral" e o Humanismo do Iluminismo -- a convicção de que o bem último é a vida, a liberdade e a felicidade dos indivíduos).

Sendo a Ucrânia o país mais pobre da Europa, significa que, por definição, a Longa Paz ainda não foi quebrada, pois mantêm-se a zeros os restantes requisitos: guerras nucleares, guerras entre grandes potências e guerras entre países ricos. 

No entanto, aquilo que parece ser a obsolescência da guerra inter-estatal depende da promoção das forças do iluminismo que levaram a violência ao declínio, incluindo a valorização da vida humana e as normas e instituições de cooperação global.   

 

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Yuval Harari

O reconhecido historiador e best seller, Yuval Harari, reflecte sobre como este evento único pode mudar o curso da história. Expande também alguns desses pontos de vista nesta entrevista TED

 

O que está em jogo na Ucrânia é a direcção do curso da história humana

Por Yuval Noa Harari

 

Resumo: Coloca a questão: Será possível mudar? Ou a crise na Ucrânia demonstra que o ser humano está condenado a repetir para sempre as tragédias passadas?

Uma escola de pensamento nega a possibilidade de mudança e afirma que, quem não acredita na lei da selva, está, ingenuamente, a colocar-se em risco. 

Uma outra escola de pensamento argumenta que a lei da selva não é natural, mas sim feita pela humanidade e que por isso a mudança é possível e já está a ocorrer por todo o lado: 

  • Ao longo das últimas gerações, as armas nucleares levaram as super-potências a encontrar formas menos violentas de resolver conflitos.
  • A economia global deixou de ser à base de bens materiais para ser à base de conhecimento. Como resultado, a rentabilidade da conquista diminuiu.
  • Ocorreu também uma mudança cultural: pela primeira vez na história, o mundo tornou-se dominado por elites que vêem a guerra como sendo terrível e evitável. 
  • A pólvora tornou-se menos letal do que o açúcar: mesmo tendo em conta todos os tipos de conflitos, nas duas primeiras décadas do século XXI a violência humana matou menos pessoas do que o suicídio, acidentes de automóvel ou doenças relacionadas com a obesidade.
  • Grande mudança no próprio significado do termo "paz": durante a maior parte da história, significou apenas "a ausência temporária de guerra ", mas nas últimas décadas, passou a significar "a implausibilidade da guerra".
  • Isso tem-se reflectido nos orçamentos: nas últimas décadas, os governos de todo o mundo têm-se sentido suficientemente seguros para gastar uma média de apenas cerca de 6,5% dos seus orçamentos nas suas forças armadas (enquanto gastam muito mais na educação, cuidados de saúde e assistência social).

Mas o facto de isso resultar de uma escolha humana também significa que é reversível. Devido a esse facto, a ameaça russa de invasão da Ucrânia deve preocupar todas as pessoas na Terra. Pois caso volte a ser uma norma países poderosos aniquilarem os seus vizinhos mais fracos, um resultado óbvio é um regresso à lei da selva: 

  • A nível nacional isso significaria um aumento acentuado das despesas militares à custa de tudo o resto (o dinheiro que deveria ir para os professores, enfermeiros e assistentes sociais iria, em vez disso, para tanques, mísseis e armas cibernéticas).
  • A nível internacional isso prejudicaria a cooperação global em problemas como a prevenção de alterações climáticas catastróficas ou a regulamentação de tecnologias disruptivas como a inteligência artificial e a engenharia genética. 

Caso se acredite que a mudança é impossível, a lei da selva dita que a escolha é entre ser a presa ou o predador, e a maioria dos líderes irá querer ficar para história como o predador alfa.

Caso se acredite que a mudança é possível, aquele líder que escolher arruinar o nosso maior feito, ficará para a história como aquele que, depois de já termos saído, nos levou de volta para a selva.

A única constante da história humana é a mudança. E isso é algo que talvez possamos aprender com os ucranianos: apesar da história, da pobreza e de obstáculos aparentemente intransponíveis, os ucranianos estabeleceram uma democracia. A sua democracia e a "nova paz" são frágeis e podem não durar muito tempo. Mas ambas são possíveis e podem atingir raízes profundas. Tudo se resume a escolhas humanas. 

 

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E o nosso leitor, que leituras sugere?  

24 de janeiro de 2022 Blog

O Maior Filósofo Moral do Século

José Oliveira
 

Ethics and Existence: The Legacy of Derek Parfit

Organizado por Jeff McMahan, Tim Campbell, James Goodrich e Ketan Ramakrishnan

 

Resumo

"Derek Parfit, que morreu em 2017, é largamente considerado o melhor filósofo moral em mais de um século. Os vinte novos ensaios deste livro foram escritos em sua honra e todos foram inspirados pelo seu trabalho — em particular, o seu trabalho numa área da filosofia moral conhecida como "ética populacional", que se preocupa com as questões morais levantadas pelo facto de se trazer pessoas à existência. Até Parfit ter começado a escrever sobre estas questões nos anos 70, quase não havia discussão sobre elas em toda a história da filosofia. Mas o seu monumental livro Reasons and Persons (OUP, 1984) revelou que a ética populacional abunda em problemas profundos e complexos e paradoxos que não só desafiam todas as principais teorias morais, mas também ameaçam minar muitas e importantes crenças morais do senso comum. Não é exagero dizer que existe uma vasta gama de questões morais práticas que não podem ser adequadamente compreendidas até que problemas fundamentais na ética da população sejam resolvidos. Estas questões incluem o aborto, lesões pré-natais, rastreio pré-natal de incapacidades, melhoramento genético e eugenia em geral, consumo de carne, alterações climáticas, reparações por injustiças históricas, a ameaça de extinção humana e até mesmo a proporcionalidade na guerra. Embora os ensaios deste livro abordem problemas fundacionais da ética populacional que foram descobertos e discutidos pela primeira vez por Parfit, não são, na sua maioria, comentários sobre o seu trabalho, mas, em vez disso, baseiam-se nesse trabalho para fazer avançar a nossa compreensão dos problemas em si. Os colaboradores incluem muitos dos escritores mais importantes e influentes nesta área florescente da filosofia."

Ver mais informação aqui.




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